Mesmo só gastando 1% do PIB em despesas de defesa, por causa do tamanho gigante da economia, o Japão é uma das dez maiores potências militares do mundo. Faz sentido todo este debate sobre a alteração da Constituição pacifista pós-Segunda Guerra Mundial, sobretudo a revisão do artigo 9, ou o Japão hoje em termos militares é já uma potência normal e não precisa de mais investimento em defesa para se sentir seguro?Antes de mais, eu devia sublinhar que o Japão está localizado numa área muito desafiante. Nós temos vizinhos muitos interessantes, mas vizinhos desafiantes. A Coreia do Norte, por exemplo, é ainda um país imprevisível. E também temos de ter os nossos olhos postos na China. A ascensão da China é algo misto, trazendo-nos oportunidades tal como desafios. O forte desenvolvimento militar da China é algo que não podemos ignorar. E também a Rússia, não necessariamente um adversário neste momento tão importante como era a União Soviética, mas está também a colocar desafios ao Japão. Assim, porque o Japão está localizado numa área muito difícil ter algum poderio militar é uma espécie de obrigação. Ao mesmo tempo uma das razões por que o primeiro-ministro Shinzo Abe quer mudar a Constituição, particularmente o artigo 9, é porque neste momento as chamadas Forças de Autodefesa (SDF, na sigla inglesa) não são oficialmente reconhecidas como uma força militar. Claro que a sua política é serem exclusivamente orientadas para a defesa do país e portanto não têm intenção nenhuma de usar o seu poder militar para atividades ofensivas, mas são Forças Armadas, claro. Dito isto, é um tanto estranho manter as atuais SDF sem serem reconhecidas pela Constituição e é essa situação que Abe quer mudar. Mas isso quer dizer que a política japonesa exclusivamente virada para a defesa mudará? Eu penso que não. Só mudará o estatuto das SDF..Com a potencial revisão do artigo 9, mesmo mantendo a tradição de autodefesa, pensa que haverá também um aumento em gastos militares por parte do Japão? Porque 1% é uma figura muito baixa mesmo pelos padrões europeus, e nem sequer se compara aos valores dos Estados Unidos ou da China. Pensa que haverá um aumento? Penso que sim, no futuro. Se bem que já está a aumentar ligeiramente agora. Penso que é algo estranho manter esse tipo de teto de 1% do PIB agora que a economia japonesa não cresce assim tanto. Se olhar para os gastos japoneses nas últimas décadas, é quase como uma constante. Mas se olhar para os vizinhos, a despesa militar tem crescido dramaticamente, por isso em termos realistas, o poder militar japonês está quase como que diminuindo, porque o Japão mantém-se constante nos gastos, mas com outros países, particularmente a China, a gastar tanto dinheiro, nota-se uma acumulação militar muito significativa. Nesse sentido, a situação de hoje é um pouco anormal. Portanto, penso que seja normal o Japão gastar uma parte do dinheiro para acompanhar o ritmo de outros países. Assim, será natural que o Japão possa aumentar a capacidade militar, mas não de uma forma que seja exclusivamente usada para as capacidades ofensivas..O Japão está a fazer algumas mudanças na sua marinha adaptando os porta-helicópteros para quase serem um novo tipo de porta-aviões, navio que não possui desde a Segunda Guerra Mundial? Isto significa que o Japão olha para a China e a ascensão militar da China, principalmente em termos de poder marítimo, como principal ameaça? O Japão não vê a China como uma ameaça. Porém, a China está a crescer dramaticamente, especialmente tanto em termos de capacidade naval como em força aérea, não necessariamente em forças terrestres. A China é agora uma potência militar, expandindo-se para além das suas águas territoriais, como é o caso no mar do Sul da China. O problema é que a atividade naval da China, por exemplo viagens que violam as águas territoriais japonesas à volta das ilhas Senkaku - que são território japonês, mas a China não pensa dessa maneira - acontecem agora quase todos os meses, numa base bem regular. O Japão quer