Os casos de clubes com salários em atraso ameaçam colocar em xeque o futebol profissional português. Apesar do avolumar de situações deste tipo, ninguém parece interessado em solucionar o problema. Enquanto o Governo diz que esta é uma questão que deve ser resolvida pelas organizações que tutelam o futebol, Liga e federação atiram responsabilidades para o Estado..Para o secretário de Estado do Desporto, Laurentino Dias, "os salários em atraso devem-se à incapacidade dos clubes em cumprir contratos". Na óptica do governante, "é preciso que o futebol deixe de viver acima das suas responsabilidades" e que clubes e jogadores assumam contratos viáveis. .Ainda anteontem à noite, à margem da X Gala da Confederação do Desporto, Laurentino Dias fez questão de voltar a salientar que "o Governo não vai intervir" nos casos de salários em atraso. A estratégia adoptada é outra o Executivo "vai continuar a instar os homens do futebol a encontrar soluções"..Certo é que este parece ser um cenário inverosímil. Recentemente, a Assembleia Geral da Liga de Clubes, que reúne os emblemas da Liga e Liga de Honra, vetou a possibilidade de o organismo fazer empréstimos a formações em situações financeiras delicadas. "Muitos clubes têm problemas, mas agora são de tal gravidade que a Liga não teria possibilidade de os ajudar todos", explicou então o presidente do organismo, Valentim Loureiro..Da parte da federação, que organiza as II e III divisões, também não se esperam novidades. Na quinta- -feira, o presidente, Gilberto Madaíl, defendeu a adopção no futebol português de "um sistema de licenciamento de clubes que participam em competições profissionais, semi-profissionais ou amadoras, igual ao utilizado pela UEFA"..Acontece que o Setúbal, clube filiado na Liga com uma situação financeira débil e com salários em atraso, não teve dificuldades em obter o licenciamento da UEFA. Uma situação que Madaíl diz que já não se repetirá na próxima época, quando as regras de licenciamento europeias apertarem. No entanto, para que este sistema seja adoptado, terá de ser aprovado em Assembleia Geral da FPF, onde a influência dos clubes é enorme. Ou então, ser imposto pelo Governo, através de uma mudança do regime legislativo, como defende Madaíl.