É uma das jornalistas mais conceituadas da nossa televisão e um dos rostos da entrevista em Portugal. O seu currículo fala por si, e Judite Sousa dispensa apresentações. Mas nem todo o trabalho que tem demonstrado a livrou da chuva de críticas depois da entrevista a Lorenzo Carvalho. A diretora adjunta de informação foi crucificada nas redes sociais, acusada de ter usado um tom desajustado e mesmo de falta de profissionalismo por ter convidado o jovem milionário para o horário nobre e dar-lhe 15 minutos de antena. Mas afinal qual o critério para escolher um entrevistado? Como se prepara uma entrevista e que tom deve ser usado? A Notícias TV falou com alguns dos profissionais da televisão para encontrar estas e outras respostas..Para Constança Cunha e Sá, jornalista da TVI, o fundamental antes de ir para o ar é reunir o máximo de informação para estar bem na hora de fazer perguntas. "Preparo sempre um dossiê com a área, o tema, sobre a pessoa, preparo-me muito bem e documento-me muito bem. Posso trabalhar sozinha ou tenho muitas vezes a ajuda da Rita Sabino quando as áreas não são tanto do meu domínio", explica a também comentadora da estação de Queluz de Baixo..A mesma técnica é usada pelo jornalista da RTP Vítor Gonçalves que especifica: "Recolho o máximo possível de documentação sobre a pessoa ou sobre o assunto a tratar, seja perfis que foram feitos, entrevistas passadas, artigos que foram escritos sobre a pessoa ou sobre a área em que esta se move. Depois faço um resumo e é isso que me conduz à elaboração das perguntas.".Também Maria Flor Pedroso faz um apurado trabalho de casa para que nada falhe na hora da entrevista. "Leio entrevistas que foram feitas há um ou dois anos e tento pegar muito naquilo que as pessoas disseram e na maneira como foram evoluindo. Mais do que confrontar as pessoas com as opiniões dos outros, confronto-as com aquilo que disseram no passado. Um político tem muita dificuldade em comentar opiniões de terceiros, mas opiniões dos próprios já é diferente [risos] e assim consigo diminuir o campo de fuga do entrevistado", argumenta a jornalista da Antena 1..O tempo que dura a preparação de uma entrevista nem sempre é o mesmo. Vítor Gonçalves recorda a entrevista que conduziu ao lado de Paulo Ferreira ao ex-primeiro-ministro José Sócrates a título de exemplo de uma das entrevistas que durou mais tempo a ser preparada. "Dediquei mais tempo na minha investigação porque havia vários assuntos a ser tratados e também porque foi uma entrevista mais longa. Já a entrevista que fiz a Franquelim Alves teve de ser preparada no próprio dia. Mas por norma demoro três a quatro dias entre a marcação e a realização da entrevista", sublinha..No caso de Maria Flor Pedroso, o método é diferente. A jornalista revela que demora por norma dois dias a preparar a entrevista. "Um dia é para ler e para estudar, tenho vários cadernos onde vou tomando notas. No dia da entrevista é quando a escrevo. Se a entrevista for às dez da manhã acordo às seis ou às sete para escrevê-la. Não consigo fazê-la no dia anterior, não sou capaz", assegura..Escolha dos convidados depende da atualidade, mas não só.A escolha de alguns dos entrevistados nos principais noticiários televisivos, tais como Pepa Xavier na SIC, Sara Norte na RTP1 e mais recentemente Lorenzo Carvalho na TVI, tem sido alvo de muitas críticas negativas. Judite Sousa, diretora adjunta de Informação da estação de Queluz de Baixo considera legítima a escolha do jovem milionário até porque "ninguém sabia quem era o Lorenzo Carvalho e, de repente, toda a gente ficou a saber quem era por causa da festa que trouxe Pamela Anderson a Portugal. O que fez que o jovem saltasse para as primeiras páginas da atualidade". "Os jornais de hoje em dia dos canais generalistas, nomeadamente aqueles que têm uma duração muito longa, como é o caso do Jornal das 8 da TVI, que tem quase hora e meia, neste período de silly season são noticiários que têm de ter uma linha editorial ligeiramente diferente daquilo que é habitual", justifica a jornalista..Constança Cunha e Sá vem em defesa da colega de estação e fundamenta: "Entrevistar o Lorenzo Carvalho, a Pepa Xavier ou a Sara Norte justifica-se porque as pessoas querem saber mais sobre estas pessoas querem conhecê-las." Também Vítor Gonçalves considera que as entrevistas a personalidades mais ligadas à área do social se justificam desde que cumpram um dos requisitos fundamentais do jornalismo. "Acho que um bom entrevistado é uma pessoa que tem uma boa história para contar. Se tiver uma história forte e específica é sempre um bom entrevistado", sustenta..Opinião contrária tem a especialista em televisão Felisbela Lopes, que considera que "a silly season não justifica nem explica este tipo de entrevistados" e atira: "Os media vivem muito pendurados nas fontes oficiais. Quando essas fontes vão a banhos os jornalistas sentem-se órfãos, não sabem para onde se virar. Isto acontece porque o jornalismo tem cada vez menos conhecimento do país real e não falo das províncias, mas sim daquilo que acontece nos meios urbanos fora de Lisboa porque as redações estão cada vez mais centralizadas.".Ainda relativamente à escolha dos convidados, Vítor