Em tese, em democracia, todas as decisões que um governo toma são eleitoralistas: quem as pratica acha que são para o bem da comunidade e esta as apreciará. Mas o que costumamos chamar de medidas eleitoralistas são aquelas que apenas visam um bom resultado eleitoral desprezando o bem comum. Decisões que agradam a um conjunto de pessoas mas que são para a comunidade em geral e, muitas vezes, para essas mesmo negativas. Não faltam exemplos: aumento dos funcionários públicos no tempo do governo Sócrates quando a situação financeira do país já era desesperada, subsídio de férias para reformados quando de Cavaco Silva e por aí fora..O novo regime dos passes sociais para as zonas metropolitanas de Lisboa e Porto é uma boa decisão do governo, por qualquer ângulo em que se aborde a questão. O eleitoralismo que lhe apontam apenas pode ter por base o momento em que é lançada. Claro que o momento é escolhido em função da proximidade das eleições, sendo legítimo pensar que podia já ter sido implementada. Mas, convenhamos, para uma medida desta importância e com o alcance que tem, este óbvio defeito é quase despiciendo..Num governo que se limitou a tomar medidas conjunturais e que deixou de governar no pós-cumprimento do acordo com os seus parceiros de geringonça para apenas navegar à vista, esta é das pouquíssimas medidas que comportam uma reforma séria e uma visão estratégica acertada. O facto de uma importante e menos privilegiada fatia da população portuguesa beneficiar com esta medida seria já de si uma boa notícia, mas não suficiente para aquilatar dos seus benefícios para toda a comunidade..Fazer do transporte público uma alternativa evidentemente mais barata e mais viável ao transporte individual é um imperativo claro, diminuir as emissões poluentes é uma questão fundamental para o nosso destino comum, procurar com a melhoria da mobilidade ajudar a diminuir o impacto dos preços no imobiliário no centro das cidades de Lisboa e Porto é mais do que aconselhável - como bem salientou Ricardo Costa num artigo no Expresso..Aliás, por estas razões, não faz qualquer tipo de sentido falar de uma medida que beneficia ricos e pobres. Para já, não parece que os ricos corram todos para os transportes públicos agora que ficam mais baratos, e depois, como fica claro, se o fizessem isso ajudaria ainda mais para os objetivos estruturais..É evidente que o reforço da qualidade dos transportes públicos e a necessária correção dos erros cometidos ao longo do tempo têm de fazer parte das prioridades governativas, mas colocar isso como alternativa à diminuição significativa dos preços é um erro de análise e faz até pouco sentido. O preço é uma variável fundamental, não só porque tem um impacto importante nos orçamentos familiares mas também porque cria uma alternativa viável ao transporte privado. Mais, o facto de serem precisos mais e melhores transportes, mais coordenação, mais investimento, não pode invalidar o mérito objetivo de uma medida..Uma das críticas que mais se ouviram foi a da discriminação entre as duas principais áreas urbanas e o resto do país. O facto é que a relevância para estas duas cidades e as zonas que a envolvem não é comparável com as de outras zonas do país. No mesmo sentido, a problemas diferentes têm de corresponder soluções adequadas e não transposições. Comparar os problemas de trânsito, de ordenamento, de poluição, de mobilidade destas áreas e os de outras zonas do país não é sequer intelectualmente honesto; mais, não serão na maioria esmagadora dos casos sequer problemas para essas populações. Por outro lado, o argumento de que são os habitantes do interior a pagar os transportes dos das zonas metropolitanas é uma falácia sem nome. Para já, pagam muito mais os das zonas de Porto e Lisboa para os do interior do que o contrário - e ainda bem. Depois, esta lógica destruiria qualquer tipo de solução para qualquer zona do país, fosse ela qual fosse..Se o impacto direto da redução do preço dos passes sociais tem um impacto direto nas zonas referidas, vale a pena repetir que não se esgota aí, como acima refiro e me parece indesmentível. É por isso que parece não colher a outra crítica que diz que a despesa que o Estado central incorre devia ser suportada pelas autarquias que são abrangidas..Mas mesmo que os benefícios fossem só para essas zonas, os municípios atingidos não tinham a mínima possibilidade de financiar uma medida desta dimensão..Vale a pena, porém, olhar para o argumento de termos todo o país a pagar medidas que, aparentemente, dizem só respeito a algumas regiões e a alguns portugueses..Todas as decisões políticas, no limite, podem ser questionados nessa base. O que tem de ser trazido à colação é se os problemas que uma dada medida visa resolver são prioritários e cabem numa estratégia definida - que, por definição, interessa à comunidade como um todo. Das reações negativas a esta decisão governamental, a mais incompreensível foi a do PSD. Achou-a boa mas não concordou com ela... Se nas razões substanciais, e pelo exposto, não consigo compreender a posição - ainda para mais porque vários autarcas sociais-democratas já tinham lançado esta ideia -, nas táticas ainda me parece mais incompreensível. A queda na votação dos sociais-democratas nas zonas urbanas em causa tem sido significativa e constante, tanto em eleições legislativas como, sobretudo, nas autárquicas. Pois numa medida que vem ajudar claramente essas populações o PSD é contra. Não há como não dar razão aos opositores de Rui Rio; com estas atitudes está de facto a ajudar António Costa..Os jotinhas ao poder I.Quem se levantou contra a ida de Adolfo Mesquita Nunes para administrador não executivo da Galp quer que os políticos vivam numa redoma, sem qualquer ligação à sociedade civil, sem conhecimento de outra realidade que não seja a dos aparelhos partidários ou, na melhor das hipóteses, da academia. Numa palavra, quer que a nossa classe política seja composta por medíocres, por pessoas que se especializam em truques e jogadas aparelhísticas e que nunca tenham tido experiência de uma vida comum como qualquer cidadão..Estando na política, devia lá estar em exclusivo - deixemos de parte a pequeníssima questão de como diabo se ia sustentar, ou há quem defenda que devemos pagar a quem exerce funções partidárias? -, se está na atividade empresarial, não podia estar num partido. E depois? Claro que saindo de uma não podia entrar noutra porque existiria a questão de ter incompatibilidade por ter trabalhado na empresa x ou no lugar político y. O melhor, lá está, é manter-se sempre no mesmo lugar..Sim senhor, estamos a ajudar uma classe política muito jeitosa. E depois há quem se admire de não termos gente boa na política..Os jotinhas ao poder II."O que se tenta com esta alteração à lei é antigo e é limitar o mais possível o porte de arma. A questão é: um cidadão que não pertença às forças de segurança pode ou não ter armas? Eu acho que sim." A frase é de Nuno Melo..Sendo este cidadão cabeça-de-lista pelo CDS às eleições europeias, é legítimo presumir que deve ser esta a posição do seu partido sobre esta questão. Presunção elidível, claro está..Não será preciso discorrer sobre o quão estapafúrdio é trazer esta discussão para o debate público num país como o nosso e logo numa altura em que em todas as partes do mundo se pretende limitar o acesso a armas. Digamos que esta tomada de posição é um bom exemplo da sofisticação intelectual de Nuno Melo e do seu profundo pensamento político..Nuno Melo não tem os mesmos problemas que Adolfo Mesquita Nunes, ninguém o convida para cargos em empresas privadas e não lhe é conhecida atividade profissional relevante. Continua como vice-presidente do CDS, é cabeça-de-lista às europeias e é visto como possível futuro líder do partido. Um dia todos os políticos serão como Nuno Melo e os que tanto criticaram Adolfo Mesquita Nunes ficarão satisfeitos.