Tabaco nacional representa 15% de toda a produção na Europa

Em 2021, o setor exportou mais de 719 milhões de euros e contribuiu com 1,2 mil milhões em impostos para os cofres do Estado. Conclusões são de um estudo publicado ontem pelo ISCTE.
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As alterações nas cadeias de abastecimento que se têm verificado nos últimos três anos, fortemente influenciadas pela pandemia e pela guerra na Ucrânia, reforçaram a importância da reindustrialização da Europa. É neste contexto da reaproximação dos centros de produção que os números apresentados ontem pelo ISCTE, através de um estudo sobre o impacto do setor do tabaco em Portugal, ganham particular relevo. Os dados apontam que, em 2020, o país foi responsável por 14,8% da produção total de cigarros e derivados de tabaco na Europa. "Isto para nós foi uma grande surpresa", reconhece o coordenador Luís Martins Costa. À frente da tabela está a Polónia, com 28,2%.

Em território nacional, existem atualmente quatro fábricas que laboram em nome de três grupos empresariais - a Tabaqueira, subsidiária portuguesa da Philip Morris International (PMI), a Empresa Madeirense de Tabacos (EMT) e a Fábrica de Tabaco Micaelense (FTM). Destas, apenas uma está no continente. "A maior parte dos setores tende a concentrar a produção industrial no continente e não nos arquipélagos", comenta o professor do ISCTE. De facto, o peso da atividade nos Açores e na Madeira corresponde, segundo o estudo "O impacto social e económico da indústria de tabaco em Portugal", a 1,33% do produto interno bruto das duas regiões autónomas. É, aliás, nas ilhas que se verifica uma maior proporção da população ativa beneficiada a nível económico pelo setor que, em todo o país, impacta 44 mil pessoas de forma direta e indireta. "Cerca de 90% correspondem a Portugal Continental, 5,6% nos Açores e cerca de 4% na Madeira", detalha o coordenador.

O documento produzido pelo ISCTE e encomendado pela Tabaqueira sublinha o papel desta indústria na geração de riqueza para o país, quer nas contribuições para os cofres públicos por via dos impostos, quer nas exportações. Considerando os três grupos empresariais e os resultados alcançados em 2021, o tabaco contribuiu com 1,2 mil milhões de euros em receitas fiscais - são cerca de 3,3 milhões por dia. Do lado das vendas ao exterior, a subsidiária da PMI é, até pela dimensão internacional, quem domina nesta rubrica. No período em análise, 86% dos cigarros produzidos pela empresa tiveram como destino a exportação, avaliada em 719 milhões de euros, sobretudo para Espanha, Itália e França. "Representa 1,2% das exportações da indústria transformadora", atesta Luís Martins Costa, que assinala ainda que 93% dos seus fornecedores são portugueses. No total, as compras dentro de fronteiras traduziram-se num impacto de 114,5 milhões de euros.

No seu conjunto, os três operadores do mercado representaram um impacto positivo de 262 milhões no valor acrescentado bruto em 2021. Em 2020, no ano em que teve início a pandemia, o tabaco e a farmacêutica foram os dois setores, dentro da atividade industrial, que contrariaram a contração económica e cresceram acima dos 10%.

O tabaco começou a chegar ao país no século XVI, a partir do Brasil, e o negócio em torno deste produto rapidamente se tornou lucrativo para Portugal. Dois séculos mais tarde, em 1716, 20% do rendimento da coroa portuguesa tinha origem no comércio de tabaco. A FTM foi fundada nos Açores em 1866, antes mesmo do início da produção da EMT, na Madeira em 1913, ou da Tabaqueira, impulsionada por Alfredo da Silva em 1927. Apesar do dinamismo económico verificado nesta indústria - num país que perdeu, desde 2003, mais de dez mil empresas transformadoras - não é possível falar da produção de tabaco sem abordar a carga negativa que tem na saúde da população.

Em entrevista ao DN (ver relacionados), o diretor-geral da Tabaqueira reconhece o necessário "fim dos cigarros" a médio-prazo e aponta a inovação como caminho para lá chegar. Mas a maior transformação é a aposta que o grupo está a fazer na investigação e desenvolvimento e na aquisição de farmacêuticas para abraçar o setor da saúde e do bem-estar - em 2021, a PMI adquiriu a gigante Vectura, numa operação que rondou mil milhões de euros. O desafio é grande, admite o responsável, mas assegura que a transição para um negócio livre de fumo é um compromisso fixo da multinacional.

dnot@dn.pt

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