Há qualquer coisa de inefável na imagem de uma rodopiante Simone Signoret, que baila e baila sem tirar os olhos daquele que deveria ser o seu parceiro naquela dança. Do outro lado da pista, a câmara mostra-nos o homem que lhe devolve o olhar: é um carpinteiro franzino (Serge Reggiani), estático, com a dignidade espelhada no rosto e um ar sereno que só lhe serve para disfarçar o coração aos saltos. Da nossa parte, a emoção que se sente ao testemunhar este instante deriva tanto da empatia com as duas personagens, como do virtuosismo da mise-en-scène do cineasta Jacques Becker. Entenda-se: a cena que acabámos de descrever, do filme Aquela Loira (no título original Casque d"Or, 1952), é um dos vários exemplos que se podem dar sobre o gesto cinematográfico do francês, que primou pela justeza humana a par com uma depurada construção formal.. Aquela Loira é o mais emblemático dos seus títulos e pode agora ser visto ou redescoberto no Espaço Nimas, em Lisboa, no âmbito do ciclo "Os Grandes Mestres 1930-60", acompanhado por outros três filmes - o raríssimo A Mulher do Padeiro (1938), de Marcel Pagnol, Fim-de-Semana no Ascensor (1958), de Louis Malle, e o vibrante Helena e os Homens (1956), de Jean Renoir. Por sinal, este último foi mesmo seu mestre e amigo. Becker começou por trabalhar como assistente de realização de Renoir, tirando dessa experiência uma sabedoria que, grosso modo, se traduziu tanto na essencial elegância narrativa dos seus filmes como no modo de filmar os atores (já para não falar da montadora Marguerite Renoir, que trabalhou nos filmes de um e de outro). Não por acaso, Renoir foi o primeiro a reconhecer que a atenção do seu discípulo ao fator humano está na base de um cinema que observa a espontaneidade dos laços sociais..Veja aqui o trailer:.Ora em Aquela Loira percebe-se que o realizador está muito próximo dos seus atores e, consequentemente, das personagens - é justo dizer que mais ninguém filmou Signoret com uma luz, ao mesmo tempo, tão divina e dramática. Entre a boémia citadina e o idílio campestre, esta história ambientada na Belle Epoque, sobre o romance entre uma prostituta e um carpinteiro com um destino trágico, concentra os grandes temas de Becker: a amizade, o trabalho, o amor e a morte. Tudo isto envolvido por um requintado gosto francês, que nada tem que ver com bons costumes, mas sim com a subtileza da câmara, o sentido de detalhe, a música interior, uma modernidade discreta e um olhar genuíno sobre os destinos individuais..Este é o grande cinema de língua francesa que se celebra por estes dias no Espaço Nimas (e depois, um pouco por todo o país). A 23 de agosto chega ainda outro título de Becker: O Último Golpe, com Jean Gabin. Por agora, o magnífico Casque d"Or espera-nos para uma dança com sabor a eternidade.