Quando Raul Solnado "nasceu" para o cinema português, ao participar em 1956 num dos sorridentes filmes pedagógicos da série Ar, Água e Luz, incluídos na Campanha Nacional de Educação de Adultos, já a comédia portuguesa se tinha despedido dos seus curtos mas brilhantes anos de ouro, e não havia estruturas, argumentistas, histórias nem realizadores à altura do talento do jovem humorista e actor cómico. Que por isso andou a penar pelas comédias pífias da decadência do género, como O Noivo das Caldas, de Arthur Duarte (1956), Perdeu-se Um Marido, de Henrique Campos (1957), ou O Tarzan do 5.º Esquerdo, de Augusto Fraga (1958). .Não é para estranhar que a imagem de Raul Solnado no cinema português tenha ficado associada não a papéis para fazer rir, mas sim a composições dramáticas. A primeira das quais, e a melhor de todas, foi a de João Barbelas, o pobre e cândido bonecreiro "chaplinesco" de Dom Roberto, de José Ernesto de Sousa (1962), um filme profunda e tardiamente influenciado pelo neo-realismo italiano, primeiro do chamado "cinema novo" português e único do seu realizador. (Solnado ganhou o Prémio de Imprensa de Melhor Actor de Cinema). Outro dos papéis cinematográficos mais significativos de Raul Solnado foi o do inspector Santana em A Balada da Praia dos Cães, de José Fonseca e Costa (1987), baseado no livro de José Cardoso Pires, mas em que surge bastante constrangido e desconfortavelmente encaixado na personagem. Apareceria ainda em O Bobo, de José Álvaro Morais (1987), Aqui D'El Rei!, de António-Pedro Vasconcelos (1992), na curta-metragem Senhor Jerónimo, de Inês de Medeiros (1998), e em Call Girl, de novo de António-Pedro Vasconcelos (2007). Deixa por estrear outro drama, América, de João Nuno Pinto. Sobressaiu também noutro pequeno papel, o do guarda de um cemitério, em Requiem (1998), rodado em Lisboa por Alain Tanner. Comparada com o seu trabalho no teatro e sobretudo na televisão, a filmografia de Raul Solnado é escassa, num cinema português que se tornou avesso à comédia e que o usou essencial- mente a contrapêlo daqueles. O grande filme cómico que poderia ter protagonizado ficou para sempre por fazer.