Reportagem: Matar Voltaire, matar a alegria
São 11 e meia da noite de sábado. A praça da Bastilha está vazia. Um único restaurante aberto, esplanada às moscas. O Faubourg Saint Antoine está vazio. Bruno Pires, motorista da Uber, abana a cabeça: "Isto normalmente nem dá para ver o passeio." Bruno tem 25 anos. É voiturier num restaurante do Boulevard Voltaire, além de motorista. Na sexta, estava dentro do carro, a ver o jogo França-Alemanha no telefone, ao lado do restaurante onde é voiturier, o Vin et Marée, quando um estrondo lhe fez cair o aparelho. Levantou a cabeça e percebeu que vinha do outro lado da rua, do Comptoir Voltaire, um café onde grande parte dos clientes seguia também o match na esplanada. "Pensei que tinha sido gás. Estão a fazer obras aqui. Saí do carro e quando lá cheguei estavam vários corpos no chão e uma pessoa a fazer reanimação." Ligou para os bombeiros mas estava sempre impedido. A primeira ambulância chegou, acha, passados cinco minutos. A polícia levou muito mais tempo. "Só percebi que tinha sido um atentado quando voltei ao carro. Tenho sempre o rádio nas notícias e começaram a falar de atentados. Aí pensei: será que isto também foi?" Foi, claro, mas felizmente dos menos graves da noite: o homem que se fez explodir na esplanada não conseguiu acionar os dois grupos de explosivos. A maioria dos clientes fugiu para o fundo do estabelecimento e salvou-se. Não foi assim na rue Charonne. No restaurante La Belle Équipe, um santuário de velas, flores e mensagens junta uma pequena multidão em recolhimento. Um homem senta-se, guitarra nos braços, e começa a tocar de forma quase inaudível, como se só para ele e para quem, noutra dimensão, o possa ouvir. Morreram aqui 19 pessoas quando um atirador de Kalasknikov abriu fogo sobre a esplanada. Na porta ao lado, outro restaurante, o Sushi Maki, tem a porta de vidro desfeita, os vidros ainda no chão, um enorme buraco de bala na montra com uma rosa escarlate da qual pende uma folha A4: "Em nome de quê?"
"Quiseram trazer-nos o inferno"
Jonathan e Susana, 25 anos ambos, estão em silêncio em frente ao Belle Équipe, cujo longo menu em ardósia ostenta os especiais do dia, num contraste irreal com o testemunho da tragédia. Jonathan, ele próprio empregado num café dos Campos Elíseos, mora com Susana, estilista, a dois passos, num 5º andar. "Vínhamos aqui sempre. Beber café, comer qualquer coisa. Não creio que consigamos aqui voltar." Susana deixa as lágrimas correr enquanto explica que conhecia três dos mortos, todos empregados no restaurante, duas raparigas e um rapaz, todos na casa dos vinte. "Havia uma rapariga mexicana, a Célia." A voz falha-lhe. Jonathan explica que estavam em casa quando sucedeu. Não ouviram nada, não deram conta. "Foi na TV que percebemos que era aqui", diz, o rosto liso ainda em espanto. "É tão próximo que não sabes como reagir, percebes? Não queremos acreditar que isto sucedeu no nosso bairro." É a terceira vez que aqui vêm hoje. "Na primeira, havia três velas. Foi aumentando." Agora é quase o passeio todo. Há câmaras, umas 30 pessoas reunidas a ler as mensagens, a tirar fotos com os telemóveis.
"Morte aos bárbaros iletrados", diz um dos papéis colados na montra do Sushi Maki. No chão em frente ao La Belle Équipe, uma folha com caracteres árabes e, em francês: "Je suis parce que nous sommes (Eu sou porque nós somos)". E também: "Não temos o direito de ter medo!" Jonathan assente: "Não gosto de soçobrar ao medo. É preciso continuar, avançar. É preciso combater." Como? Sorri tristemente. "Isso é algo para a política. Mas isto agora é com todos, acontece em todo o lado."