manter o status quo, e para manter o status quo o tem de alguma forma manter-se competitivo com a China, porque de outra forma as atividades chinesas perto das ilhas Senkaku irão aumentar, e se o Japão não fizer nada pode mudar o status quo a favor da China. Ou seja, o Japão tem de aumentar a presença de navios à volta das ilhas Senkaku. Não com forças militares, não com as SDF, mas exercendo a soberania marítima com as Forças Costeiras Japonesas..Olhando para outro vizinho, a Coreia do Norte nos últimos tempos tem mostrado vontade de dialogar e a Coreia do Sul é muito otimista sobre as negociações. De uma certa maneira, os Estados Unidos também o são, pois houve já cimeiras entre o líder norte-coreano e o presidente Donald Trump. Mas a posição japonesa é muito cautelosa. O Japão não é otimista acerca de Kim Jong-un abdicar do poder nuclear? O Japão é muito cauteloso em relação à Coreia do Norte, como disse. Há tantos problemas não resolvidos. E, claro, o maior problema, a maior preocupação entre o povo japonês ainda é a questão dos japoneses sequestrados, no sentido em que de repente norte-coreanos entraram ilegalmente no Japão e raptaram pessoas, em geral jovens que depois são forçados a ficar na Coreia do Norte. Alguns deles morreram e outros ainda lá estão e não conseguem voltar ao Japão. A questão dos sequestros é muito, muito importante e molda completamente a perceção do povo japonês acerca da Coreia do Norte. A sensação é muito "como é que podes confiar neles?". Por isso, penso que antes de mais, resolver a questão dos sequestrados é fulcral. E os novos desenvolvimentos intercoreanos, no Japão, são vistos com muita cautela. Talvez aqui na Europa seja um pouco diferente, mas é preciso não esquecer que nós somos um vizinho próximo da Coreia do Norte, da Península Coreana, e algumas vezes, de repente, sem sermos avisados, de todo, eles disparam mísseis. Esses mísseis voam sobre o território japonês. É uma situação muito assustadora, e não sabemos se até este momento foi pura sorte esses mísseis não terem atingido um barco de pesca japonês. Existe a possibilidade de serem alvos. Não intencionalmente, mas acidentalmente. Isso poderia deteriorar a sério as relações bilaterais. Por isso, quando a Coreia do Norte lança mísseis algo frequentemente, é uma ameaça muito, muito séria. E assim o velho problema dos sequestrados mais o novo dos mísseis norte-coreanos juntam-se. Não sabemos o que vai acontecer, pois existe tanta incerteza envolvendo os líderes da Coreia do Norte. Penso que a perceção do Japão em relação à Coreia do Norte mantém-se realmente negativa. E este líder atual, Kim Jong-un, deveria resolver a questão dos sequestros se quer persuadir o público japonês de que procura a paz. Infelizmente sinto que esta perceção da Coreia do Norte se manterá, por haver razões para isso. Hoje a perceção de risco de segurança máximo para os japoneses não é a China, é definitivamente a Coreia do Norte. A China é previsível, não é um poder incerto. As relações sino-japonesas são estáveis, mesmo se alguns problemas existem, claro, mas mesmo assim nós conseguimos comunicar..O Japão olha para a China como um Estado razoável, fiável, mas a Coreia do Norte não é um Estado razoável, não se pode confiar? Sim, permanece grande incerteza sobre a liderança norte-coreana. A Coreia do Norte não é um Estado razoável e o Japão não tem sequer relações diplomáticas com ela. Portanto, não existe um canal oficial entre os governos. Mas com a República Popular da China, o Japão estabeleceu relações em 1972, portanto existe uma longa história de relações diplomáticas. Claro que alguns problemas persistem, mas pelo menos agora os líderes superiores encontram-se frequentemente, e esses líderes têm algumas reuniões e canais para comunicar. Infelizmente, o Japão e a Coreia do Norte não têm esses canais, por causa da falta de relações..Durante a Guerra Fria, e até recentemente, os Estados Unidos eram realmente importantes em termos do sistema de segurança japonês. Com o presidente Trump