"Tinha 12 anos quando os meus pais decidiram regressar da Alemanha. Não queria vir, chorei durante semanas"

Brunch com o presidente da Câmara Municipal de Beja, Paulo Arsénio.
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Estou a visitar a olaria de António Mestre - o mestre Mestre, como alguém aqui em Beringel já me tinha alertado -, quando recebo um SMS de Paulo Arsénio a dizer que me espera no Parque da Vila, zona de lazer junto a uma albufeira e que tem um café onde podemos conversar. É o fim de semana em que o Concelho de Beja, do qual Beringel é uma freguesia, acolhe o Festival Terras Sem Sombra, que junta Património, Música e Ambiente, e o presidente da câmara está com a agenda bastante preenchida, mas arranjou uma hora ao final da tarde para me contar um pouco da sua vida e falar também destas terras.

Assim, começo logo por perguntar como é que um natural de Évora se torna autarca de Beja, certo de que haverá história por trás: "O meu pai, Eduardo Francisco, é do Concelho de Mértola, de uma localidade chamada Vale d"Açor, de um monte ali exatamente ao lado. E a minha mãe, Mariana Teresa, é de Albernoa, aqui no Concelho de Beja. O meu pai ingressou na CP, esteve algum tempo nas oficinas do Barreiro, e, na altura do meu nascimento, estávamos a viver em Casa Branca e ele era ferroviário lá na estação. Bom, naquela manhã, era por lá que a minha mãe estava e o Hospital de Évora era o mais próximo. Acabei por nascer às 11 da manhã do dia 29 de outubro de 1971 e fui registado em Santiago do Escoural, a que pertence Casa Branca".

Sentados numa mesa com vista para a Barragem do Pisão, sentimos finalmente o calor alentejano a dar sinais de abrandar, mas mesmo assim sabe bem a Bandida do Pomar, uma sidra fresquíssima que pedi, imitando Paulo. Mas não deixo de pensar que se estivéssemos a beber uma cerveja, seria o cliché ideal para falarmos sobre a experiência alemã da família Arsénio, que marcou, digo eu, a personalidade deste autarca eleito pelo PS e que vai no segundo mandato.

"O meu pai, quando eu tinha poucos meses, vai para soldador na Daimler-Benz, em Sindelfingen, e passado um ano saiu da residência que a firma lhe tinha providenciado e chamou a minha mãe e a mim. Foi uma emigração legal - e não é nenhuma crítica a tantos portugueses que tiveram a necessidade de saltar a fronteira -, com papéis e tudo, nas melhores condições. Rescindiu com a CP, foi para a Alemanha, e nós fomos depois em final de 1972, início de 1973. Vivíamos numa pequena localidade chamada Friolzheim, onde nos integrámos bem", conta Paulo, lembrando-se que havia muitas famílias turcas e italianas, algumas gregas e espanholas e também jugoslavas. "Na altura a Jugoslávia ainda funcionava como país, não se tinha desintegrado, como acabou depois por acontecer, depois da Guerra dos Balcãs, pondo fim ao país que o Marechal Tito tinha idealizado", conta Paulo, mostrando que não perdeu o gosto pela História, licenciatura que tirou, ele que é hoje funcionário da Autoridade Tributária, atividade suspensa enquanto tiver cargo político.

Na Alemanha, Paulo estava bem integrado e falava fluentemente a língua, mas teve de acompanhar os pais quando estes regressaram. Para o miúdo de quase 12 anos, prestes a entrar na adolescência, foi duro. "Não queria vir, chorei durante semanas, é natural, tinha os meus amigos na Alemanha", conta Paulo, acrescentando que os pais não eram talvez os emigrantes típicos, nunca pensaram ficar muitos anos fora. Ao falar sobre emigrantes, o autarca diz-me que estamos na terra de Linda de Suza, nome artístico da alentejana Teolinda Joaquina de Sousa Lança, que fez carreira como cantora em França, mas popular igualmente na nossa comunidade na Alemanha. "Tínhamos também as nossas cassetes e discos de 45 rotações com as músicas da Linda de Suza, uma filha de Beringel."

