Nestes dois séculos e meio de história, os Estados Unidos têm alternado entre a tentação isolacionista (fim da Primeira Guerra Mundial é bom exemplo) e a vocação intervencionista (pós-Pearl Harbor e até bem dentro do século XXI). É a primeira via que está agora a afirmar-se de novo apesar da atual tensão com a Rússia por causa da Ucrânia? Essas duas abordagens antagónicas parecem estar a dar lugar a uma "terceira via", fruto da gradual aceitação por parte dos EUA de que é inevitável a transição de um mundo unipolar (por si liderados) para um mundo multipolar. Neste cenário, os EUA procedem a uma retração estratégica reclamando, simultaneamente, um papel interventivo. Diminuem a sua iniciativa, mas procuram manter uma função reguladora - quer na entrada de "novos jogadores" na cena geopolítica, quer na ponderada gestão da forma como estes intervêm. Há um nítido desejo dos EUA de que os seus aliados assumam maior preponderância (sobretudo em questões de foro regional), mas, ao mesmo tempo, que esta sua "retração" não seja confundida com perda de influência ou um descartar de responsabilidades..Com Donald Trump a ideia de uma América autocentrada, pouco cuidadosa com os aliados europeus ou asiáticos, parecia ganhar terreno. Com Joe Biden, teoricamente mais multilateralista, a mudança é assim tão grande? A Administração Biden tentou mostrar que sim, com alguns gestos simbólicos aliás (retorno ao Acordo de Paris e à OMS, por exemplo). Há também uma aposta forte na diplomacia e em acordos estratégicos com aliados tradicionais porventura descurados no "período Trump". Porém, a política externa norte-americana assenta em linhas estratégicas definidas por atores diversos e seguem genericamente princípios de continuidade, que neste caso são visíveis: retração na Europa, foco no eixo Ásia-Pacífico, endurecimento da relação com a China, assunção de um papel dominante mas convocador de processos cooperativos com aliados do mesmo espectro político (liberal). Em síntese, há uma mudança de estilo, propiciada pela própria figura de Biden (mais cordial do que Trump), mas poucas alterações substantivas..Faz sentido ainda aos americanos verem-se como os campeões da democracia no mundo, os principais opositores ao modelo autoritário promovido sobretudo pela China? Neste domínio há uma contradição entre perceção e realidade. A maioria da opinião pública norte-americana continua a entender que os EUA são um "farol de liberdade" no mundo, ideia alimentada pelos atores políticos domésticos. Porém, os relatórios internacionais independentes revelam uma descida gradual dos EUA em índices que medem as práticas democráticas, sobretudo devido a questões de corrupção, falta de transparência, políticas de imigração e falhas na liberdade de expressão e de imprensa. Além do mais, diversos erros cometidos nas últimas duas décadas (com destaque para a Guerra do Iraque ou para a recente desastrosa retirada do Afeganistão) enfraqueceram a imagem internacional dos EUA. O seu papel histórico como "terra da liberdade" - bem como a ideia do "sonho americano" - continuam a ser um poderoso imaginário a nível global, mas de forma mais ténue do que no passado..As divisões ideológicas dentro da sociedade americana, com um nível de confrontação entre democratas e republicanos inédito, contribuem para uma falta de determinação do país em continuar a assumir a liderança global? É determinante. Os EUA vivem uma autêntica "guerra civil" em termos ideológicos, políticos e sociais. A federação foi erguida na premissa da construção de entendimentos entre instituições políticas, para gerar pontes comuns a partir de perspectivas distintas, mas essa lógica agregadora não resistiu ao fenómeno de polarização e verdadeira tribalização em que mergulhou o país. Num cenário deste tipo, o foco do debate, a energia dos agentes políticos e os recursos disponíveis tendem inevitavelmente a concentrar-se nessa disputa doméstica, minando a sua capacidade de conduzir uma política externa eficaz..É o mundo mais seguro se os Estados Unidos não abdicarem da sua missão de polícia do planeta? A perda de influência dos EUA não é uma boa notícia para o futuro. Há dados que beliscam a imagem dos EUA como "campeões da liberdade", mas os valores democráticos que sustentam a nação são incomparáveis com as práticas de outros países como a China ou a Rússia. O grande problema deste declínio é que permite uma certa aceitação global de regimes iliberais, por transmitirem uma ideia de bem-estar económico em troca da qual se aceitam algumas limitações de liberdades pessoais. Este caminho é perigoso, não só pela erosão que traz à dignidade fundamental dos indivíduos, mas também porque ignora que estes regimes têm uma natureza agressiva e belicista, mesmo que apenas latente. Assumindo estes países um papel de destaque, não tardará a que essas tendências se manifestem abertamente. É fundamental que os EUA continuem a funcionar como importante contrapeso democrático neste jogo de xadrez..A China tenta ultrapassar os Estados Unidos, mas se isso é possível do ponto de vista económico geral, já em termos de qualidade das universidades, de investigação científica, de empresas tecnológicas, é dificil imaginar a América a perder a liderança. O que explica essa vantagem, digamos cultural, dos Estados Unidos? Investimento, baseado na responsabilidade e organização. Os EUA montaram ao longo de décadas um sistema de investigação de excelência, alicerçado numa bem-sucedida parceria entre fundos públicos e privados que continua a funcionar como insuperável pólo de atracção mundial. Se a influência dos EUA se prolongar no tempo, muito se deve a esta aposta persistente..leonidio.ferreira@dn.pt.VEJA A CONFERÊNCIA AQUI:.https://videoconf-colibri.zoom.us/j/89090671483?pwd=ZDFqNncxWkNkWjRsaFp0OWV3ZjkzQT09.Password: 151559.Meeting ID: 890 9067 1483