nós sabemos que as grandes alianças bilaterais e mesmo a NATO não são uma prioridade para os Estados Unidos. Isto também é uma razão por que o Japão precisa de melhorar a sua capacidade militar, para não depender tanto dos Estados Unidos? Penso que Trump é um presidente muito único. E penso também que é imprevisível, por isso tem sido posta muita pressão nos países da NATO, e mesmo o Japão foi pressionado a aumentar a partilha do fardo militar, os gastos na defesa para poder manter as bases americanas no país. Mas mesmo que Trump seja muito imprevisível, penso que o público japonês continua a ver os Estados Unidos como uma potência constante e estável. Por isso, embora neste momento Trump seja o líder dos Estados Unidos, e mesmo que os comentários de Trump criem alguns tipos de desafios difíceis, não significa que a relação Estados Unidos-Japão também trema. A confiança entre os líderes pode estar algo diferente, mas a aliança entre os dois países tem-se mantido muito estável. Temos de distinguir Trump dos Estados Unidos. E a relação bilateral Estados Unidos-Japão tem-se mantido muito estável independentemente dos presidentes em que os americanos votem. As relações militares têm-se mantido muito, muito estáveis. Por isso, a postura do Japão para com a aliança com os Estados Unidos, em termos de segurança, mantém-se a mesma. No máximo, Trump pode abanar as bases da relação, mas seremos sempre um aliado muito importante. Talvez o Japão tenha de pagar mais para manter a relação, mas a atitude-chave manter-se-á..Com a Rússia, muito mais fraca hoje do que no tempo soviético, o Japão tem um problema de disputa de soberania nas ilhas Curilas. É um diferendo que o Japão e a Rússia podiam tentar resolver por via negocial? Essa é uma questão maravilhosa. Pelo menos, Abe tem-se esforçado tanto, e talvez investindo muito capital político, para tentar resolver essa questão dos Territórios do Norte. O Japão tenta ter duas ilhas de volta, a Habomai e a Shikotan. São quatro ilhas agora em disputa, e a ideia é as duas mais pequenas, pelo menos, serem devolvidas pela Rússia. Talvez Abe queira deixar algo importante no seu legado e pense que pode ser a questão territorial e é por isso que está a continuar as negociações. Mas nós japoneses somos muito pessimistas, e há quem ache talvez que não devêssemos negociar com o senhor Vladimir Putin porque ele não tem intenções de devolver as duas ilhas..Em todos estes confrontos regionais com vários países imprevisíveis e com a ascensão também da China, a opção nuclear, para o Japão, não faz sentido? Por causa de Hiroxima e Nagasáqui, a opção nuclear é algo que a opinião pública japonesa nunca permitirá? Exatamente. Não penso que o Japão se torne nuclear um dia, de todo. Claro, tecnicamente o Japão é um país muito avançado com ciência sofisticada e tecnologias, seria tecnicamente possível. Mas o Japão tem a intenção de não desenvolver armas nucleares. E, como disse, o Japão é o único país que sofreu ataques nucleares durante a Segunda Guerra Mundial. Isso é um legado muito importante no Japão. As armas nucleares são algo que nenhum país deveria ter, é o tipo de ideias que muitas pessoas japonesas partilham. Eu não vejo nenhuma opção em que o Japão se torne nuclear. Se acontecer seria tão custoso, e não mudaria muito..Custoso em termos de imagem? Em termos de reputação. E ter armas nucleares não quer dizer nada, seria contraproducente se o Japão decidisse ter armas nucleares. Porque neste momento, até hoje, o Japão está sob proteção do guarda-chuva nuclear dos Estados Unidos, que faz a dissuasão, por isso o Japão não tem de fazer nada por si mesmo. E então se o Japão se tornar nuclear mudaria completamente as dinâmicas políticas da Ásia de Leste, de uma maneira negativa. E claro que antes disso o público japonês nunca permitiria os seus líderes terem uma arma nuclear. Apenas uma suposição, mas se um primeiro-ministro decidisse ir para o nuclear, perderia a eleição seguinte e veríamos uma administração completamente diferente.