Os ataques de Bombaim estão já a perturbar a relação entre a Índia e o Paquistão, duas potências nucleares que, nos últimos 60 anos, estiveram três vezes em guerra, mas que entretanto se envolveram num difícil processo de aproximação. Segundo fonte oficial, foram presos vários terroristas e pelo menos um deles era paquistanês. O general que dirigiu as operações contra o grupo de atacantes, R. K. Hooda, diz que estes "são originários do outro lado da fronteira, talvez de Faridkot, no Paquistão"..Um pouco antes desta revelação, e numa declaração ainda cuidadosa, o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, dissera que o grupo viera "de fora" do país. O Paquistão condenou de imediato o ataque e pediu às autoridades da Índia para não tirarem "conclusões sem provas"..Mas ontem corriam rumores de que o grupo terrorista chegou a Bombaim por via marítima, numa vedeta lançada por um navio de maior porte. A agência indiana PTI noticiou que a marinha tinha abordado dois cargueiros paquistaneses que estavam ao largo das costas do Gujarate..Os atentados de Bombaim foram reivindicados por um grupo militante islâmico que se definiu como Mujahedeen do Decão, ou seja, afirmando-se de uma região da Índia (o planalto no interior do Estado a que pertence a cidade). Mas a confirmar-se a pista de Faridkot paquistanesa, este ataque pode estar relacionado com o conflito em Caxemira. Um dos principais grupos militantes originários desta região, Lashkar-e-Toiba, já negou o seu envolvimento..A Índia é um dos países do mundo mais afectados por acções terroristas de inspiração islâmica radical, fenómeno que se intensificou com os movimentos ligados à Al-Qaeda. Mas são também frequentes as acções mortíferas de fundamentalistas hindus. Aliás, existe uma longa história de animosidade entre as comunidades muçulmana e hindu, que se envolveram em grandes barbaridades durante a partilha da Índia colonial, em 1947, que resultou na criação dos dois países, Índia e Paquistão (mais tarde também Bangladesh)..O conflito religioso teve um momento crítico em 1992, quando fundamentalistas hindus destruíram a mesquita de Babri, construída no século XVI num local onde supostamente existira um templo dedicado a Rama. Conhecido por incidente de Ayodhya, este caso originou motins onde morreram centenas de muçulmanos, num contexto de grande intolerância religiosa..No ano seguinte, em atentados que lembram os de anteontem, militantes islâmicos atacaram Bombaim , tendo por alvo primordial a Bolsa de Valores. Morreram 257 pessoas. Os terroristas disseram na altura que tentavam vingar os incidentes de 1992..Caxemira é, apesar de tudo, a principal razão da discórdia entre a Índia e o Paquistão. Na altura da partilha, morreram dezenas de milhares de pessoas no norte da Índia, no Punjabe, que foi dividido em duas partes. Uma destas partes, Caxemira, era maioritariamente muçulmana, mas ficou para a Índia..Houve duas guerras por causa disto, mas a partir de 1989 surgiu uma insurreição que se intensificou nos últimos anos da década de 90. Formaram-se vários grupos radicais islâmicos e a Índia acusou o Paquistão de fornecer armas aos rebeldes. A luta contra a Al-Qaeda forçou Islamabad a mudar de atitude e, nos últimos anos, houve negociações de paz.