Ao regressar, a família instala-se em Beja. E Paulo faz todo o Secundário até que, no final do 12.º ano, chega a hora de escolher um curso. Jornalismo, diz, era a sua aposta, mas as coisas não correram como esperava. "Fui um bom aluno no Secundário, não um aluno muito aplicado do ponto de vista de estudar, mas era assíduo às aulas, tinha também capacidade de memorização um pouco acima da média, e isso valeu-me sempre notas muito boas, estamos a falar de notas entre os 16 e os 17 valores de média. História foi apenas a minha quinta opção na altura de escolha da Universidade, porque coloquei Comunicação Social na Nova e na Universidade da Beira Interior, em primeiro e segundo lugar, e depois escolhi alguns outros cursos pelo meio. Creio que a terceira opção foi Administração Pública no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Acabei por entrar em História". Comento com Paulo ser só dois meses mais velho e que entrei tal como ele, nessa altura, na universidade, no caso o ISCSP, onde também havia Comunicação Social. E rimo-nos de como eu setubalense e ele alentejano nem sequer sabíamos onde ficavam as faculdades lisboetas.

"Fui morar para Moscavide, e nessa altura era muito mais fácil arranjar casa em Lisboa do que é hoje. Os pais, mesmo dos alunos de província, se se juntassem para dividir casa era possível irmos estudar para Lisboa. Pensei ainda que havendo também Comunicação Social na Nova, poderia depois pedir transferência, findo o 1.º ano. Mas a direção da Faculdade interferiu nos pedidos de mudança de curso. Fiquei em História durante quatro anos e ainda fiz mais um ano e meio da parte curricular de mestrado, mas não o completei. Fiquei com uma equivalência de pós-graduação", explica.

Licenciado, Paulo foi chamado a prestar serviço militar quando já eram raros os universitários chamados, e não chegou a dar aulas. "Acabei por ter duas oportunidades para trabalhar em História, uma delas na Câmara Municipal de Ferreira do Alentejo, e a outra no antigo IPPAR, onde fui a uma entrevista. Curiosamente, o vencimento no IPPAR era inferior ao que era na Câmara de Ferreira, mas queria mesmo trabalhar, na altura, no IPPAR e nas ruínas romanas de São Cucufate, no Concelho da Vidigueira. O vencimento era equivalente a um salário mínimo e meio, e foi cerca de um ano em que tive ali muitas aventuras, porque na altura o espaço não era resguardado e proporcionava-se a todo o tipo de experiências. Lembro-me, por exemplo, de um casal que foi visitar, a um domingo, a ruína romana e que deve ter deixado o carro destravado, e o carro caiu para dentro de um grande tanque romano. E depois lá andou o Paulo Arsénio à procura dos bombeiros para sacar o carro. O que é engraçado é que o carro caiu no tanque, um tanque romano do século IV e depois andou", conta, entre risos.

Antes da candidatura a presidente da câmara em 2017, já tinha 20 anos de Assembleia Municipal e até uma passagem pela Assembleia da República em regime de substituição. Com as duas vitórias de Paulo, são agora três as vezes que os socialistas conquistaram a câmara bejense, mas, contando desde as primeiras autárquicas, ainda impressionam os dez triunfos do PCP. Pergunto se deixou de ser verdade que o Alentejo é terra vermelha: "O Distrito de Beja nesta altura, já não é comunista. O mito de que há uma maior seriedade e maior capacidade de trabalho dos autarcas comunistas hoje não faz sentido. Mas as autárquicas funcionam muito em função das pessoas, dos programas também, com certeza, mas nas localidades do interior, sobretudo, dependem muito dos candidatos e do percurso dessas pessoas na vida da comunidade ao longo dos anos."

