1. A primeira menção sobre a questão da Cambridge Analytica, a empresa que conseguiu piratear o Facebook e ficar com os dados de mais de 50 milhões de utilizadores da rede social, vai para o jornalismo e para a maneira como fica evidente o seu papel único, vital, incomparável na vida das democracias. Foi o trabalho de investigação do Observer/The Guardian com o denunciante Christopher Wylie (um daqueles rapazes que trocaram a excitação dos jogos de estratégia por brincar com as nossas vidas e as nossas comunidades) que permitiu vermos a ponta de um icebergue que ameaça dominar todos os aspetos da nossa existência. .Esta investigação é uma pequeníssima vitória dos media tradicionais numa guerra que está perdida e em que os verdadeiros perdedores somos nós. Particularmente no que diz respeito à política e à formação de opinião sobre assuntos políticos, a primeira trincheira a ser derrubada foi o papel do jornalismo como mediador. Mas não só. As instituições intermédias (universidades, associações cívicas, organizações religiosas, grupos de estudo, etc., etc.), os produtores de conhecimento, os intelectuais, todos dizimados pelo achismo, pela falsa democratização da opinião gratuita que as redes sociais consagraram..No fundo, o The Guardian, muito mais do que possíveis conspirações e manipulações que ajudaram a determinados resultados eleitorais, mostrou o que pode ser o mundo entregue a meia dúzia de empresas que sabem tudo sobre nós e, sobretudo, sem ninguém para os controlar, nem governos, nem tribunais, ninguém. Ainda vamos tendo jornais e jornalistas, mas até quando? . 2. É evidente que a capacidade de o Facebook influenciar a opinião é imensa. Basta ver as multidões com o nariz metido nos smartphones, olhar para os ecrãs dos tablets e dos computadores de quem nos rodeia para perceber a exposição a essa rede. Se pensarmos que há uma empresa, ou empresas, que pegam em toda a informação que lá pomos, mais a que vão buscar à sementeira que fazemos por cartões de crédito, vias verdes, etc., etc., etc., e que permite que um qualquer nerd saiba mais das nossas vidas, dos nossos gostos, das nossas motivações, do que a nossa família ou mesmo do que nós próprios, é muito fácil perceber a possibilidade de sermos influenciados de uma forma muito mais eficiente do que alguma vez fomos..A parte importante desta conversa é a eficiência. Nunca deixamos de ser influenciados pelas redes sociais em que vivíamos e vivemos. Também inventavam histórias, também faziam correr boatos, também procuravam influenciar-nos utilizando o que percecionavam sobre nós para os mais diferentes propósitos. A diferença é que agora sabem mesmo. .E, sobretudo, se sabem se nós gostamos de comer o chocolate x, vamos ao restaurante y, vamos ao restaurante w e adoramos o destino z, quase de certeza somos sensíveis a uma mensagem que nos predispõe a votar no partido xpo. Mas, se votamos nesse partido e gostamos de fatos cinzentos, é certo e sabido que gostamos do livro do Manuel Silva. .Não sei como se sai deste labirinto. Sei, porém, que, por muita influência que o enorme condicionamento e a manipulação tiveram na eleição de Trump e no brexit, existiram razões bem conhecidas bem mais decisivas. Razões ligadas ao descontentamento, ao desespero, à quebra da esperança, a condições de vida, à ignorância, à falta de confiança nos decisores políticos. O pior que pode acontecer é a tentação de pensarmos que tudo se explica por estas manobras sinistras e esquecer as razões profundas para as pessoas estarem a votar em soluções radicais, atentatórias à liberdade e à democracia liberal. Mais, o combate a estes manipuladores e aos monopólios das Googles, Facebooks, Amazons e quejandos tem de ter várias frentes: o da limitação do poder que efetivamente têm e o da luta pela construção de um mundo mais justo, onde se sinta que todos decidimos o nosso futuro e que a riqueza seja criada em benefício da comunidade e não só para meia dúzia. . 3. Voltemos ao labirinto. É verdade que somos nós que disponibilizamos toda a informação, espalhamo-la por todo o lado sem o mínimo cuidado. O facto é que desistimos da nossa privacidade. Apelar, fazer campanhas, tentar explicar às pessoas o perigo que correm, mostrar o que perdem com a ausência mínima da privacidade será muito bom, será muito pedagógico, mas já não leva a lado nenhum. A realidade das redes sociais, a divulgação consciente ou inconsciente dos nossos atos, das nossas preferências, dos nossos gostos vai continuar e na esmagadora maioria das vezes nem vendemos essa informação, damo-la de mão beijada..Não será através do esforço individual que se atingirá o que quer que seja. É na política e no poder político que tem de estar a resposta. No controlo sem descanso do tipo de informação que é recolhida por aqueles que querem ser os novos donos do mundo, pela limitação das suas atividades, pela luta não só contra os comportamentos monopolistas mas pela extinção destes monopólios. .Mas há o problema que já enfrentamos quando as organizações financeiras dominavam o mundo: a política não deixa de ser local e estes gigantes - os tais Googles, Facebooks, Amazons e que tais - operam a nível global. Que ninguém tenha dúvidas, sem um compromisso global ou, pelo menos, do mundo ocidental, daqui a nada teremos uns simulacros de governo em cada país controlados indiretamente por esses gigantes. .Dir-me-ão que é utópico pensar numa colaboração entre as democracias ocidentais. Pois, acho muito mais utópico pensar que os cidadãos vão mudar radicalmente de atitude com a sua privacidade. .A solução está, uma vez mais, na política. A tal que tem de defender a polis, os cidadãos.