Para Itália, com afeto

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A arqueóloga Trinidad Nogales, diretora do Museu Romano de Mérida, disse-me um dia, quando lhe perguntei sobre o que portugueses e espanhóis, nós os ibéricos, devíamos a esse Império Romano que há dois mil anos conquistou a Península Ibérica, mudando-a radicalmente: "Eu creio que a língua é um tesouro. As nossas línguas portuguesa e espanhola, além do mais com a translação para outros continentes, transformaram-se em duas línguas do mundo global desde os séculos XV e XVI. Mas não foi só isso. Roma cria um sistema de estrutura político-social que é a nossa estrutura". E acrescentou: "A nossa raiz cultural ocidental tem uma percentagem altíssima da cultura clássica - o direito, a medicina, as vias de comunicações, o sistema geopolítico, que manteve as estruturas geopolíticas romanas, a Igreja, que manteve as estruturas latinas e romanas na própria articulação da realidade eclesiástica. O Império Romano criou um sistema político com uns níveis de conceção que, atrever-me-ia a dizer, até praticamente à Revolução Francesa se manteve em grande medida".

No fundo, Trinidad Nogales descreveu de forma académica aquilo que o humor britânico resumiu brilhantemente no célebre diálogo dos Monty Python, em A Vida de Brian, em que à pergunta incitadora da revolta "O que fizeram por nós os romanos??!!" a resposta, honesta, foi "esgotos, medicina, educação, vinho, ordem, irrigação, estradas, aquedutos, saúde pública..."

Mesmo com tantas dívidas, os britânicos Monty Python, apesar de o Império Romano ter-se estendido até às proximidades da Escócia - ficou a Muralha de Adriano como prova - usam um idioma germânico, o inglês, a língua franca dos nossos tempos a nível mundial, aquilo que o latim foi durante séculos no Ocidente. Já nós, portugueses e não só (o brasileiro Olavo Bilac escreveu sobre a "última flor do Lácio, inculta e bela") usamos uma língua que nasceu da que falavam os romanos e romanizados no extremo ocidente ibérico, o que nos torna, queiramos ou não, grandes devedores desse Império e também da sua inspiração chamada Grécia.

Provavelmente é esta ligação umbilical que nos deixa tão sensíveis, ainda mais que os não-latinos, ao italiano, tantas vezes descrito como a mais bela das línguas. Em geral adoramos tudo o que é italiano, da comida aos carros, dos perfumes à moda, e sobretudo as artes. Itália, apesar de todos os sobressaltos políticos recentes (e esperemos para ver o que fará o governo de Giorgia Meloni), é uma das dez maiores economias do mundo e isso não deixa de ser admirável, mas no soft power, poder suave em bom português, é uma superpotência. Uma superpotência cultural.

Domingo, o grande auditório da Fundação Gulbenkian encheu para ouvir Il Giardino Armonico, um ensemble de referência mundial liderado por Giovanni Antonini e que se dedica a recriar a música de outras épocas. Ao espetáculo em Lisboa - e ao do sábado anterior em Sines, no âmbito do Festival Terras Sem Sombra - foi dado o título de "Con Affetto: Emoção e Razão na Música Italiana do Século XVII". Um afeto que maravilhou o público, tanto da capital, como da cidade alentejana, e que foi apresentado na Gulbenkian na melhor das formas pelo embaixador Carlo Formosa, nascido em Roma, filho portanto, ele, do Lácio (ou Latium ou Lazio), que falou em português, com a doce pronúncia italiana. Depois do espetáculo, de grande qualidade, sentimo-nos todos tão próximos culturalmente, uma herança longínqua desse tempo em que havia uma província romana chamada Lusitânia, com capital na belíssima Mérida, com o seu teatro hoje bimilenar, e onde Trinidad Nogales continua a descobrir maravilhas sempre que a sua equipa de arqueólogos e outras escavam o subsolo da cidade espanhola.

O que é que os romanos fizeram por nós? Somos os netos e netas desses romanos. A arqueóloga espanhola também, e os italianos que tocaram no fim de semana em Sines e Lisboa igualmente.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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