Se o preconceito é uma mentira que de tão repetida ser passa por verdade, então o tabu é uma verdade tão dolorosa que a sua simples enunciação se torna um exercício proibido. Por isso, os dois temas centrais de que o Presidente português e a chanceler alemã terão falado ontem - possíveis sanções por défice excessivo e situação crítica do sistema financeiro - bem poderiam ser designados como o preconceito e o tabu. A posição de Lisboa e de Berlim é diferente, mas ambas estão no mesmo navio europeu que mete água, e nenhum dos dois temas é estranho à experiente chanceler Merkel. Sobre as sanções por défice excessivo, a chanceler poderia recordar a Marcelo que, mesmo antes de ter tomado posse, no final de 2005, foi à área militar do aeroporto de Tegel, na companhia do seu futuro ministro das Finanças, o social-democrata Peer Steinbrück, para um encontro secreto com o comissário para os assuntos económicos e financeiros, Joaquín Almunia, escoltado pelo seu diretor-geral, Klaus Regling. Objetivo: enterrar o machado de guerra entre Berlim e a Comissão Europeia. Desde 2003 que o chanceler Schröder, derrotado em 2005 por Merkel, comandava uma fronda contra Bruxelas, em aliança com Jacques Chirac e Silvio Berlusconi, pois os três violaram sistematicamente a barreira do défice. Nesse encontro, Merkel jurou voltar a ser fiel ao Pacto de Estabilidade e Crescimento, que obriga o défice a não ir além de -3% do PIB. É claro que, agora, Marcelo poderia relembrar à chanceler que as regras, e as correspondentes sanções, visam corrigir tanto os défices como os excedentes. Ora, desde 2011 que a Alemanha superou o limite estabelecido de 6% do PIB para o superavit, sem que se fale da correspondente sanção sobre Berlim... O sistema bancário, contudo, é o crucial tabu da zona euro. A dolorosa verdade que o preconceito esconde. Se assim não fosse a crise europeia seria chamada "crise do sistema financeiro europeu", e não "crise das dívidas soberanas", pois a dívida dos Estados, como Berlim sabe de experiência própria, só se acumulou depois de 2008, para salvar bancos à beira do abismo. Karl-Otto Pöhl, que presidiu ao Bundesbank (1980-1991), denunciou, aliás, o resgate à Grécia como uma máscara para salvar os bancos franceses e alemães. A banca portuguesa precisa de ser recapitalizada, porque a austeridade imposta a impede de ter lucros, e porque os remédios da atual união bancária correm o risco de ser piores do que a doença. Oxalá Marcelo e Merkel tenham concordado no essencial: mesmo na política, há um mínimo de verdade, abaixo do qual a vida se torna impossível.