Sonia Rykiel morreu hoje aos 86 anos, na sua casa, em Paris, a cidade onde nasceu em 1930 e onde fundou a casa com o seu nome em 1968, fazendo das suas inovadoras camisolas de malha a imagem de marca. A designer de moda sofria de Parkinson há cerca de 20 anos anos e estava longe dos negócios desde 2012, mas mantinha-se como chairman da companhia, agora detida por um grupo internacional e com a filha mais velha, Nathalie, na vice-presidência..Foi, em parte, por causa desta filha, nascida em 1956, que Sonia inventou as malhas. Sem encontrar roupa que considerasse confortável, inventou fatos justos. "Tudo era abominável. Por isso, isso fiz um. Depois, um pulôver. A Elle pô-lo na capa", resumiu numa das entrevistas que deu ao longo dos seus 86 anos de vida. Item hoje banal, a camisola de rapazinho pobre (poor boy sweater), como lhe chamou a jornalista que a encontrou na loja Laura, de que era dono o marido de Sonia, foi o princípio de uma longa carreira internacional. "Queria vestir coisas diferentes", justificou. Foi assim até ao fim - ruiva, vestida de negro, abraçava o excêntrico. Era a sua própria musa inspiradora. "Até de costas a reconheceríamos", diz Eduarda Abbondanza, presidente da Associação ModaLisboa, que mostrou a coleção Rykiel no evento, em 2004.."Ela faz parte da História da Moda. Ainda viva já fazia parte da História da moda", considera Abbondanza. "Foi uma revolução nas malhas, por aliviar a mulher naquele momento, tornando-a bonita na mesma"..A infância e o casamento.Sonia, nascida Flis a 25 de maio de 1930, em Paris, era a mais velha de cinco irmãs, filha de mãe russa e pai romeno. Cresceu no seio de uma família burguesa na capital francesa. "Esperava-se que fosse uma mãe como a minha mãe foi, que não trabalhava", explicou numa entrevista. Pensava ter dez filhos, disse em outra ocasião..Nunca se interessou por moda, enquanto criança ou adolescente, revelou, num longo artigo, em discurso direto, no The Guardian. "Nunca tive o menor interesse em roupas em miúda". Estava muito mais interessada "em rapazes do ano letivo seguinte e literatura". Em casa, quem se interessava por roupas era a mãe. "Tinha um gosto requintado", afirmou Sonia. Deixou às filhas memórias agridoces no que a este assunto diz respeito. Frequentava uma loja chique e obrigava-as a usar sapatos com laços e meias brancas altas. "Era horrível". Lembra-se, por outro lado, do sofisticada que ela era quando ia buscar as filhas à escola para irem patinar ao Bois de Bologne..Casou-se em 1953 com Sam Rykiel, dono de uma boutique com bom nome, Laura, em Paris. O casal teve dois flhos. A Nathalie juntou-se Jean-Philippe, em 1961. E aos modelos de grávida juntaram-se as camisolas encomendadas em fábricas italianas que já trabalhavam com o marido. O negócio corria de vento em popa: em 1964. A loja Laura abre nas Galerias Lafayette. Quatro anos depois, Sonia divorcia-se e funda a sua própria marca. A loja abre no mês do seu aniversário, maio, na Rue de Grenelle, no coração do bairro mais fervilhantes da época, Saint-Germain-des-Prés..A moda de Rykiel cola-se ao momento revolucionário, e vive-o de perto. Foi obrigada a fechar as portas no dia a seguir à inauguração por conta das manifestações de estudantes nas ruas. Mas, admitia, a sua roupa era afinal para essas mulheres políticas e intelectuais, nos antípodas do que era a moda até então. A sua roupa respondia ao espírito da época..Christian Lacroix atribui-lhe a autoria de um estilo francês, da Paris nos anos 60 - raparigas livres e elegantes, com estilo francês, atitude francesa, liberdade francesa, erótica e intelectual ao mesmo tempo", diz. Jean-Paul Gaultier disse à WWD (Women's Wear Daily) ter grande admiração "pelo trabalho que fez libertando as mulheres e a sua moda. Deu-nos inspiração e estilo a todos nós"..Afirma-se. Um ano depois já está nas Galerias Lafayette e no Bloomingdale's e no Henri Bendel, em Nova Iorque. Ela é a rainha do tricot, apesar de nunca ter realmente aprendido a tricotar, como salienta o diário Le Monde no obituário dedicado à criadora de moda..Encarnava o espírito da Rive Gauche, assinala o diário. "Como não