Singularidades cazaques
Se olharmos para os países nascidos da desagregação da União Soviética, o Cazaquistão tem algumas singularidades. Primeiro que tudo o tamanho, pois era (é) a segunda maior república depois da Rússia, com quase três milhões de km²; também o facto de ser um país encravado, o maior do mundo sem acesso aos oceanos; e igualmente a diversidade étnica, mais de cem grupos, numa população de cerca de 20 milhões; vale talvez a pena acrescentar que juntamente com Mongólia e Coreia do Norte integra o restrito lote de países que fazem fronteira tanto com a Rússia como com a China.
Nestas singularidades é possível ver vantagens, mas também há riscos. Um balanço de três décadas de independência, apesar de algumas zonas cinzentas, mostra que as sucessivas lideranças (na realidade, duas, o pai fundador Nursultan Nazarbayev e hoje o reformista Kassym-Jomart Tokayev) conseguiram que o país caminhasse no bom sentido. Não houve separatismos, a etnia que dá nome ao país conseguiu voltar a ser a maioria demográfica sem por isso deixar de reconhecer a importância de grupos como os eslavos, o encravamento geográfico não impediu o desenvolvimento económico, a vizinhança com duas grandes potências foi gerida de modo a reafirmar a independência cazaque.
Em entrevista ao DN, o vice-primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros, Mukhtar Tileuberdi, mostra-se otimista sobre o futuro, não escondendo, porém, que a invasão russa da Ucrânia e as sanções retaliatórias adotadas pelo Ocidente têm impacto no Cazaquistão. Ainda por cima, toda a tensão gerada pela guerra na Europa neste último ano coincide com o esforço de democratização lançado depois dos protestos violentos de início de 2022, que acabaram por ser ligados à denúncia de abuso de poder por próximos de Nazarbayev, que agora com 82 anos está finalmente arredado das decisões políticas.
Visitei duas vezes o Cazaquistão e estive em cidades tão diferentes como Astana, Almaty, Semei ou Turkistan. Testemunhei a boa convivência entre grupos étnicos, assim como a tradição tolerante do islão dos cazaques, um povo de língua e cultura túrquicas, capaz de acolher em festa a visita do Papa Francisco, como aconteceu no ano passado. E vi também como uma certa ocidentalização dos costumes está em marcha, via consumo, graças ao bom desempenho de uma economia assente na exportação petrolífera mas também capaz de atrair investimentos estrangeiros em várias outras áreas. Que se entre no Cazaquistão sem necessidade de visto é também um sinal de que o país quer estar aberto ao mundo.
Faz sentido, pois, a afirmação de Tileuberdi de que "o Cazaquistão continua fiel à diplomacia multivetorial", com esta vinda a Portugal a ser prova não só das boas relações bilaterais mas também do interesse do país da Ásia Central em ter a União Europeia como parceira de destaque. Da parte de Portugal, e do Ocidente em geral, espera-se um voto de confiança neste novo Cazaquistão que Tokayev procura construir sem relegar o lado melhor do legado do antecessor, na verdade o primeiro a apostar nas boas relações com a Rússia mas também com a América, com a China mas igualmente com a Europa. Até agora, diga-se, tanto europeus como americanos têm sabido cooperar com os cazaques para evitar que as sanções internacionais à Rússia tenham demasiados danos colaterais num país cuja história, sociedade e economia ainda mostram muita ligação a Moscovo. É sinal de pragmatismo (ou de Real Politik, se preferirem) e sobretudo de inteligência num momento em que muito está em jogo no sistema internacional.
Diretor-adjunto do Diário de Notícias

