Quando o sonho comanda a vida

Ocupam lugares de topo nos <i>rankings</i> mundiais e atravessam continentes para representar Portugal. Têm treinos diários, estágios, viagens e campeonatos, tal como qualquer desportista de alta competição, e nunca a condição física vence a vontade desmedida de fazer sempre melhor. Desconhecidos para a maioria do público, são assim os atletas da selecção nacional de boccia que vão, a partir de amanhã e durante oito dias, defender o título de campeões mundiais no Estádio Universitário de Lisboa, na linha da frente com 34 países. A nm foi conhecer jogadores que sobem ao pódio todos os dias porque as medalhas são ganhas dentro e fora de campo. Sempre com a ajuda de quem, voluntariamente, acredita que tudo se torna possível quando o desporto dignifica a vida. <br /><br />
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A carrinha da Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa está pronta para seguir viagem rumo ao último estágio da selecção nacional de boccia, na Lousã. Todos aguardam Susana, que vem das piscinas municipais de Odivelas, onde trabalha como escriturária. «Deve estar presa na rotunda, a esta hora o trânsito... Mas jantamos pelo caminho, sem pressas, já chegámos a assentar no hotel lá para as três da manhã!» Quem fala é Rosa Carvalho, treinadora de 24 utentes do centro, três dos quais pertencentes à selecção nacional, cujas vidas se entrelaçaram na sua há mais de vinte anos. Por eles, experimentou uma profissão de dádiva e dedicação, em que a amizade, a sociabilização e o respeito pelo outro são a verdadeira pontuação. Por eles, já abdicou de poder estar com a neta. Por eles, expandiu o seu próprio coração. E continua apaixonada pelo que faz. «Eu sei que eles conseguem e eu estou ali a lutar ao seu lado! Mais importante do que as medalhas, eles têm de dar o seu melhor», conta a professora, que há muitos anos cantava para uma menina invisual para a ajudar a dar os primeiros passos.
Susana chega num Toyota com uma caixa no tejadilho. Apressada, acciona o mecanismo que faz descer a outra parte de si. Agarra a mochila e senta-se na cadeira de rodas; está pronta para a breve entrevista em que, em dez minutos, conta a sua lição de vida. Susana Barroso, 35 anos e ex-nadadora olímpica, soletra o seu diagnóstico numa altivez implacável que desarma qualquer sentimento complacente face à sua actual condição física. Susana sofre da doença degenerativa de Charcot-Marie-Tooth, um conjunto de neuropatias que afectam os nervos periféricos, mas que nunca foi suficiente para ferir o seu orgulho guerreiro: «No fundo, acho que tenho conseguido cumprir todos os meus objectivos. Hoje tenho a minha vida encaminhada.» E é assim a Susana atleta da selecção nacional de boccia, a escriturária, a condutora e até dona de casa. «Cozinhar e fazer grandes limpezas é que é pior, mas tenho uma verba de apoio domiciliário, de resto faço tudo praticamente sozinha», explica a atleta.

Ter garra
O espírito ganhador e competitivo de Susana trouxe-lhe os consecutivos recordes na natação de alta competição, que praticou durante 15 anos, com quatro paralímpicos no currículo e sempre medalhada nos três primeiros lugares. «Houve uma altura em que tive de parar, estava cansada física e psicologicamente. Era muito violento.» O vazio instalou-se. «Faltava qualquer coisa, a minha vida era só casa-trabalho, trabalho-casa. Gostava de basquetebol e de equitação mas vim para o boccia por sugestão da professora Rosa. É um jogo muito engraçado, aprendi a estar mais calma e serena para controlar melhor as emoções», referindo que o muito que tem ainda para aprender vai confiando à sua cabeça forte e positiva: «O meu ponto forte é ter garra, é ser persistente, não me dou por vencida, não gosto de perder. Vou mesmo até ao fim, nunca desisto. Se eles forem melhores, vão ter de o provar em campo. O jogo só está ganho no final», remata a atleta, que ambiciona ainda licenciar-se em Psicologia: «Já consegui a carta de condução aos 18 anos, foi óptimo, hoje sou independente, mas o curso está pendente. Quem sabe, um dia...» As reticências ficam no ar, bem como o sentimento de admiração experimentado por uns instantes, enquanto Susana se despede e se dirige para a carrinha, onde se encontra Cristina Gonçalves, chamada à selecção em 2003. São sete anos de treinos, estágios, viagens, campeonatos e títulos. As provas de atletismo não lhe deram a oportunidade de conhecer Atenas, Pequim, Nova Zelândia ou Canadá, países tornados palcos do sonho para Cristina. Mas para ela nada melhor do que competir em Copacabana: «Foi muito bom porque pudemos passear um bocado, adorei estar no campeonato do mundo, no Brasil.» Cristina Gonçalves sofre de paralisia cerebral e pertence à classe BC2 da selecção nacional.

