Textos e contextos de três séculos de teatro em Lisboa

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Para além de variadíssimos estudos parcelares, dispomos apenas de três História(s) do Teatro Português (o título é-lhes comum) a de Luciana Stegagno Picchio (tradução de Manuel Lucena, em 1969, da sua Storia del Teatro Portoghese, de 1964); a de Luiz Francisco Rebello (1967), já em 4.ª edição, revista e actualizada (1989), e a de Duarte Ivo Cruz (2001). Mas nestes estudos o teatro criado e representado em Portugal, desde a Idade Média à (respectiva) actualidade, é estudado como género literário (contexto poético, estético e intertextual dos dramaturgos e da sua produção).

Os três primeiros volumes da colecção "Páginas de Teatro", recentemente lançados- O Teatro em Lisboa no Tempo do Marquês de Pombal, de Almeida Garrett e da Primeira República - partilham com estes compêndios a arrumação cronológica da informação (recobre a segunda metade do século XVIII, o XIX e o primeiro quartel do XX), embora o tratamento da mesma obedeça a uma noção de teatralidade consideravelmente alargada, não residindo já no texto dramático a especificidade da modalidade artística, mas nas intervenções intrínsecas e extrínsecas que, num momento cultural específico, moldaram a dimensão espectacular da comunicação teatral.

A divisão e a arrumação das matérias esclarecem, aliás, a metodologia que orientou este projecto do Museu Nacional do Teatro. Debruçando-se sobre períodos históricos em que o teatro se transformara já num acto cultural público e numa actividade económica, o segundo e terceiro livros - assinados, respectivamente, por Ana Isabel P. Teixeira de Vasconcelos e por esta e Glória Bastos -, seguem um esquema idêntico caracterização dos espaços teatrais (de actuação e de observação) e da sua ligação ao gradual desenvolvimento urbano da capital; relacionamento entre criação e condicionamentos sociopolíticos (o horizonte de expectativas cultural, mas também a censura e o financiamento); descrição da estruturação das companhias (contratos e pagamentos), tipologia dos espectáculos (onde brevemente se abrange a variação dos modos de representação) e constituição de reportórios (de teatro português e também da dramaturgia europeia que por aqui se viu, adaptada, traduzida ou rescrita); levantamento da actividade crítica; listagem das figuras relevantes no meio.

Pelo contrário, a estratégia do primeiro livro - da responsabilidade de Maria Alexandra Trindade Gago da Câmara e Vanda Anastácio - adequa-se à necessidade de expor e caracterizar as instabilidades de vária ordem que afectaram a prática teatral no século XVIII português. Segue-se, assim, a emergência de novo modelo teatral pedagógico e reformista; o modo como o Estado "iluminado" o pretendeu controlar (apesar de concentracionária, a curta existência de uma nova entidade reguladora, a Real Mesa Censória, emancipou a arte da tutela religiosa, facto que contribuiu para o desenvolvimento pré-romântico da vocação cívica do teatro); a estabilização das tipologias teatrais, separando-se claramente entre teatro declamado e musical; a criação do primeiro normativo legal sobre "teatros públicos", cuja ingresso começa a ser pago; a proliferação de extravagantes soluções arquitectónicas e cenográficas para os diferentes palcos, as quais se adaptavam à figuração mais ou menos elaborada do(s) vário(s) poder(es).

Apenas se lamenta que o bisonho design gráfico dos três volumes contrarie a novidade do seu ponto de vista, a inteligência com que neles se articula informação actualizada, rigor metodológico e abrangência cultural (a escolar reprodução das imagens, pouco cuidada ou em dimensões que as tornam indecifráveis, segue o preceito obsoleto de "ilustrar" o texto).

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