Gonçalves afiança que procura sempre ter "personalidades que acrescentem alguma coisa ao momento". "O Rui Rio, por exemplo, que entrevistei no final de julho, não tinha dito nada até àquele momento sobre as eleições no Porto e era alguém que já andava há algum tempo a tentar convencer a dar esta entrevista porque sabia que ele tinha uma novidade para dar", justifica..Já para Maria Flor Pedroso, "a escolha dos convidados pode ter que ver com a atualidade", embora considere que "nem sempre esse é o fator primordial"..Registo do jornalista difere consoante o entrevistado.Ter um político, um economista, um ator ou um jovem milionário como convidado vai ditar o tom usado pelo entrevistador, conforme explica Constança Cunha e Sá. "Normalmente tenho sempre o mesmo registo, mas pode depender do entrevistado. Se tiver um pintor ou um político à minha frente não tenho o mesmo registo, nem posso ter. São pessoas muito diferentes.".Opinião idêntica tem Fátima Campos Ferreira, que na entrevista a Sara Norte na RTP1 adotou um estilo considerado por muitos "paternalista". "Cada entrevista é um caso. É natural, também, que o meu registo seja diferente", defende..Vítor Gonçalves também reconhece que alguns convidados são mais complexos do que outros e explica o seu truque para tentar contornar as dificuldades. "Este ano fiz muitas entrevistas na área política, mas também fiz ao Ricardo Araújo Pereira e ao Miguel Sousa Tavares, que têm um estilo diferente. Quando estou a fazer o questionário imagino as hipóteses de resposta que existem para aquela pergunta, o que me permite preparar a contrapergunta. Mas na maior parte das vezes sou surpreendido pelas respostas, o que se torna muito mais desafiador", revela..Já a jornalista Judite Sousa admite que usou um tom excessivo na entrevista que conduziu ao milionário Lorenzo Carvalho no passado fim de semana e justifica: "Isto aconteceu porque tem que ver com o meu registo. Há pessoas que gostam, outras que não gostam. Eu tenho um registo, outros jornalistas terão o seu. Todos nós somos diferentes. Mas entendo que coloquei as perguntas certas a um jovem que se deu a conhecer apenas pelo dinheiro.".Perguntas e respostas são cada vez mais curtas para prender espectador.Um dos maiores pesadelos para um entrevistador é ter um entrevistado que foge constantemente às perguntas ou muda subitamente de assunto, o que leva o jornalista a ter de intervir. O que nem sempre corre bem. "Há entrevistas em que as interrupções fazem sentido e outras em que não fazem. Já me aconteceu os dois casos. Não é por interromper muito que o jornalista interrompe bem, mas isso é algo que só se percebe com a prática, em que momentos faz sentido interromper e em que momentos vale a pena deixar falar", admite Vítor Gonçalves..Já Maria Flor Pedroso garante não ter "medo dos silêncios", mas também explica em que motivos acha que é importante cortar a palavra ao seu entrevistado. "Numa entrevista de rádio ou televisão eu tenho de manter o meu ouvinte ou o meu espectador lá. Não posso excluí-lo e tenho de contextualizar as coisas para que ele perceba e queira continuar a ouvir-me. Quando o entrevistado fala em siglas eu tenho sempre a tendência de explicar a sigla porque para o cidadão comum às vezes elas não são assim tão óbvias", exemplifica..Na opinião de Constança Cunha e Sá deve haver peso e medida no que respeita às intervenções de um jornalista no decorrer de uma entrevista. "Deve deixar-se falar, mas também não pode ser um monólogo. Mas se se vai entrevistar é para se ouvir o que o convidado tem a dizer", explica a antiga editora de política da TVI..Fátima Campos Ferreira, por seu turno, evidencia que "o grande objetivo da entrevista é que sirva de experiência, vivida e ouvida, mas também de exemplo para muitos outros" que estejam a assistir à mesma..Se nos dias de hoje o medo de perder o espectador faz que perguntas e respostas numa entrevista sejam cada vez mais curtas, a verdade é que nem sempre foi assim. Quem o explica é Felisbela Lopes. "Passámos do oito para o oitenta. Antigamente o jornalista tinha de passar a ideia de que estava informado sobre o assunto e os entrevistados tinham de contextualizar a sua resposta. Agora vivemos na cultura do zapping, existe o receio de cansar o espectador e quer evitar-se a todo o custo que ele mude de canal. Mas isto acaba por ter um efeito muito perverso porque é difícil conseguir dizer alguma coisa ou passar uma ideia em poucos segundos. Tenho algumas dúvidas sobre esta forma de fazer televisão", sustenta a pró-reitora da Universidade do Minho..Outro sinal dos tempos modernos é a repercussão que uma entrevista pode ganhar através das redes sociais, seja para o bem ou para o mal. Felisbela Lopes alerta para o poder de contaminação destes meios. "Aquilo que se diz nas redes sociais passa rapidamente para os meios tradicionais. Há uma estrutura circular da opinião que é ampliada através destes meios e um efeito de contaminação que a dado momento faz que estejamos todos a falar sobre o mesmo assunto", finaliza..A Notícias TV tentou ouvir as opiniões de Ana Lourenço e Clara de Sousa, mas ambas não estiveram disponíveis para falar sobre o assunto.