Thatcher e Merkel como inspiração

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Liz Truss tornou-se o mais efémero dos chefes de governo britânicos e Giorgia Meloni acaba de tornar-se o primeiro político de extrema-direita designado primeiro-ministro de Itália desde o fim da Segunda Guerra Mundial. No primeiro caso, ficou no caos o Partido Conservador e de certa forma o próprio Reino Unido, no segundo abre-se uma era de incerteza na Itália mas também na União Europeia, pois pela primeira vez um país fundador e dos chamados grandes tem uma liderança pouco entusiasta do projeto europeísta.

Talvez tenha reparado que usei a regra do masculino para referir Truss no contexto dos chefes de governo britânicos e que também o fiz para enquadrar Meloni no dos políticos italianos do pós-1945, mas propositadamente não referi que uma era já a terceira mulher a chegar a primeira-ministra britânica (todas conservadoras!) e que a outra se tornara a primeira primeira-ministra italiana da história, deixando a Espanha como o único dos tais grandes da UE (incluindo a Polónia e o Reino Unido pré-Brexit) a nunca ter sido governado por uma mulher.

Sem querer exagerar, é positivo que em 2022 o sexo do governante ou da governante já não seja automaticamente notícia ou pelo menos o essencial da notícia. E há algumas razões para isso. Quando comecei a trabalhar no DN em 1992 eram já célebres líderes como a cingalesa Sirimavo Bandaranaike, a indiana Indira Gandhi, a israelita Golda Meir, a paquistanesa Benazir Bhutto ou a turca Tansu Ciller, mas na Europa Ocidental, muitas vezes identificada como a mais progressista parte do mundo, as primeiras-ministras até então contavam-se pelos dedos das mãos (e sobravam alguns), com a britânica Margaret Thatcher como a pioneira em 1979 a brilhar, mas também a norueguesa Gro Harlem Brundtland, a portuguesa Maria de Lourdes Pintasilgo e a francesa Edith Cresson (ambas por nomeação presidencial) e duas presidentes, Vigdís Finnbogadóttir da Islândia e Mary Robinson da Irlanda. Nas contas europeias, claro que não eram incluídas as chefes de Estado que eram rainhas, como Isabel II, mesmo que o seu desempenho possa ter ajudado à normalização da ideia de ter mulheres líderes.

Passados 30 anos, e contando com Meloni e sem ter em conta já Truss (nem a hipótese de a sua sucessora ser Penny Mordaunt, candidata a liderar os conservadores), conto em toda a Europa cerca de dezena e meia de primeiras-ministras e presidentes, da francesa Élisabeth Borne à húngara Katalin Novák e à georgiana Salomé Zurabishvili, com praticamente todas as regiões europeias representadas. É óbvio que uma análise mais ao pormenor identificará verdadeiros pesos-pesados da política nacional lado a lado com figuras mais decorativas, mas isso acontece também se estivermos a olhar para os líderes masculinos.

Tenho um filho e uma filha e desejo para ambos que possam igualmente ambicionar ser o que quiserem sem constrangimentos herdados de outras eras. E tenho consciência de que Portugal (como o essencial da Europa) beneficia dos tremendos progressos recentes na condição feminina, tanto ao nível das leis como na evolução da própria sociedade. Mas não deixo de pensar que, independentemente de se concordar ou não com as respetivas ideologias, personalidades com Thatcher e Merkel (tal como hoje de outra forma a finlandesa Sanna Marin) são inspiradoras para qualquer jovem europeia que sonhe ter uma voz na definição do futuro do seu país. E foram elas, as europeias, a fazer a diferença, até porque ao contrário do que se passa na Ásia do Sul e outras partes do mundo, não contou serem filhas ou viúvas de políticos.

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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