Os desentendimentos entre ambos começaram há exactamente 20 anos. Com uma frase assassina de Mário Soares, que encontrou eco nos jornais "Afinal qual é o currículo daquele tipo?" O "tipo" era Cavaco Silva, que acabava de se sagrar líder do PSD no congresso da Figueira da Foz, pondo em causa a coligação governamental..A coligação cairia poucas semanas depois,a 13 de Junho de 1985, entre recriminações mútuas. Mas os caminhos de Soares e Cavaco estavam condenados a cruzar-se entre 1986 e 1995 o socialista e o social-democrata coexistiram como actores de primeiro plano na cena política portuguesa. Um como Presidente da República, outro como primeiro-ministro. Relendo hoje o que já disseram um do outro, é óbvio que não se entenderam nada bem....começar mal. Aníbal António Cavaco Silva e Mário Alberto Nobre Lopes Soares tiveram a primeira reunião de trabalho a 22 de Maio de 1985. O primeiro acabava de ser eleito presidente do PSD. O segundo era primeiro-ministro de um Governo de coligação que englobava os sociais-democratas - o célebre Executivo do Bloco Central. Antes disso, apenas se tinham encontrado em fortuitos encontros sociais..Registou-se logo um choque de personalidades não podiam ser pessoas mais diferentes.."Não se pode dizer que tenha sido uma conversa simpática ou que tivesse contribuído para uma relação de confiança entre nós", lembra o antigo presidente do PSD na sua Autobiografia Política. Desse encontro, realizado na residência oficial do primeiro-ministro, Cavaco saiu com a sensação de que Soares procurara inibi-lo. "Apesar do meu ar bonacheirão, não pense que me vem moldar às suas exigências ou que lhe vou fazer jeitos", advertiu o líder socialista..Soares não escondia a sua decepção pela ascensão de Cavaco à liderança do PSD, em substituição do falecido Carlos Mota Pinto, com quem sempre se entendera muito bem. O perfil "tecnocrático" do ex-ministro das Finanças de Sá Carneiro não podia estar mais em desacordo com a sua própria personalidade. E o facto de "não ter currículo político", como chegou a desabafar com alguns dos seus conselheiros, deixava-o perplexo..Dois dias depois, novo encontro. Desta vez na Rua da Emenda, em Lisboa, onde então se situava a sede nacional do PS. Cavaco havia dito à imprensa que aquele seria um encontro de trabalho e não "uma cimeira de flores". Soares recebeu-o com uma sede inundada de vasos floridos. Cavaco não gostou. "Não apreciei o gesto, que achei uma falta de respeito da parte do PS". O lider socialista achou que o novo presidente social-democrata "não aparentava grande sentido de humor", como revelou a Maria João Avillez no livro-entrevista Soares-Democracia..Novo desencontro de opiniões, novo choque de personalidades a coligação tinha os dias contados. Soares acusaria Cavaco de estar envolvido numa "manobra" com o Presidente da República, Ramalho Eanes, para tirar o PS do Governo e forçar eleições antecipadas. De facto, houve eleições. O PSD ganhou e passou a governar sozinho. Mas, em Janeiro de 1986, Soares era eleito Presidente da República..longa coabitação. Seguiram-se nove anos de coabitação Soares em Belém, Cavaco em São Bento. Entre 1986 e 1995 tiveram 310 reuniões de trabalho - normalmente realizadas nas tardes de quinta-feira. Várias dessas reuniões decorreram "com alguma tensão", reconhece o social-democrata. O socialista admite que as relações entre eles foram sempre "um pouco distantes" e até "impessoais"..No primeiro mandato de Soares não houve grandes atritos. Mas o primeiro-ministro sempre se mostrou preocupado com as "fugas de informação" de Belém para os jornais. Também negativa, para Cavaco, era a recorrente lista dos problemas "sem dignidade" que Soares levava para as reuniões. .O PSD, sem candidato próprio, apoiou a recandidatura de Soares em Janeiro de 1991. Nesse ano, Cavaco renovou e ampliou a maioria absoluta que já conquistara em 1987. Mas nada seria como dantes..Em Junho de 1991, numa mensagem ao Parlamento, Soares alertava contra a "governamentalização da televisão" pelo PSD. Também não escondia a "falta de visão" de Cavaco em política externa. O Governo deixou-o à margem dos acordos de Bicesse, em Maio de 1991, para a paz angolana..Ao Palácio de Belém passaram a afluir todos os descontentes. Nada mais natural, na visão de Soares "Quando as pessoas estão preocupadas, recorrem ao mais alto magistrado da Nação." Sobretudo quando têm "legítimas reivindicações". Cavaco deu-lhe o troco: Belém tornara-se "caixa de ressonância de interesses corporativos", denunciou o líder do PSD no congresso laranja de 1992..As "presidências abertas" tornaram-se constantes foco de crítica ao Governo - com destaque para a realizada na Área Metropolitana de Lisboa, em Dezembro de 1992. Outras dores de cabeça para Cavaco foram os sucessivos vetos presidenciais a diplomas da maioria social-democrata (como aconteceu com a lei das propinas, em Dezembro de 1993). O ponto mais baixo nas relações entre ambos ocorreu com a realização do congresso Portugal - Que Futuro?, em Maio de 1994, patrocinado por Belém, cheio de críticas ao Executivo. .Soares acusava Cavaco de "comportamento arrogante"e o Governo de "proceder como se fosse um superórgão de soberania". Cavaco encarava o inquilino de Belém como uma "força de bloqueio". Em Julho de 1993 desabafou "Àqueles que passam o tempo nas manobras políticas e na criação de obstáculos à governação, dizemos: Deixem-nos trabalhar!".Cavaco, na sua autobiografia, não deixa dúvidas Soares comportou-se em Belém como "o principal agente da oposição", apostado em fazer o PS voltar ao poder. "Suscitei dúvidas e levantei problemas, por vezes incómodos, para o Governo? Não o nego. Mas esse é o entendimento que tenho das minhas obrigações", observou Soares. Os dois podem enfrentar-se novamente, nas próximas eleições presidenciais. E todos os fantasmas do passado voltarão à superfície.