Elas chegaram lá. Ao Mundial 2023 e ao Palácio de Belém. Quais rainhas do futebol português, as jogadoras da seleção nacional ocuparam ontem a sala das Bicas, os mesmo 30 metros quadrados onde foram recebidos tantos outros atletas com feitos relevantes no desporto português, como os campeões da Europa em 2016. Marcelo quis receber as navegadoras - alcunha das jogadoras da seleção feminina - e destacar a "alegria" que deram ao País num "momento de luto e dor" por causa da Guerra na Ucrânia..O apuramento é "prestigiantíssimo para Portugal" e merece ser destacado até pela forma como pode contribuir para "o papel da mulher portuguesa na Sociedade", numa altura em que elas ainda sentem na pele a "discriminação", segundo o Presidente da República, que destacou a aposta que a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) tem feito na modalidade praticada por quase 10 mil atletas..Para o chefe de Estado, ainda há um longo caminho pela frente na valorização da mulher, apesar de haver bons sinais de mudança, como o facto da pasta do Desporto estar sob alçada de uma ministra, Ana Catarina Mendes, presente na homenagem: "A sociedade portuguesa mudou e está a mudar e um dos aspetos fundamentais é mudar através do papel da mulher. Não mudou tudo, não. Se tivesse mudado tudo, quem estava a falar aqui, agora [como presidente], era uma mulher. Havemos de chegar lá, ter uma Presidente da República. Mas o vosso passo é fundamental.".Marcelo parabenizou as jogadoras na figura da capitã Dolores Silva e "aquelas duas que marcaram os golos da vitória frente aos Camarões (2-1, na quarta-feira)" e colocaram Portugal no Mundial 2023. "Aquelas duas" são Diana Gomes e Carole Costa..O presidente da República meteu-se depois por caminhos desconhecidos ao dizer que a "ambição tem de ser chegar à final", atrevendo-se mesmo a avaliar as adversárias das portuguesas no grupo E pelo Estereótipo masculino: "Primeiro a Holanda, temos de ganhar à Holanda [Países Baixos]. Depois o Vietname, que deve ser mais fácil, mas nunca se sabe. Depois os Estados Unidos, nunca se sabe, eles têm evoluído e em termos de futebol feminino são inesperados. E depois continuamos, não paramos." As jogadoras devem ter feito um esforço para não fazer caretas ao ouvir tal heresia, uma vez que as norte-americanas são bicampeãs mundiais e se há país onde o futebol feminino é superior ao masculino é nos EUA..Depois prometeu distribuir beijos e cumpriu a promessa. Guiado por Dolores Silva, que fez de chefe do protocolo e apresentou as colegas ao Presidente, Marcelo deu um sentido abraço a Carole Costa, a autora do golo que deu o triunfo a Portugal no playoff com os Camarões e o respetivo apuramento para o Mundial 2023, que confessou viver "dias de loucura", onde a o sentimento não encontra palavras..E depois de eternizar o momento numa fotografia de grupo e se posicionar para um selfie - a Marselfie tirada com o telemóvel de Kika Nazareth -, Marcelo atirou: "Porque não cantamos todos o Hino?" E foi assim ao som de A Portuguesa que as rainhas do futebol português deixaram o palácio: "A partir de agora podiam cantá-lo sempre após as vitórias e não só antes dos jogos.".Fernando Gomes começou por lembrar os tempos em que "se ouvia que o futebol não era para meninas" para destacar o "feito espetacular" que é o apuramento para um campeonato do mundo pela primeira vez em 30 anos (primeiro mundial foi em 1991). Porque para lá das dificuldades que encontraram a nível desportivo, tiveram de passar por dificuldades maiores para conseguirem jogar futebol e tornarem agora possível a presença num mundial. E com essa certeza: "A Federação vai continuar a investir no futebol feminino. Espero que os portugueses continuem a apoiar-vos.".Meio envergonhada ou apenas cansada pelas quase 24 horas de viagem desde Hamilton, na Nova Zelândia, até Lisboa e com escala no Dubai, a capitã da seleção agradeceu a receção e a aposta da Federação. Ainda no aeroporto, Dolores Silva, tinha sido mais efusiva. "Foram lágrimas de muitos anos e gerações. Representa muito para o futebol feminino português. Alcançar este feito, fazer história e poder participar pela primeira vez num mundial é indescritível", disse a jogadora do Sp. Braga, esperando que cada vez mais meninas queiram jogar e que o futuro seja risonho: "Portugal tem muito talento.".À chegada ao Aeroporto Humberto Delgado (Lisboa), e antes de seguir para Belém, a diretora da FPF, Mónica Jorge, disse que "fazer mais e querer mais" é o lema de todos os envolvidos a partir de agora: "A participação no Mundial vai fazer crescer toda a gente, as jogadoras, os clubes onde estão inseridas e uma Liga [portuguesa] que pretendemos que seja cada vez mais forte e competitiva.".Portugal é uma das 32 seleções qualificadas para o Mundial 2023, que se realiza de 20 de julho a 20 de agosto, na Austrália e Nova Zelândia. A seleção liderada por Francisco Neto integra o Grupo E, juntamente com as vice-campeãs em título do Países Baixos (23 de julho), do Vietname (27) e das bicampeãs mundiais dos Estados Unidos..isaura.almeida@dn.pt