As ribeiras de Cobres e Terges estão secas. Só resiste ainda uma poça de água escura e, sobre ela, o ar vibra de insetos. O resto são pedras: os leitos, que mais à frente se juntam num único afluente do Guadiana, na fronteira dos concelhos de Beja e de Mértola. Mas se a paisagem dos barrancos em volta é uma imagem de secura, com bovinos, sobreiros e azinheiras que resistem sob um sol a pique, junto destas pedras, que no inverno se ocultam sob a corrente das águas, há "oásis" de vida, como lhes chama o biólogo Pedro Rocha. É ele quem conduz o grupo na última caminhada dedicada à biodiversidade do festival Terras sem Sombra: um passeio entre as duas ribeiras nos confins do Baixo Alentejo, durante o qual se falará da inesperada riqueza vegetal do sítio, do turismo inteligente que pode preservá-la e, claro, dos linces. Eles já andam por aqui e essa é, afinal, a grande novidade..Domingo, 19 de junho. Na última manhã de atividades do Terras sem Sombra, festival que tem a particularidade única de juntar música erudita, património e biodiversidade, e que acaba de concluir a sua 12.ª edição (ver caixa), várias dezenas de pessoas foram à Herdade de Xistos para conhecer a riqueza destes oásis entre as ribeiras de Cobres e Terges..Junto do leito seco, Pedro Rocha, que é o diretor regional do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) do Alentejo, e o consultor das atividades de biodiversidade do Terras sem Sombra, aponta a colina que se ergue mesmo em frente, do outro lado da ribeira. "Ali já é concelho de Mértola", diz. E depois a notícia que arranca um coro de ahs aos caminheiros. "Os nossos registos mostram que o Kempo ainda há pouco andou por aqui.".O Kempo é um dos 19 linces-ibéricos libertados na zona de Mértola, no âmbito do programa de reintrodução da espécie na natureza, em Portugal. Dos 19, dois já morreram: a Mirtilis, com uma infeção de uma bactéria que é transmitida por gatos domésticos, a Kayakwero, por envenenamento com estricnina, caso ainda em investigação..A coleira com sistemas de VHS e GPS que Kempo traz ao pescoço - como todos os linces reintroduzidos no Parque Natural do Vale do Guadiana, na região de Mértola - mostra que ele andou por ali, junto à ribeira, há bem pouco tempo, provavelmente em busca de coelho, o alimento preferido da emblemática espécie. "Os emissores têm uma duração limitada", explica Pedro Rocha. "Nalguns casos, deixaram de funcionar no VHS, mas mantiveram o GPS, ou vice-versa", adianta. Mas a equipa do ICNF que acompanha os linces na região tem conseguido seguir os movimentos dos animais, até porque foram também colocadas estrategicamente no terreno entre 50 e 60 câmaras fotográficas, que funcionam automaticamente à passagem dos animais. Foi graças a elas, aliás, que se percebeu que uma das fêmeas, a Jacarandá, libertada ali em fevereiro de 2015, teve, já em março deste ano, uma cria, no que foi o primeiro nascimento de linces-ibéricos na natureza, em Portugal, desde há 40 anos. Um acontecimento histórico, que "é um marco na conservação" da espécie em Portugal, como diz satisfeito Pedro Rocha, e que acabou por se repetir quase logo depois, com a confirmação, a 12 de maio, do nascimento de uma segunda ninhada, desta vez da fêmea Lagunilla ..As boas notícias confirmam que a escolha da zona do parque, no concelho de Mértola, para reintroduzir a espécie, foi a acertada. Entre outras particularidades, há ali "uma boa densidade das populações de coelho, a localização geográfica é adequada, porque garante a proximidade entre os diferentes territórios cruzados pelos animais, e há também uma boa densidade de arbustos, vegetação de que os linces precisam como refúgio", explica Pedro Rocha..Aposta no turismo sustentável.Paula Mira, a proprietária da Herdade dos Xistos, onde criou um projeto de agroturismo, acompanha o grupo nesta caminhada, e não podia ter ficado mais satisfeita com a notícia da "visita" do Kempo. Desde miúda que se habituou a fazer passeios às ribeiras, onde se vê esta mata mediterrânica. É Paula Mira quem aponta as covas que, a espaços, se veem no chão terroso. "São tocas de texugos", diz a sorrir. E depois vai desfiando os nomes das plantas que por ali se emaranham: os loendros, a murta, o zambujeiro, várias espécies de rosmaninho e de estevas... Umas, ela usa na gastronomia. Com outras faz produtos para a pele..Foi esta dádiva da natureza que Paula Mira decidiu há anos preservar a todo o custo, "para que outras pessoas, possam usufruir deste passeio, como agora", justifica. Colocou então vedações para impedir o pisoteio e a pastagem do gado naquela zona, e também não faz ali agricultura. Entregue a si própria, a mata mediterrânica vai florescendo. Para Pedro Rocha, este é um caso exemplar de coexistência de atividades humanas e económicas e a valorização do património natural.