João Ribeiro de Almeida, presidente do Instituto Camões, foi ontem em Lisboa um dos participantes da Jornada Agostinho da Silva, que celebrou os 25 anos da CPLP e serviu também para o lançamento do livro Panorama da Contribuição do Brasil para a Difusão da Língua Portuguesa. E ao intervir num debate sobre aquele que é o quinto idioma mais falado no mundo descreveu o português como uma língua de "irmandade e de família", perante uma audiência que era o testemunho vivo disso, tal a forma efusiva como os brasileiros presentes - e eram a maioria, talvez por serem o Senado Federal e a Câmara dos Deputados os organizadores - cumprimentavam os portugueses, os angolanos ou os moçambicanos, ou estes uns aos outros, ou os cabo-verdianos aos portugueses e vice-versa e os guineenses a todos, ainda os timorenses aos brasileiros e aos portugueses e por aí fora..Não faltaram referências ao pensamento de Agostinho da Silva, filósofo português que viveu muitos anos no Brasil e que sempre falou de um idioma que unia os povos. E de Aécio Neves, deputado e antigo candidato presidencial, a Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, múltiplos oradores lembraram o papel do brasileiro José Aparecido de Oliveira na criação em 1996 da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (o discurso do filho, José Fernando Aparecido de Oliveira, foi especialmente emotivo). Aos sete países fundadores somaram-se dois, Timor-Leste e Guiné Equatorial..Nas conversas durante a tarde toda, que decorreram com uma fluidez que desmentiu a importância que por vezes se dá às diferentes pronúncias, falou-se muito no valor sentimental da língua, também nas potencialidades económicas e até no papel geopolítico. E foi este último ponto que me fez relembrar uma entrevista com João Ribeiro de Almeida quando o diplomata assumiu a presidência do Camões. Falávamos da sua experiência, que inclui ter sido embaixador na Colômbia e na Argentina; e sobretudo da passagem por Timor-Leste, quando o país preparava a independência oficializada em 2002, e de como nem tudo poderia ter corrido como correu, mesmo depois do referendo de 1999 que libertou a antiga colónia portuguesa da ocupação indonésia. "Assisti em Timor à grande pressão de potências para que a língua oficial não fosse o português", disse-me então o presidente do Camões..A língua tem o seu papel na geopolítica, tal como o tem a religião (se o Brasil é o mais populoso país católico no mundo e Timor-Leste o mais fortemente católico da Ásia isso não pode ser desligado do legado de Portugal), e na definição do destino de Timor-Leste tal foi decisivo. Portugal, potência administrante, manteve acesa na ONU a luta timorense, o Brasil na hora H disse presente e Sérgio Vieira de Mello notabilizou-se como administrador do território na transição para a independência. No filme Sérgio, biografia do notável diplomata brasileiro que foi morto num atentado no Iraque, percebe-se como este falar português fez a diferença em muitos momentos. Afinal, era da família..A CPLP tem como secretário executivo o timorense Zacarias da Costa, que, claro, não faltou ao evento brasileiro a celebrar o português, a língua de 300 milhões de pessoas.