François Charles não tem dúvidas. Está de copo de cerveja na mão à porta do L'Éventail (O leque), bar a 150 metros do Bataclan, onde ocorreu o ataque mais sangrento - 129 mortos, 352 feridos. As baias da polícia estão ao lado - o quarteirão em torno da sala de espetáculos está fechado para, explica um dos agentes, "recolha de vestígios, ADN, etc". Só passam os moradores. Há câmaras de TV e diretos em loop frente à barreira mas aqui, no L'Éventail, música a transbordar da porta, dança-se, canta-se, fumam-se charros, bebe-se. É o único bar aberto e está cheio. François, 32 anos, realizador, sorri. "É preciso estar aqui, esta noite, na rua. Fazer festa. É a melhor resposta que podemos dar aos terroristas: a vida continua." Está com Vincent Albertini, 33 anos, músico (traz a guitarra às costas). "Estava em casa encolhido, no sofá, a ver TV, com o governo a pedir para não sairmos de casa, a família a dizer fica aí quieto. Sentia-me bloqueado", diz Vincent. "Mas o François ligou-me e perguntou-me se não queria ir à Praça da República. Respondi: estás doido." Acabou, porém, por resolver acompanhar o amigo à praça onde, à imagem do que sucedeu em Janeiro, após o massacre no Charlie Hebdo, se criou um santuário em volta da estátua. "A república é o símbolo que nos une", conclui Vincent. Foi também dali que partiu a grande manifestação de repúdio ao terrorismo de 11 de janeiro - a manifestação que juntou mais de um milhão de pessoas ao longo do Boulevard Voltaire até à Place Nation. Voltaire, o filósofo da liberdade e do laicismo, ao qual é atribuída (erroneamente, parece) a famosa frase "posso não concordar com o que dizes, mas lutarei até à morte pelo direito de o dizeres", mas que certamente escreveu: "Se alguém conseguir que acredites em absurdos, também te pode levar a cometer atrocidades", o filósofo que dá nome à avenida em cuja zona, à exceção do atentado no estádio, todos os ataques ocorreram. François ergue as sobrancelhas. "Acho que os terroristas não são assim tão inteligentes, não foram até aí. Quiseram atacar os sítios onde há mais gente, atacar a juventude que sai à noite para se divertir, que dança e bebe. Todos estes lugares que atacaram são os que nós, a juventude mais popular, menos afluente, de esquerda, frequentamos." Ou seja: atacaram a liberdade, a empatia, a música, o álcool, o sexo, a luxúria. As "abominações e perversões", como lhes chamam no suposto comunicado de reivindicação.
A alegria, em suma: matar a alegria. "Quiseram trazer-nos o inferno, o fogo de Alá", resume François. "Mas, sabes, somos um país laico. Somos de uma região que aprendeu a viver com todas as culturas, todas as etnias. É essa a imagem ideal de França. E é com isso que temos de os combater. Neste momento eu, que sou corso, sinto-me muito parisiense, muito francês. E sinto uma união enorme entre as pessoas. Há esta necessidade de calor, de estarmos juntos. Os parisienses são geralmente muito duros, cada um por si. Mas sinto-nos muito unidos."
O lugar desta união é de um português. Ou por outra, de um francês: Orfeu Moreira, 32 anos, dono do L'Éventail, filho de portugueses de Moreira de Cónegos (perto de Guimarães), garrafa na mão, modos bruscos e português afrancesado, faz questão de o repetir. "Sou francês, foda-se. Quando alguém nascido em França como eu me diz que é isto ou aquilo eu digo: és francês, foda-se." Repete palavrões a cada palavra. Há uma fúria e uma fierté (orgulho) em toda a pose, um desafio de raiva que ecoa o mote que na manif Charlie os filhos de imigrantes gritavam do alto da estátua da República: "Terrorista, estás fodido, a França está na rua (Terroriste, t"es foutu, la France est dans la rue"). O repto teve agora resposta nos ataques que os tiveram, aos jovens parisienses, como alvo. Orfeu, que garante não ter já paciência para entrevistas, vídeos e fotos - "Só falo consigo porque é portuguesa" - fala como quem anda à pancada. "Abri o bar porque é preciso continuar a viver. É preciso ser um bocado patriota. O momento não é para ficar em casa sozinho a ver TV. Isso é dar razão a estes filhos da puta." Pede licença, entra no bar para mandar baixar um pouco o som. "Estava demasiado alto, também é preciso um bocado de respeito." Faz uma pausa, continua: "A França é um país forte, vai ser sempre um país forte."
Na noite de sexta, Orfeu tinha 80 pessoas no bar. Quando percebeu o que se passava - uma pessoa que fugiu do Bataclan entrou pelo L'Éventail dentro a relatar o horror -- fechou as portas de metal e manteve os clientes em segurança. "Ficámos cinco horas aqui fechados. E vimos coisas horríveis, sim. Mas se tive medo? Não, francamente não, não sei porquê. Medo de quê? Não se pode ter medo disto. Vão-se foder todos."