Enquanto estamos a conversar, são várias as pessoas que vêm cumprimentar o presidente de câmara. Paulo diz que é sempre assim quando visita as freguesias, e também na cidade, mas aí, a seguir ao aperto de mão, costuma vir uma queixa ou um pedido. "Há uma árvore que está caída há algum tempo e que a Câmara nunca mais recolhe, há aquela viatura que está em frente à casa, tudo problemas, digamos, de cidade. Nas aldeias, normalmente é o presidente da Junta que é confrontado em primeiro lugar e só depois o presidente da Câmara. Mas faz parte da função e as pessoas hoje são cada vez mais educadas, mesmo numa reclamação."

Falamos da dificuldade de fixar os jovens no interior. Muitos bejenses que vão estudar fora não regressam, admite o autarca. Mas nos últimos anos tem havido melhorias. "Tivemos uma grande transformação com o empreendimento de fins múltiplos do Alqueva, a chegada do regadio ao território, que fez com que muitas parcelas de terras abandonadas deixassem de o ser. E o turismo também conheceu uma transformação. Hoje temos em Beja muitos empreendimentos de turismo premium a nível mundial, de turismo rural. Isso cria emprego, cria até emprego de qualidade. Mas continuamos a perder população, e se olharmos para os Censos de 2011 e para os de 2021, o Concelho de Beja perdeu 6,8% da população. Hoje temos 33 ou 34 mil habitantes, com 26 mil na cidade e 8 a 9 mil nas freguesias rurais. Digo 8 a 9 mil porque há uma população também itinerante. Estou a falar da nova imigração", sublinha.

Em Beringel, que fica perto da exploração agrícola Vale da Rosa, famosa pelas uvas sem grainhas, são visíveis os imigrantes que chegam a Portugal para trabalho agrícola. É sábado e são algumas dezenas os homens, provavelmente indianos, que de telemóvel na mão se sentam nos bancos das praças desta vila que já foi sede de concelho. Pergunto a Paulo como vê a comunidade estes estrangeiros que não falam português e não estão com a família. "Não é um assunto de todo fácil. Esta imigração tem chegado em números muito significativos ao território. Nalguns casos vivem em condições muito precárias, estamos a falar de situações habitacionais, alimentares e outras. A integração cultural, por serem culturas tão diferentes das culturas latinas desta parte da Europa, também coloca um desafio muito complexo aos territórios onde estão instalados. O que víamos há alguns anos é que esta comunidade, durante o dia, estava toda ocupada em vários tipos de trabalho, com um predomínio muito expressivo do trabalho de agrícola. Atualmente, com a crescente mecanização da agricultura, e com a chegada de um número cada vez maior de cidadãos, o que já vamos vendo muito é que nas cidades, aldeias e vilas do nosso território, estas pessoas são em grande número mesmo durante o dia todo. Trata-se provavelmente de pessoas que são contratadas ao dia ou à semana e que em determinado dia ou semana não têm atividade para cumprir, e, portanto, acabam por deambular mais horas pelas ruas, o que cria de facto aqui também um choque cultural e funcional com o qual não estávamos habituados. A integração tenta-se fazer através de projetos com a comunidade, de um conjunto de parcerias que as câmaras municipais têm. Falo, neste caso de Beja, por exemplo, com a Cáritas Diocesana, a Associação Comunidade de Imigrantes, a Associação "Estar", e com outras entidades do meio, e que têm protocolos com a Câmara Municipal, no sentido, em primeiro lugar, de levar esta comunidade a aprender o mínimo da língua portuguesa", admite.

