Reeleição de Putin em março de olhos postos nos Estados Unidos

Regime russo, cada vez mais autoritário, celebra presidenciais e ao mesmo tempo impede que a Ucrânia o faça. Mais importante para os planos de Moscovo e de Kiev é saber quem será o próximo residente na Casa Branca.
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Em jeito de conclusão de A Invenção da Nova Rússia, o jornalista russo Arkady Ostrovsky sentenciou no já distante 2015: "A única característica consistente da história da Rússia é a sua imprevisibilidade. Tal como disse uma vez Yegor Gaidar, que escreveu a crónica do colapso do império soviético, as grandes mudanças ocorrem mais tarde do que nós pensamos, mas mais cedo do que esperamos."

Para Vladimir Putin, o objetivo para o ano que está à porta é impedir qualquer perspetiva de mudança, exceto na frente ucraniana. É aproveitar as eleições controladas pelo regime, a decorrer em março, para continuar a envolver os cidadãos na narrativa de que o Kremlin, por si liderado, é o único garante contra o Ocidente, decadente e ameaçador não só ao nível militar mas também dos valores tradicionais russos.

Para Volodymyr Zelensky, que em tempo de paz iria a votos disputar o segundo mandato, a sua sobrevivência política - e por extensão da Ucrânia - volta a estar estreitamente ligada à famosa frase que terá proferido aos norte-americanos, horas depois do início da invasão russa, quando declinou abandonar Kiev: "Preciso de munições, não de boleia." Os planos de Putin e de Zelensky estão dependentes da assistência militar à Ucrânia, em especial por parte dos EUA, daí a importância dramática das eleições de 5 de novembro.

Aos presidentes da Federação Russa e da Ucrânia separa-os quase tudo. Mas num ponto convergem. Foi graças à televisão que chegaram ao poder e ambos têm consciência do poder da imagem. Depois de em 2022 ter evitado o espetáculo de quatro horas transmitido pela TV que é a conferência de imprensa anual, quando o seu exército lambia as feridas da retirada de Kherson, Putin voltou a usar essa ferramenta nas vésperas de confirmar o que já todos sabiam de antemão, a sua candidatura a mais um mandato no Kremlin. O que ali disse, na presença de centenas de jornalistas, na esmagadora maioria russos, e em resposta a questões pré-determinadas, não foi nada de novo. Mas exatamente pelo facto de voltar a um discurso otimista, triunfante até, mostrou um líder confiante nos titubeios e nas divisões ocidentais.

Não era para menos: o seu cavalo de Troia na União Europeia, Viktor Orbán, havia bloqueado a aprovação de financiamento a quatro anos para a Ucrânia, no valor de 50 mil milhões de euros. E nos Estados Unidos, os cálculos políticos domésticos e uma obediência cega a Donald Trump por parte de alguns representantes republicanos impediram a continuidade da assistência militar, lançando sombras sobre a viabilidade da Ucrânia na mesma altura em que a UE anunciava a abertura das negociações com Kiev para a sua eventual adesão ao clube europeu.

"Haverá paz quando atingirmos os nossos objetivos", augurou Putin, ou seja, só quando o exército ucraniano for destruído ("desmilitarização") e a república ucraniana for decapitada ("desnazificação") e imposto um regime fantoche ou o país ser anexado ("estatuto de neutralidade"). Ao reiterar a meta do expansionismo russo, quer na conferência de imprensa quer noutro momento televisionado dias depois - o encontro com os altos quadros da Defesa -, Putin elogiou o exército e disse que a iniciativa no terreno está do lado russo.

Entre as consequências das baixas - calculadas no Ocidente em 300 mil homens e as correspondentes perdas de equipamento militar - e das sanções económicas está a transformação da economia russa para uma economia de guerra. Depois de uma contração de 2,1% do PIB em 2022, a Federação Russa apresentou um crescimento de 3,5% em 2023 devido ao investimento na Defesa, que em 2024 vai ter um aumento de 70% no seu orçamento, atingindo um terço da despesa total do Estado.

A máquina de guerra levou centenas de milhares para a Ucrânia e outras centenas de milhares em fuga para fora do país, pelo que a taxa de desemprego é de 3% e a indústria de armamento está pressionada a redobrar a produção. Há indicações de que o regime conseguiu em parte contornar as sanções para continuar a produzir mísseis e drones a níveis anteriores à guerra, mas à custa dos outros setores. "Ao apostar tudo no aumento das despesas militares, o Kremlin está a forçar a economia a cair na armadilha da guerra perpétua", analisam Pavel Luzin e Alexandra Prokopenko em artigo publicado no Carnegie Politika, no qual sentenciam que "serão os russos comuns que pagarão o preço".

Além disso, nem tudo está controlado. A enorme desvalorização do rublo teve como efeito o aumento da inflação, o que levou Putin, num momento raro, a pedir desculpa pelo preço elevado dos ovos e dos frangos, na referida conferência de imprensa. Mas era sobre o desfecho da guerra que a maior parte dos espectadores queria ouvir, segundo uma sondagem do centro Levada. E nesse ponto não há desculpas, apenas ressentimento e uma visão distorcida da história por quem se comparou certo dia ao imperador Pedro, o Grande.

A tomada da Crimeia foi vivida pela maioria da população russa como um momento de orgulho, já o moedor de carne que é a "operação militar especial" deixa a maioria da população insatisfeita. Uma sondagem realizada em dezembro pela empresa Russian Field conclui que 48% dos russos concordam com o pedido de desmobilização feito pelas mulheres dos militares, e 32% discordam. Este é um possível foco de desestabilização não só antes das eleições, mas também depois, numa sociedade vergada pela repressão aos opositores de Putin, é certo, mas que tem uma longa tradição de resistência das mulheres à guerra. Basta invocar o papel central que teve o Comité das Mães dos Soldados da Rússia aquando da guerra na Chechénia.

Zelensky e os seus conselheiros ainda avaliaram, por pressão externa, a hipótese de se realizar eleições, mas acabaram por concluir que um país sob lei marcial, e com milhões de deslocados, não tem condições - uma decisão apoiada por 80% da população. O presidente ucraniano, porém, verá a sua legitimidade cada vez mais questionada se não conseguir dar resposta às pressões paralelas para combater a corrupção e aprofundar as reformas democráticas, de um lado. Do outro, para obter dinheiro e material militar e com isso manter o Estado a funcionar e, no mínimo, assegurar que as posições nas linhas da frente se mantenham.

Com a assistência dos Estados Unidos e da UE em xeque, Kiev espera o desbloqueio de 300 mil milhões de dólares de contas russas para financiar o país e relançar, já com o contributo dos caças F-16, uma nova campanha ofensiva.

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