O gado era já pele e osso, o sol sugava os poços e os urubus começavam a rondar as fazendas. Enquanto a seca de 1915 esventrava, assim, o sertão cearense, a jovem Rachel de Queiroz recolhia-se à noite no quarto, na Fazenda de Quixandá, com cheiro a aridez, à luz de um lampião, para escrever . Imortalizava histórias de sofrimento do povo sertanejo. A primeira foi aos 19 anos, enquanto recuperava de um problema no pulmão. Publicou O Quinze, em 1930, estreando-se na literatura e consagrando-se como figura pública. Seria a primeira escritora regionalista da literatura brasileira, com mais estreias: inaugurou a assinatura feminina nas crónicas da imprensa, foi a primeira escritora a entrar na Academia Brasileira de Letras, ABL (1977) e a primeira mulher distinguida com o Prémio Camões (1993). É considerada uma das maiores escritoras brasileiras, laureada com mais de 20 prémios de peso, como o Machado de Assis, em 1957, da ABL pelo conjunto da obra. .Esta semana, quando se comemoraram os cem anos do seu nascimento, saíram Mandaracu e Serenata, reunindo poemas inéditos, escritos durante a adoles- cência. No documentário Um alpendre, uma rede, um açude , Rachel, com 85 anos, explica que só foi para a escola aos 11 anos, quando a avó descobriu que não sabia rezar. Foi para um colégio de freiras, onde escreveu contos de terror, e formou-se como professora. Em 1917, a família mudou-se para o Rio de Janeiro. .A propósito do falecimento da escritora, em 2003, o escritor e então presidente da Academia, Alberto Costa e Silva, disse que foi uma mulher que teve "influência excepcional" na vida brasileira durante o século XX. "Foi uma contestatária desde os anos estudantis, mas de forma independente." .Carlos Nejar, no livro História da Literatura Brasileira (2007), defende que ela "endureceu a linguagem para que ficasse enxuta, resistente e seca como as pedras", usando a análise psicológica com os diálogos curtos. A propósito da Rachel tradutora (traduziu mais de 20 autores, entre os quais Balzac), diz que é da família espiritual do escritor russo Fiodor Dostoievsky, "pela penetração na alma", e de Machado de Assis, "na densidade e precisão". Nesse registo, ela provoca no leitor a "explosão da avalanche com uma pedra só". Depois da angústia vem uma espécie de liberdade. A mesma passagem que ela viveu, em pleno Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945), no Brasil, quando foi presa em Fortaleza por ser do Partido Comunista. Nunca esmoreceria. E quando lhe perguntavam sobre um traço marcante da sua personalidade respondia: "Minha maternidade é inesgotável." O que não deixa de ser curioso no caso de uma mulher que perdeu a sua única filha com dois anos, nunca mais teve filhos, e que criou uma galeria importante de personagens femininos, todos sem descendência.