Pais poupam no material escolar mas dispostos a investir mais no calçado

Vários dos inquiridos sugerem que o Governo apoie os encarregados de educação na compra do material - com vouchers, redução do IVA e uma maior dedução de IRS nestes produtos.
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Com o início do ano letivo à porta, os pais voltam às lojas para comprar o material necessário para o regresso às aulas. Com o aumento da inflação, as famílias tentam encontrar onde poupar, e isso inclui o material escolar.

Para compreender as tendências de consumo no regresso às aulas, a Escolha do Consumidor realizou um inquérito que conclui que os portugueses a gastar menos no material escolar. "Acreditamos que é motivado pela inflação e aumento das taxas de juro nos últimos tempos. Os encarregados de educação estão sobrecarregados com despesas e, portanto, 43% dos inquiridos respondem que pretendem reutilizar os materiais de anos anteriores", afirma ao DN Teresa Preta, diretora geral da ConsumerChoice.

O inquérito feito pela Escolha do Consumidor, principal sistema de avaliação de marcas em Portugal, foi respondido por 981 consumidores. 3% dos inquiridos têm entre 18 e 25 anos, 5% têm entre 26 e 34 anos, 53% têm entre 35 e 44 anos, 38% têm idade superior a 45 anos e 1% preferiu não responder. Quem mais respondeu ao inquérito identifica-se com o sexo feminino (69%), podendo estar relacionado com o papel ainda predominante da mãe neste processo.

Segundo este estudo, os encarregados de educação procuram principalmente material escolar e de papelaria (36% dos inquiridos), calçado (19%), mochilas e sacos (17%) e vestuário (16%), sendo que apenas 5% está a planear comprar produtos eletrónicos como computadores e tablets. Para 31% dos inquiridos, o preço é o fator que influencia a decisão de onde comprar os produtos, com os hiper e supermercados a serem a principal escolha destes consumidores.

Teresa Preta afirma que em relação a outros anos, os gastos dos inquiridos com material escolar, por criança, têm vindo a diminuir em relação a outros estudos feitos pela Escolha do Consumidor. 30% planeia gastar entre 76 e 100 euros por criança, 23% planeia manter os gastos entre os 51 e 76 euros e 21% irá gastar até 50 euros.

35% dos inquiridos indicam o calçado como um produto em que estão dispostos a gastar um pouco mais de dinheiro se isso garantir um produto de melhor qualidade. 19% afirma o mesmo para o vestuário.

"Outra questão que corrobora a preocupação dos pais relativamente às despesas neste mês de setembro é o facto de alguns inquiridos sugerirem a gratuitidade do material escolar e não apenas dos manuais", diz Teresa Preta.

A partir de 2016, apenas para alunos do 1º ano, e depois, a partir de 2019, para alunos de todos os ciclos do ensino público, o Governo determinou a gratuitidade dos manuais escolares. Todos os anos são distribuídos vouchers que os encarregados de educação podem trocar pelos manuais, no entanto, não incluem cadernos de atividades e fichas.

Quando questionados sobre que medidas além desta gratuitidade gostariam de ver implementadas, mais de metade respondeu que gostaria de ter um apoio à compra de material escolar. As sugestões focam-se em vouchers a ser utilizados em determinadas superfícies comerciais, redução do IVA nestes artigos e uma maior dedução de IRS nestes produtos. Outras medidas sugeridas foram almoços gratuitos e a disponibilização de fichas e cadernos de atividades gratuitos.

Numa altura em que os encarregados de educação gastam mais dinheiro com os filhos, fazem questão de conversar com as crianças sobre os gastos que estão envolvidos, além de as envolver no processo de compra. 93% dos inquiridos fala abertamente sobre os custos inerentes ao início do ano escolar. "Acreditamos que tenha a ver com 53% dos inquiridos estar na faixa etária entre os 35 e 44 anos. É uma geração que já tem maior literacia financeira e fala abertamente sobre dinheiro. Esta é uma tendência que se tem vindo a intensificar", explica ainda a diretora geral da ConsumerChoice.

A Escolha do Consumidor questionou os encarregados de educação sobre as perceções que têm sobre os professores e sobre os alunos.

As principais dificuldades que os encarregados de educação veem quanto à situação dos professores são o tamanho das turmas, os desafios na gestão do comportamento dos alunos em sala de aula e as dificuldades associadas com a progressão de carreira e salariais.

O último ano letivo foi marcado por uma forte contestação dos professores. Para este novo ano já foram convocadas greves por algumas organizações sindicais.

Quanto às dificuldades vividas pelos alunos, os inquiridos entendem que são principalmente a sobrecarga de estudos e de trabalhos de casa, o método de ensino em vigor, o pouco tempo livre para brincar e a estrutura do programa curricular.

O crescente uso da tecnologia e da inteligência artificial em várias áreas da sociedade, como a saúde, coloca a dúvida sobre a influência que terá no tipo de ensino e nos materiais que serão utilizados pelos alunos.

23% dos inquiridos consideram que em 10 anos as principais despesas estarão relacionadas com o investimento em dispositivos eletrónicos. "Por um lado os pais estão conscientes da utilização da tecnologia e da inteligência artificial, e que daqui a dez anos vai mudar o tipo de produto que vamos consumir no regresso às aulas, por outro lado estão preocupadas com o desenvolvimento de soft skills nas crianças, ao mencionarem que gostariam de um maior foco na criatividade e resolução de problemas", diz Teresa Preta.

30% dos inquiridos gostaria que em 2033 houvesse um maior foco na criatividade e resolução de problemas, 16% espera que haja uma abordagem mais personalizada a cada aluno, 15% gostaria que o ensino fosse mais prático e menos teórico, comparando com o atual, e 12% que houvesse um maior destaque nas capacidades socio-emocionais das crianças. Estas respostas revelam uma preocupação com as soft skills e o bem estar das crianças. Apenas 6% dos encarregados de educação gostaria que o ensino fosse 100% digital. "Isto mostra uma geração que acredita que a tecnologia é uma oportunidade mas que também está preocupada que não estimule as nossas crianças para outro tipo de pensamento".

sara.a.santos@dn.pt

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