Perigo e esperança

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A eleição de António Guterres como secretário--geral da ONU é, em primeiro lugar, fruto dos seus méritos pessoais. Resultado do seu trabalho concreto em dez anos à frente da agência da ONU para o crítico problema dos refugiados. Da sua eloquência inteligente e persuasiva, que se traduz na certeza, sentida pelos seus interlocutores, de que é alguém que esclarecidamente acredita no que diz. Em segundo lugar, a competente diplomacia portuguesa realizou o seu trabalho, fazendo frutificar o facto de a história de muitos séculos ter dado a Portugal um capital cultural e linguístico que vai muito além do estreito retângulo europeu. Em terceiro lugar, esta vitória de Guterres não seria possível sem a abertura de todos os membros do Conselho de Segurança, em especial dos seus membros permanentes, para a possibilidade de ter um secretário-geral com autonomia de pensamento, e que enunciou uma clara vontade de reforma. Isso significa que há uma consciência comum dos perigos que ameaçam a comunidade internacional e que, como ficou patente numa recente posição oficial de Pequim, é mais importante escolher um secretário-geral competente do que fazê-lo em função do género e da origem geográfica. Guterres não estará ao serviço de nenhum país nem de nenhum interesse particular. Encontrará enormes obstáculos. Alguns intransponíveis. A desastrada candidatura de última hora de Kristalina Georgieva, patrocinada pelos erros de perceção dilatada da Alemanha, que se comportou como se fosse membro permanente do Conselho de Segurança, fica como exemplo desses obstáculos. A Europa está à deriva. É um corpo sem cérebro, possuído pela pulsão da fragmentação. Constitui um fantástico potencial de desordem política e económica internacional. Um desafio maior para o próximo secretário-geral da ONU.

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