O que se passa com o Jardim do Caracol da Penha? A ideia recebeu 9477 votos na edição de 2016 do Orçamento Participativo de Lisboa, sendo a mais votada de sempre até ao momento. Contudo, seis anos depois da sua aprovação, os moradores daquela zona ainda esperam pelo dia em que vão poder usufruir do espaço, apesar de a Câmara de Lisboa ter anunciado no início de 2021 que a abertura seria no final desse ano, o que não aconteceu... Um atraso sobre o qual a autarquia, questionada pelo DN, não se pronunciou..O projeto final, de um hectare distribuído por socalcos, inclui duas praças centrais, um miradouro, um parque infantil, um anfiteatro, um campo de basquetebol, um espaço para hortas comunitárias, uma fonte com cascata e a plantação de mais de 250 árvores, com um custo deste projeto ronda os dois milhões de euros.."Nós também atrasámos o processo porque, depois de termos ganho o Orçamento Participativo, propusemos à câmara fazer um processo participativo nos bairros para, juntamente com a população, desenharmos quais seriam as funcionalidades, os equipamentos... No fundo, como é que as pessoas imaginavam o Jardim do Caracol", recorda Rita Vieira Cruz, fundadora do Movimento pelo Jardim do Caracol da Penha. "Em março ou abril de 2018 a versão final foi entregue à câmara, que depois teve de fazer o orçamento e lançar concursos públicos. A obra foi adjudicada no final de 2019 para estar concluída ao longo de 2020", acrescenta Miguel Pinto, da Caracol POP. A pandemia foi um dos motivos que levou ao atraso das obras, algo que é compreendido por quem vive no bairro. Em janeiro de 2021, a Câmara de Lisboa anunciou que o jardim seria inaugurado no final desse ano, o que não veio a acontecer. "Há um mês estivemos lá com a equipa técnica e a equipa política da câmara e, neste momento, não temos nenhuma data previsível de abertura do jardim, o que é um problema, porque já estamos no final do terceiro ano de obras", refere Miguel Pinto, remetendo mais explicações para a autarquia, sublinhando que o descontentamento da população é bem patente: "É só ler os comentários na página do Movimento no Facebook.".No que diz respeito às obras que ainda estão a decorrer, este responsável da Caracol POP aponta dois problemas: o quiosque e a horta comunitária. "Porque é que o quiosque é importante? Não só porque dá ali algum apoio, mas porque tem a casa de banho. Como tal arriscamo-nos a ter uma obra concluída, sem casa de banho num espaço público", alerta Miguel Pinto. "Há ali uma horta comunitária que tem cerca de 100 metros quadrados, mas para fazer talhões individuais é muito pequena, só dá para duas pessoas. O que nós propusemos à câmara foi pensar num modelo de exploração da horta que tenha um programa comunitário associado. Ou seja, em vez de aquilo ficar "privatizado" para duas pessoas, trabalhar com as escolas, com os velhotes ou com pessoas queiram ter agricultura biológica e tornar aquilo num espaço educativo, de formação ou de socialização. E isso não existe. Como tal, andamos a chatear a câmara com isso há algum tempo", explicou..O jardim surgiu em 2016 na mente de Rita Vieira Cruz quando, curiosa com as obras de demolição que estavam a decorrer naquele terreno da rua Cidade de Cardiff, mesmo junto ao prédio onde mora, descobriu que tinham como objetivo a construção de um parque de estacionamento da EMEL com 86 lugares.."Tive a ideia de colocar o projeto no Orçamento Participativo, pedi a uns vizinhos que me fizessem uns desenhos, ainda uma coisa muito inicial, mas já com uma parte do que era o jardim. Essas ideias, depois do processo participativo, ficaram. Esperei até ao último dia, às onze da noite, do prazo de apresentação de propostas - para não aparecer nenhuma a favor do estacionamento - e coloquei a proposta no Orçamento Participativo", conta Rita Vieira Cruz ao DN..Nesta altura também já tinha escolhido o nome para o espaço, uma homenagem à antiga denominação da rua Marques da Silva - entre a Igreja da Penha de França e a Almirante Reis - que, devido ao seu desenho sinuoso, era conhecida por Caracol da Penha. Depois disto, começou a convidar amigos e vizinhos para se juntarem a este projeto, dando origem ao Movimento Pelo Jardim do Caracol da Penha, que entretanto também deu azo à criação da Caracol POP Associação, que, além do jardim, se tem dedicado a outras questões, como a ciclovia da Almirante Reis..ana.meireles@dn.pt