OS ABISMOS DO HUMOR POLÍTICO

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Desde Os Pássaros de Aristófanes (414 a. C.) até As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift (1726), o humor político constituiu um decisivo elemento de equilíbrio e escape para o poder. Nos tempos medievais era mesmo institucionalizado na figura do bobo da corte, que dizia o que mais ninguém se atrevia. A nossa era de extremos, que não consegue uma relação saudável com nada, veio a cair em dois abismos opostos. Ditaduras, de várias inspirações, chacinaram humoristas para criar a ilusão boçal de infalibilidade pomposa. A sociedade da informação derrapa no exagero antagónico.

Um passo decisivo nesse sentido foi dado pelo genial The Daily Show da Comedy Central desde Julho de 1996, com Jon Stewart desde 1999, e seus desenvolvimentos, como The Colbert Report de Stephen Colbert desde Outubro de 2005. O elemento novo neste fenómeno mundial de popularidade é o programa ser feito com notícias verdadeiras. Não só brinca com poderosos, como a Contra-Informação, Inimigo Público ou Gato Fedorento, mas manifesta o ridículo apresentado em directo pelos próprios. As entidades mais eminentes têm sido entrevistadas nesses programas, defrontando um questionário tão mais difícil porque hilariante.

Agora Barry Levinson trouxe-nos o passo seguinte, embora ainda em ficção. No seu recente filme Man of the Year (2006, com Robin Williams; se não viu salte o resto deste parágrafo), um humorista é eleito Presidente dos EUA. É verdade que, para manter a credibilidade, o enredo faz depender o resultado de um erro de computador. Mas o interessante é que por alguns dias toda a gente, incluindo o próprio, parece aceitar que ele seja mesmo Presidente.

Muitos políticos vieram do mundo do espectáculo, como os ex-actores e ex-presidentes Ronald Reagan nos EUA de 1981-1989 e Joseph Estrada nas Filipinas de 1998-2001, ou os governadores Jesse The Body Ventura, ex-lutador de wrestling (Minnesota, 1999-2003) e Arnold Schwarzenegger (Califórnia desde 2003). Mas Tom Dobbs, o protagonista de Levinson, é eleito enquanto comediante. No tempo dos blogs, SMS, YouTube, parece credível.

Toda esta exuberância esquece um pequeno detalhe que John Ashcroft, antigo procurador- -geral dos EUA, sublinhou na sua entrevista ao The Daily Show (18/10/2006). Ele, uma das pessoas mais ridicularizadas, criticadas e insultadas dos últimos anos, respondeu assim à sua impopularidade: "Quando se lida com o ambiente do terrorismo, não se tende a ser visto como humorista..." Estas palavras, de repente, mostram um abismo insuspeito. É difícil fazer boas piadas sobre os líderes; mas é muito mais difícil responsabilizar-se perante o país, esforçar-se por resolver os problemas. Governar. Essa é a angustiante dificuldade que o cómico ignora.

Hoje não temos condições para lidar com o verdadeiro humor político. Esse só é possível, como em Aristófanes, os bobos e Swift, quando existe um respeito geral da população pelos governantes. Se há amor ao rei e crime de lesa--majestade, o comediante contribui com um contraponto indispensável. Mas se a população, invertendo a posição, despreza os políticos e respeita os cómicos, cai-se numa situação doentia. Porque no fim, quem trata do problema real nunca é visto como humorista.

É indispensável rir do disparate, zurzir o abuso, "farpear a tolice" como diziam Eça e Ramalho. Mas mantendo sempre o respeito por quem serve o País. Este equilíbrio é muito difícil, pois a chicana ridiculariza tudo. É tão fácil gargalhar no sofá!

Esta questão é agora decisiva, pois parece ter acabado o estado de graça do Governo Sócrates. Vamos entrar no período, igual aos antecessores, em que os humoristas, desde a televisão à mesa do café, vão ter barrigadas de riso à custa de ministros, políticas e deslizes. Vai ser uma paródia! Entretanto, é preciso governar o País e nos próximos tempos serão esses ministros e políticas, com mais ou menos deslizes, que nos vão dirigir. E, afinal, os problemas com que lidam afligem-nos a nós, não a eles. Começamos por rir, mas tudo acabará em lamentos. |

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