sabia nada, podia fazer tudo o que queria", disse a própria, olhando retrospetivamente para o seu trabalho num artigo da publicação WWD. "Não ouvia ninguém. Era tão violenta, tão autoritária, só ouvia o que eu queria e a mim. As pessoas amavam-me ou odiavam-me. Quem me amava, amava-me muito. Os outros, não me preocupava muito com eles", afirmou. E fez amigos. Anouk Aimée, Karl Lagerfeld, Robert Altmann, que filma Prêt-a-Porter no seu atelier, Chagall, Andy Warhol, autor de um retrato da criadora de moda..As suas criações seduziram mulheres como Brigitte Bardot, Catherine Deneuve, Jacqueline Onassis, Lauren Bacall. Andrey Hepburn fez história: comprou 14 cores diferentes..Em 1977 foi a primeira designer de moda a fazer uma coleção para a marca de venda por correspondência Les Trois Suisses. Foi a primeira a estampar letras em camisolas. A primeira a gravar os desfiles em vídeo, dizia. Ao longo dos anos, e como outros criativos franceses, Sonia Rykiel flirtou com outras áreas do design. Foi parceira de uma marca de edulcorante, fez ursos de peluche, óculos, joias e perfumes, colaborou com outras marcas, como a H&M (2009). Assinou vários livros (incluindo uma novela erótica, em 1996), ilustrou um romance de Colette e fez figurinos para o teatro..Ganhou um lugar no Museu de Artes Decorativas, em Paris, onde, em 2008, uma exposição de peças do seu percurso assinalou os seus 40 anos de carreira. "Há um sentido de permanência na sua obra. Quando olhamos para peças antigas ao lado das mais novas, as mais velhas não estão fora de moda", disse o curador da exposição, Olivier Saillard..O museu francês alberga meia centena de peças da designer, reconhecendo o legado criativo e histórico da sua obra, como já o tinha feito o Governo de França quando em 1993 a distinguiu com a Ordem Nacional de Mérito, Oficial das Artes e das Letras pelo Ministério da Cultura francês. Em 2009 recebeu a Ordem Nacional e Legião de Honra..Em 2004, a associação ModaLisboa trouxe a coleção de Rykiel a Portugal. Sonia esteve ausente, quem a representou foi a filha. Eduarda Abbondanza recorda o convite feito pela direção de que já fazia parte. "Um convite simbólico, pela sua importância", diz ao DN, lembrando que até aos anos 60 as malhas eram uma coisa pesada, sem a elegância que a francesa lhe conferiu. Como Lacroix, denota-lhe o estilo francês. "De um acidente - uma camisola para ela - construiu um património, captando l' air du temps"..Parkinson e venda.Trabalhou, e presidiu, a empresa que fundou até 2007. Saiu com 77 anos, nas vésperas do 40.º aniversário passando a pasta à filha mais velha, de quem sempre foi muito próxima..A notícia de que sofria de Parkinson chegou em 2012, num livro confessional co-escrito com a jornalista Judith Perrignon (N' Oublie Pas que Je Joue) . Garantia que continuava a desenhar. "Fico cansada. Foi o que mudou", admitia, no momento em que revelava ao mundo que a doença lhe tinha sido diagnosticada 15 anos antes, aos 66.."Não contei a ninguém - nem mesmo à minha filha, que estava nos 40 na altura. O meu médico aconselhou-me a não dizer a ninguém. Era uma forma fraca da doença, não valia a pena mencioná-la, disse-me. Mas em privado eu estava realmente assustada, porque a minha mãe teve a doença quando tinha 70 e tinha memórias dela a sofrer (apesar disso ter sido quando eu tinha 40 e não existir tratamento)", contou, citada pelo The Guardian..A confirmação da doença coincide com o momento em que a empresa é vendida ao conglomerado de marcas de luxo First Heritage Brands. A dois anos dos 50 anos, a Maison Rykiel mantém-se uma ligação ao apelido fundador, com Nathalie Rykiuel-Burstein como vice-presidente. Na direção criativa está a designer francesa Julie de Libran, diretora da linha feminina da Louis Vuitton até 2014 e antiga colaboradora da Miu Miu. "Foi o que precisávamos para tornar Rykiel uma marca global. A minha vida é diferente e o mundo é um lugar diferente, também", afirmou Sonia nessa longa confissão escrita: "Quando olho para trás continuo orgulhosa do legado que criei. Os desenhos que criei em 1968 ainda podiam ser usados hoje, especialmente as camisolas."