"PCP não consegue afastar as suspeitas nesses crimes"

O novo romance de Carlos Ademar mantém uma intenção declarada: "Baseado em factos reais." É uma informação destacada na capa de "Na Vertigem da Traição" e deriva do seu gosto pelo romance histórico e também por um período da nossa história e que ainda considera estar por se conhecer.
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A razão de ser deste livro, que é apresentado esta terça-feira, dia 11 de julho, às 18.30 na Sociedade Portuguesa de Autores, em Lisboa, é ressuscitar Manuel Domingos, um membro do comité central do PCP entre 1945 e 1949, cujo cadáver apareceu num pinhal em 1951.

Romance ou biografia romanceada?

Nunca poderei considerar uma biografia, mesmo que romanceada, ainda que a linha condutora assente nos traços gerais da vida de Manuel Domingos, e da investigação ao crime que o vitimou. Existem lacunas excessivas no conhecimento da sua vida para poder avançar pelo género biográfico, desde logo na Guerra Civil de Espanha, na Resistência Francesa, e até na sua passagem pelo comité central do PCP. Era necessário ficcionar, daí a alteração dos nomes das personagens e de certas localidades. Sou um homem da história por paixão à história. Gosto de rigor e quando esse rigor não é viável, resta a ficção para factos graves de há quase 70 anos.

Prefere partir de uma situação real a ficcionar tudo?

Tenho alguns romances históricos em que a ficção é total - se podemos usar esta terminologia, o que duvido. Os meus dois mais recentes romances têm em comum alguns aspetos que considero importantes. Desde logo os factos reais terem ocorrido num contexto de luta contra a ditadura, ainda que de formas diferentes; ambas as histórias vagueavam no limbo, no limiar do esquecimento coletivo, razão que me levou a tudo fazer para as ressuscitar, desmistificando-as quanto possível; por fim, ambos os processos-crime fazem atualmente parte do acervo do Centro de Documentação da PJ, o que me permitiu explorá-los com alguma profundidade, o que me ajudou a dar credibilidade às histórias.

O PCP não gosta de tratar em público a sua "vida privada". Foi fácil investigar?

Poucos gostam de ver exposta a vida privada, particularmente quando há matérias que os próprios consideram mais sensíveis, passíveis de má interpretação ou até de descontextualização. Se falamos de uma organização com quase 100 anos de história e com responsabilidade política, não aceito mas compreendo as reservas. Mas não concordo que se contorne, omita ou distorça a história. Um dos objetivos que pretendo é que se fale de Manuel Domingos e do seu assassínio. O desafio que fica é que se dê a conhecer os arquivos e se faça justiça à memória do homem e paz aos seus descendentes. Quanto à investigação, de forma simplista, digamos que os documentos emitidos pelo próprio partido aquando do crime, conjugados com a informação do processo-crime, onde consta muita e boa informação proveniente dos arquivos da PIDE, que então colaborou com a PJ, ajudaram a conduzir a trama e a tirar conclusões.

Este é um ajuste de contas pouco habitual no PCP. Não tinham alternativa?

Entre 1949 e 1951, o PCP passou os piores anos da sua existência. Nunca a PIDE esteve tão perto de destruir na totalidade os seus principais alicerces. Foram presos membros do comité central, dirigentes e militantes, desmanteladas variadíssimas casas clandestinas. Entre julho de 1950 e maio do ano seguinte foram assassinados três militantes em circunstâncias que, com a exceção da mulher morta perto do Porto, caso mais dúbio, o PCP não consegue afastar de si as suspeitas de ter responsabilidades nesses crimes. Nunca tal havia acontecido nem voltou a acontecer. Ensina-me a experiência que quando se mata alguém, é quase sempre por falta de alternativas do ponto de vista do assassino.

Surge muita da situação internacional, como o pacto entre a URSS e a Alemanha. Outra questão polémica?

Muito polémica e não só para o PCP. O Pacto Germano-Soviético gerou rutura, mas também questionamento não só no movimento comunista internacional mas também no próprio regime português, que serve de exemplo a outros congéneres. Dentro do PCP são conhecidas sérias cisões e na Resistência Francesa também foi polémico.

Como recriou a vida de Domingos?

Com o máximo de coerência, tendo em conta o que dele é conhecido em termos da sua forma de ser e estar. Em investigação criminal chama-se fazer a "autópsia psicológica à vítima". Neste caso usei o conhecimento disponível da persona de Manuel Domingos para o pôr em certas situações e, dentro daquela personalidade, que caminhos ele seguiria para as ultrapassar.

E os cenários e o modo de pensar do Portugal de então?

Para um romance histórico atingir credibilidade é fundamental conhecer e espelhar a geografia dos locais abordados, bem como a forma genérica de pensar e de agir das personagens. No caso de Na Vertigem da Traição, o processo-crime, que me serviu de base de trabalho, foi uma peça fundamental. Ajuda e muito, a leitura de jornais e de revistas da época, além, claro, ficção escrita nesse tempo e sobre esse tempo.

Quanto aos métodos policiais de então. Foi mais fácil descrevê-los do que outras partes do livro?

É uma matéria em que, por dever de ofício, me sinto particularmente à vontade, até sob o ponto de vista analítico e crítico, relativamente às opções tomadas. Considero que o processo foi mal trabalhado, ao contrário do que sucedeu no que me serviu de guia para o Chalet das Cotovias. Parece que o investigador, homem ligado ao regime, integrava com afinco a Legião Portuguesa, estava mais interessado em complementar o trabalho da PIDE do que esclarecer a envolvência do crime.

É um livro para que género de leitores?

Basicamente para pessoas que apreciam boas histórias contadas com uma certa dinâmica. Se gostarem de história e particularmente a nossa mais recente, retirarão ainda mais prazer. Na verdade, a trama é acompanhada por um significativo número de notas de rodapé - como faço sempre - que permitem aprofundar algo que não cabia pormenorizar no romance.

Este romance é uma aposta pessoal?

Importa e muito, enquanto autor e cidadão, dar a conhecer o quanto amargo é viver em ditadura, com tudo quanto isso significa, censura, polícia política, ausência de Estado de direito, e o microcosmos que representa neste contexto a PJ do que era o Portugal de então. O ser humano amesquinhado por pensar diferente, marginalizado, varrido e em situações mais extremas, preso, torturado e morto, como sucedeu a algumas dezenas (centenas?) de portugueses. É, no fundo, um manifesto pela liberdade e contra as ditaduras, venham elas de onde vierem e tenham os sinais que tiverem.

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