O que é o boccia
O objectivo do jogo é a marcação do maior número de pontos através do lançamento de séries de seis bolas em direcção a uma bola-alvo. São 13 bolas: a bola-alvo branca, seis bolas azuis e seis vermelhas. As bolas são revestidas a pele, podendo ser agarradas e lançadas por pessoas com dificuldades de preensão. O atleta pode lançar, pontapear ou usar um dispositivo auxiliar tipo goteira/calha para fazer rolar a bola. O desenrolar do jogo é muito simples e quem está a perder é quem joga a seguir. Assim, quem joga a bola branca, desde que esta fique dentro da zona válida de campo, lança também a primeira bola de cor, a seguir joga o outro lado e depois joga sempre quem está a perder.
Vários testemunhos históricos sustentam a origem da modalidade: pensa-se que já na Grécia Antiga se atiravam bolas para o interior de um círculo. Foram igualmente encontradas, junto a um túmulo de um jovem faraó egípcio, duas bolas de pedra próximas de uma bola mais pequena. Tudo aponta, contudo, para que tenham sido os romanos a trazer o jogo do Sul de França, onde ainda hoje se pratica a conhecida petanca. Por cá, talvez o mais parecido seja o jogo da malha. Como modalidade desportiva, o boccia foi introduzido em Portugal em 1983, e passado um ano a selecção nacional conquistou o primeiro lugar nos Jogos Paralímpicos de Nova Iorque. Hoje, é praticado em cerca de cinquenta países, com Portugal a ocupar lugares cimeiros na classificação mundial e olímpica.

Cair e levantar
A glória só tem sido possível graças ao árduo trabalho de técnicos, treinadores e atletas que, além de todo o esforço desenvolvido ao longo do ano, conseguem ainda organizar um campeonato do mundo, com mais de duzentos atletas de 34 países, sem um único patrocínio, e com muitas horas de trabalho voluntário. A seleccionadora nacional Helena Bastos não é excepção, mas nem por isso se sente menos dedicada ou esforçada. Talvez porque o dinheiro parece nem sequer chegar à lição de vida que resgata para si, todos os dias. «Quero que os meus atletas sejam conhecidos e admirados pelo seu percurso desportivo, pela sua força de vontade para combater as adversidades, pela sua alegria de viver, por serem, na maioria dos casos, tão mais fortes do que nós. Por caírem aqui e se levantarem mais além. Por nunca desistirem. Por mostrarem à sociedade aquilo de que são capazes», explica firmemente a treinadora. E quem garante esta atitude só pode tecer muita cumplicidade na partilha das tristezas e conquistas como se fossem uma grande família, em que todos são diferentes e todos são iguais: «Se não vierem medalhas, que se transcendam a si próprios, dêem o seu melhor e ficaremos todos felizes.»

Sucessos em milímetros
Cristina Marques também ergue a bandeira dos pequenos feitos, das pequenas conquistas, o estandarte que, segundo ela, não lhe permite pousar nas coisas mesquinhas da vida: «A minha maior riqueza é dar valor às capacidades das pessoas e encarar a incapacidade como forma de atingir alguma coisa.» A fisioterapeuta do centro e uma das organizadoras do campeonato, aprendeu a aceitar que os progressos podem ser de milímetros, apesar de se considerar uma pessoa exigente. A trabalhar com adultos com paralisia cerebral desde que terminou a formação académica em Alcoitão, sente que se habituou à «realidade do pouco, e o que não se consegue pela esquerda contorna-se pela direita», assegura. É assim que é e é assim que trabalha, quando se tem, por exemplo, de garantir hotéis com condições para a circulação de cadeiras de rodas e muito mais: «No perímetro do Estádio Universitário só conseguimos dois para receber as selecções, porque a maioria nem sequer tem largura de portas para passarem as cadeiras de rodas.» Sem lamentações, é num rasgo de emoção que Cristina se congratula pelo esforço conjunto, pelo dever cumprido e, acima de tudo, porque, a partir de amanhã, todos vão provar, mais uma vez, que já nasceram campeões.


Mundial em Portugal
Amanhã, às 17h00, tem início o Campeonato do Mundo de Boccia, no Estádio Universitário de Lisboa, onde Portugal vai dar tudo por tudo para garantir o título de campeão mundial. São 34 países e 240 atletas, na maior competição de sempre. O encerramento dos jogos será a 9 de Junho, com a entrega das medalhas e troféus aos vencedores. As provas individuais e colectivas decorrem desde entre as 09h00 e as 18h00 e a entrada é livre. Mais informações no site oficial da competição: www.boccia2010.org.

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