Quando no natal passado os alunos da Orquestra Geração subiram ao palco do Teatro D. Pedro V, na Amadora, não podiam adivinhar que em breve voltariam para trás do pano, sem data para regressar aos espetáculos. Foi a última vez que se juntaram para tocar. Agora, a 25 de abril, juntam-se de novo, mas ainda em modo virtual. Em comum, o mesmo município da Amadora. Mas esse é apenas um dos seis onde projeto chega,, através de 20 escolas e alcançando cerca de 2000 alunos, atualmente. Mas nos últimos anos já passaram por ali cerca de 6.000 alunos.."O que nos interessa a nós é trabalhar na formação das crianças e jovens, no sentido de ajudar para a formação da sua personalidade, permitindo-lhes que quando chegarem à altura de escolher a sua profissão ou a continuação dos seus estudos, eles estejam mais habilitados para o fazer", explica ao DN o diretor das Orquestras Geração, António Wagner Diniz. E como é que, afinal, são selecionados os alunos? As Câmaras Municipais parceiras indicam as escolas, preferencialmente TEIP (Territórios Educativos de Intervenção Prioritária), onde o tecido social é mais frágil..Wagner Diniz acredita que, através deste envolvimento regular com a música, "a capacidade de concentração dos alunos aumenta substancialmente o aproveitamento que têm nas aulas". "Não somos uns milagrosos...mas efetivamente temos obtido resultados", conclui o responsável pelo projeto, entusiasmado com a mais recente aposta, que é a escola de jazz. A ideia é atingir os alunos mais velhos, adolescentes, que até agora ficavam de fora. As Orquestras Geração começam com os mais pequenos (na pré-escola) e incidem no primeiro ciclo do ensino básico e n o segundo ciclo..A chegada deste projeto aos concelhos de Castanheira de Pêra e Tondela, respetivamente nos distritos de Leiria e Viseu, é um marco importante. António Wagner Diniz acredita que é uma forma de dinamizar o interior, e de extravasar a ligação com os alunos das escolas, estabelecendo "uma ligação à comunidade", que resulta de uma candidatura ao POISE (Programa Operacional Inclusão Social e Emprego). De resto, esta nova vertente do projeto chama-se precisamente "Comunidades Geração"..Para lá da área metropolitana de Lisboa, o projeto expandiu-se numa primeira fase para Coimbra.Wagner Diniz sublinha a importância do apoio do Ministério da Educação (na contratação de professores) , das Câmaras Municipais, e também dos mecenas privados que ao longo dos anos se têm juntado à iniciativa. A Orquestra Geração nasceu em 2007, na escola Miguel Torga, na Amadora, integrada num projeto mais vasto apoiado por fundos europeus e pela Fundação Calouste Gulbenkian. António Wagner Diniz lembra-se bem do desafio de um colega (à época diretor do conservatório nacional) que se lembrou de incluir a música como meio de melhor integrar os alunos com maiores dificuldades. E por isso percebe-se como é que este é um projeto de cariz social para jovens que visa formar, promover a inclusão social e fomentar o desenvolvimento pessoal dos dos mais novos..O projeto contava, no início, com 15 alunos do 5º, 6º e 7º ano de escolaridade, acabando esse ano letivo de 2007 com 35 alunos. Em pouco mais de dez anos, a Orquestra Geração cresceu e está atualmente presente em 20 escolas na área Metropolitana de Lisboa e em Coimbra, com um núcleo. No total, o projeto reúne cerca de 2000 crianças e jovens, distribuídos pelos concelhos de Amadora, Almada, Vila Franca de Xira, Lisboa, Oeiras, Loures, Sesimbra, Lisboa e Coimbra. Já nos concelhos de Tondela e Castanheira de Pêra, as Comunidades Geração, têm um caráter inovador e de empreendedorismo social. A iniciativa intervém junto de 45 crianças e jovens do 1º e 2º ciclos de escolaridade.."Estou contente, porque mesmo em tempo de pandemia, é possível concluir que o projeto já ganhou algumas raízes", diz ao DN o professor Wagner Diniz. Ressalva sempre que "a Orquestra Geração não é uma escola de música, mas sim uma escola de cidadania que oferece cultura musical a grupos sociais vulneráveis e desfavorecidos. O objetivo do projeto não é a formação de músicos profissionais, mas sim a formação de pessoas. Ao manter os alunos nas escolas, e ao ocupar os seus tempos livres, a música permite mostrar que existem mais vias para construir um futuro melhor". E por isso na Orquestra não há avaliações, embora haja "exigência e responsabilidade"..A Orquestra Geração é inspirada no Sistema Nacional das Orquestras Juvenis e Infantis da Venezuela, mais conhecido por El Sistema, criado em 1975 por José António Abreu. O objetivo é dar apoio a crianças e jovens com problemas de insucesso e abandono escolar, com dificuldades de integração social. E tudo através da música. A metodologia da Orquestra Geração é considerada a mais próxima do modelo venezuelano. De resto, sempre teve apoio do próprio José António Abreu e do maestro Gustavo Dudamel. Todas as semanas há sete horas de aulas e prática instrumental (cordas, sopro, percussão e coro), depois do horário escolar, sendo que seis são em grupo, pares ou naipes. Os instrumentos são fornecidos pela Orquestra Geração, mas ficam à responsabilidade dos alunos.