Estamos quase a terminar a conversa e não resisto a uma pequena provocação, questionando a razão de ser do Aeroporto de Beja: "Não é um elefante branco de todo, é sim uma grande mais-valia para a região. E a primeira ideia que interessa desmistificar é a seguinte: ao contrário daquilo que muitas vezes se diz, que o aeroporto não tem atividade, não é verdade. Ou seja, aconselharia as pessoas que difundem essa informação, a falar com a direção do aeroporto. Estamos a falar nesta fase, sobretudo, de dois tipos de negócios: um é a manutenção de aeronaves e neste momento temos a instalação da Mesa, que tem um grande hangar no aeroporto. É uma subsidiária da empresa iFly que se autonomizou, que se chama Mesa Aircraft and Engineering Maintenance e já faz manutenção de aeronaves da TAP. E a segunda atividade que preenche muito o aeroporto são os chamados voos VIP, voos privados que, muitas vezes, lotam a área de parqueamento disponível. Estamos a falar, em alguns casos nos períodos de verão, de vários voos diários. Agora, todos achamos, e a Câmara de Beja também acha, que o aeroporto pode dar mais ao território, mas para isso são necessárias três ou quatro premissas. Em primeiro lugar, por estranho que possa parecer, o aeroporto tem de ser ampliado no que concerne à placa de estacionamento e aos lotes disponíveis para o lado da pista. A placa de estacionamento do aeroporto de Beja está sistematicamente cheia, ou com aviões que vão entrar para a manutenção da Mesa, ou que estão parqueados por três ou quatro dias desses pequenos voos. A placa de estacionamento do aeroporto comporta só 12 aeronaves, se tiverem uma arrumação perfeita. Depois, precisamos de mais lotes para o outro lado. O aeroporto tem três lotes, um é onde está o hangar da Mesa e os outros dois estão praticamente fechados em termos de negócio com a Mesa. E, portanto, é necessário que surjam mais negócios que possam ter sustentabilidade, para que a ANA, a empresa que gere o aeroporto, possa fazer a expansão. E está disponível para fazê-lo. Relembro que o aeroporto de Beja, entre os aeroportos privatizados em 2012 e até ao ano de 2062, está no pacote de concessão do que foi vendido aos franceses da Vinci, mas é um aeroporto que, podendo ser ampliado, pode trazer mais negócios à região e pode também servir para passageiros. Não descartamos a opção passageiro, para apoio ao aeroporto de Faro, onde a situação é de quase lotação esgotada. Temos uma aerogare que comporta cerca de 250 passageiros/hora. Para receber um avião de hora a hora, ou de duas em duas, ou três em três horas, uma aterragem e um levantamento, essa capacidade o aeroporto de Beja tem. Ainda uma nota muito importante, é que o aeroporto de Beja funciona numa infraestrutura militar. Temos também de ter essa noção. Portanto, na torre de controlo o serviço é feito por militares, tem a pista, que é a segunda mais comprida a nível nacional a seguir à da Portela, com 3,5 km, e a mais larga a nível nacional, com 60 metros, mas é militar. E tudo o que se faz em Beja tem de ter um convívio com a Força Aérea Portuguesa", sublinha o autarca sobre uma estrutura que nasceu nos Anos 1960 no âmbito de uma parceria com a Força Aérea Alemã.

Voemos agora até ao Pax Julia, o teatro municipal que vai buscar o nome à designação romana de Beja. No palco, para apresentar os músicos Jörg Ulrich Krah, violoncelista, e Bernhard Parz, pianista, que vão interpretar obras de Beethoven, Martinů, Fuchs e Strauss, está o historiador José António Falcão, diretor do Terras Sem Sombras. Depois é a vez de Paulo Arsénio cumprimentar a dupla de artistas vinda de Viena e também os representantes da embaixada da Áustria presentes. Depois de umas palavras em português, segue-se um cumprimento em alemão, de alguns minutos, que impressiona a assistência, em que há muita gente de fora da terra. Quantas cidades terão em Portugal um autarca capaz de falar alemão de forma fluente? Valeu muito aquela década com os pais em Friolzheim, no Baden-Vurtemberga.

leonidio.ferreira@dn.pt

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