Soberania ou carteira?

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Sejamos claros. As últimas semanas não têm sido boas para o país. Mas, mais do que o estado de saúde do governo ou do ministro A ou B - se ainda dentro ou já fora do estado de graça e se mais ou menos fragilizados -, o que sobra de mais grave dos casos de Pedrógão e Tancos é, antes de mais, a perda de 64 vidas nos incêndios, os prejuízos com o fogo, o material de guerra desaparecido de um paiol mal guardado e, com tudo isto, os eventuais danos na imagem externa de Portugal.

Aí, no que toca à imagem do país "lá fora", de onde importamos o combustível para o principal motor da nossa economia - os turistas - é, apesar de tudo, bem mais grave a situação descrita hoje pelo DN. As imagens são reveladoras e quem viaja com frequência já testemunhou certamente situações semelhantes. Uma imensa sala de espera antes do controlo dos passaportes para viajantes não-Schengen cheia que nem um ovo e apenas dois ou três postos de controlo do SEF a funcionar. Se a aposta é no turismo, faça-se alguma coisa para evitar que milhares de turistas, muitos acabados de sair de longas horas de voo, fiquem duas ou três horas à espera de passar o controlo de passaportes. Se quisermos disputar quota de mercado com os grandes destinos europeus, se quisermos continuar a fazer crescer o turismo, o mínimo será receber bem os turistas à chegada, no aeroporto. Se isso implicar a contratação de mais inspetores do SEF, contratem-se.

Entretanto, é compreensível que a oposição se foque nos casos de Pedrógão e Tancos. Faz parte do jogo, como diz Augusto Santos Silva na entrevista DN/TSF e, convenhamos, o governo ainda terá muito que responder e esclarecer sobre estes dois temas. Agora, convém que a oposição não aposte todas as fichas nestes assuntos. O estado da economia ainda é um dos grandes fatores decisivos do voto e aí, nos fundamentais, Mário Centeno tem tudo para continuar a distribuir boas notícias. O PIB há de fechar o ano com um crescimento à volta dos 3%, o défice tem boas hipóteses de ficar dentro da meta, o desemprego continua a baixar e a classe média vai finalmente ver-se livre da sobretaxa. No fundo, está de regresso um clima de confiança na economia e no país, e isso diz bastante mais a famílias e empresários do que retóricas políticas à roda de matérias de soberania.

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