"Ser campeão apenas coroou o meu ano, não a minha alma"

Sem ninguém dar muito por ele, em comparação com outros surfistas mais mediáticos, foi Adriano de Souza (Mineiro) quem levou taça neste ano
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Acabou de conquistar um dos maiores objetivos da sua vida, que era ser campeão do mundo. Qual é a sensação?

Ser campeão em Pipeline, no Havai, é um privilégio para poucos. Agradeço muito à minha família que está aqui comigo, à minha mulher, à minha sogra, à Carol, a namorada do Ricardo dos Santos [surfista brasileiro assassinado por um polícia militar no início deste ano] e a todos os meus amigos e fãs que contribuíram para esta boa vibração que se sente aqui e agora no Havai. Eu acreditei desde o início que este dia seria possível e eles ajudaram-me.

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Mencionou muito o nome do Ricardo ao longo deste campeonato. Há alguma mensagem que queria deixar-lhe?

Este troféu é dedicado ao Ricardo, à alma dele. Ele sempre torceu para eu ser campeão mundial, disse-me várias vezes "você é o cara que mais merece". As pessoas dizem muitas vezes "você merece", mas, honestamente, acho que todos os surfistas do circuito mundial merecem, todos batalham para alcançar o mesmo objetivo, o mesmo troféu. Não é brincadeira ser campeão do mundo. Existem talvez uns 70 mil surfistas no mundo e apenas uma minoria consegue alcançar este feito. Graças a Deus tive a oportunidade de concretizar este sonho.

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Chegou ao Havai mais cedo do que é costume e ficou na casa de Jamie O"Brien, uns dos experts na onda de Pipeline e o seu conselheiro local. Parece que a estratégia funcionou...

Sim, neste ano cheguei ao Havai muito cedo para treinar aqui em Pipeline e agradeço a ajuda do Jamie. Olhava para a onda todos os dias e pensava: "O meu sonho pode realizar-se aqui, é possível." E foi!

E o que lhe veio à cabeça quando a meia-final contra o Mason Ho acabou? Assim que a buzina tocou o título já era seu...

Foi um momento muito louco. Até conversei com o Medina dentro de água, antes de a final começar. Disse-lhe: "Mano, não estou a acreditar no que está a acontecer, parece que estou confuso, não sei o que fazer... Não sei se me concentre, se comemore ou se vá para areia antes da bateria começar." Na final, contra o Gabriel, as ondas vinham ter comigo e eu só agradecia a Deus, embora não estivesse a conseguir rezar como deve ser, algo que costumo fazer sempre em todas as baterias. A única coisa que dizia era "obrigado, Deus, já estou satisfeito". Tudo o que eu queria era conquistar este troféu aqui. Foram 10 anos de luta, a batalhar para alcançar este sonho. Assim que a meia-final terminou eu só queria agarrar na taça, mas não dava.

Além do título, alcançou um feito que mais nenhum brasileiro na história conseguiu - vencer o Pipe Masters, a última prova do calendário. Mais um motivo de satisfação...

Ser o primeiro brasileiro a vencer o Pipe Masters faz que a minha final no Volcom Pipe Pro (etapa do circuito mundial de qualificação, na mesma onda), no início deste ano, tenha sido uma forma de Deus mostrar-me o caminho, como tinha de ser. Foi a cereja no topo do bolo! Mesmo o Kelly Slater, 11 vezes campeão do mundo, fica no Havai a temporada inteira a treinar. Eu sei que precisamos de um intervalo, de umas férias, mas ele, por exemplo, não para, por isso tem 11 troféus desses aqui. E eu quero ser igual a ele, só que noutro outro sentido, quero continuar a aprender e a evoluir a cada ano que passa.

Qual foi a prova mais determinante no ano para construir a trajetória que culminou aqui?

Foi Margaret River [a terceira etapa do ano, na Austrália], porque é completamente diferente vencer-se uma etapa com ondas de quatro metros. Nós, brasileiros, sempre fomos massacrados pelos nossos media, que durante anos afirmaram que não sabíamos surfar ondas grandes e que apenas nos dávamos bem em ondas com meio metro e para dar manobras. O Gabriel mostrou-lhes que estavam errados em Teahupo"o. E eu quebrei um tabu muito grande. Costumavam dizer--me "ah, vieste do Garujá, não há ondas buracosas lá". E agora, viram o que aconteceu? Conquistei o título e sou campeão do Pipe Masters.

E como foi, estando plenamente consciente das suas fraquezas aqui, enfrentar os seus ícones?

É muito difícil! É complicado chegar ao campeonato e sentir que a festa não está a ser organizada para mim e que para isso tenho de a fazer sozinho. Graças a Deus, ao longo desta disputa tive do meu lado algumas pessoas que me são muito queridas.

E agora, o que se segue?

Este é apenas um título. Vou continuar a lutar para melhorar e aperfeiçoar o meu surf. Ser campeão apenas coroou o meu ano, não a minha alma. Ver os meus ícones no circuito mundial a partir ainda a loiça toda em todos os campeonatos faz-me manter os pés muito bem assentes na terra, continuar a ser humilde e com a vontade de um dia poder ser como eles. No próximo ano, na primeira etapa do calendário, em Snapper Rocks, vamos todos voltar à estaca zero e este troféu, que estou a segurar agora nas minhas mãos, não me vai servir de nada, ninguém se vai lembrar.

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