Sob o signo de Bach

Centrado nas relações de uma professora de violino com um dos seus alunos,<em> A Audição</em>, de Ina Weisse, é uma bela surpresa resultante de uma coprodução Alemanha/França.
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A música dos filmes (e nos filmes) pode ser um envolvente mistério. Desde logo no bem chamado género musical, recentemente relançado pelo glorioso West Side Story, de Steven Spielberg - aí a música não "comenta" a narrativa, é a própria narrativa. Mas há também os filmes que encenam personagens através da música. Entenda-se: a música está presente "apenas" porque surge ligada ao trabalho dessas personagens. Assim acontece em A Audição (coprodução Alemanha/França), uma realização da alemã Ina Weisse que, apesar de não ser uma novidade (tem data de 2019), não deixa de ser uma tocante descoberta.

No centro do drama estão uma professora de violino, Anna Bronsky, e o seu novo aluno, Alexander Paraskevas. Quando Alexander faz a prova de acesso ao Conservatório, os colegas de Anna apontam-lhe várias limitações, mas é ela que insiste em valorizar a sua performance, considerando que a escola existe, justamente, para potenciar as qualidades pressentidas. De tal modo que Alexander se vai tornar uma verdadeira obsessão para Anna: as aulas individuais oscilam entre uma exigência radical de perfeição e a agressividade emocional. Mais do que isso: todo o mundo de Anna - o marido é especialista em instrumentos de cordas, o filho, um pouco mais novo que Alexander, estuda também violino - vai ser contaminado pelo misto de transparência e estranheza da relação com o novo aluno...

Como todas as sinopses, também esta pouco esclarece sobre a arquitectura de A Audição ou, se quisermos, sobre a subtileza dos seus ritmos e melodias, enfim, a dinâmica dos respetivos andamentos. Quando deparamos com Alexander a lutar com as infinitas nuances da Sonata para Violino n.º 1, de Johann Sebastian Bach, assistimos a algo mais do que um testemunho da complexidade da música. Dir-se-ia que Alexander tem a missão de cumprir um desejo utópico que, afinal, pertence a Anna e às convulsões da sua intimidade - sem esquecer que a intensidade desses momentos não é alheia ao facto de o magnífico intérprete de Alexander, Ilja Monti, ser também um estudante de violino.

No papel de Anna, a admirável Nina Hoss (que conhecemos de filmes como Bárbara ou Phoenix, respetivamente de 2012 e 2014, ambos dirigidos por Christian Petzold) consegue representar Anna como um ser enredado numa teia em que a convicção das suas ações coexiste, e baralha-se, com tudo aquilo que na sua existência (profissional, familiar, sexual) vai instalando perplexidades e silêncios difíceis, porventura impossíveis, de superar.

Ina Weisse apresenta-nos tudo isso através de uma colagem de cenas, quase sempre breves, que nascem de um fascinante paradoxo: por um lado, possuem um valor eminentemente descritivo (dos gestos de preparar o violino até às tarefas domésticas); ao mesmo tempo, por outro lado, parecem atrair uma conclusão que, quase sempre, fica adiada. Como se o cinema fosse essa arte de expor a sinfonia cruel das músicas desencontradas das suas personagens - há uma beleza rara nessa vida que se faz e refaz.

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