Origem do homem na Ásia

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Há similitudes entre dentições euro-asiáticas

A origem única e africana da população humana da Europa foi esta semana posta em causa por um estudo que será brevemente publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. A equipa comandada pela paleontóloga espanhola Maria Martinón-Torres concluiu, a partir da observação meticulosa de mais de 5000 dentes e mandíbulas de hominídeos, que existem evoluções separadas euro-asiáticas e africanas. O estudo não nega a possibilidade de terem existido migrações plistocénicas (entre 1,8 milhões e 10 000 anos atrás) oriundas de África. Mas afasta a sua exclusividade e abre portas à hipótese de reciprocidade. Ou seja, pode ter havido euro-asiáticos que também povoaram África.

A evolução paralela de várias estruturas hominídeas é explicada pela equipa de Maria Martinón-Torres através da diferente morfologia das cúspides e rasgos dentários, bem como de diferentes evoluções da dentição anterior (incisivos e caninos) e posterior (molares) dos antepassados do Homem. No caso dos Homo Esgaster, do Homo Habilis ou Austrolopitecus, oriundos de África, a dentição anterior era menos robusta, enquanto a posterior era mais complexa. No caso dos euro-asiáticos, quer fossem Homo Erectus, quer Homo Antecessor, a equipa de investigação reparou que tinham como traço comum uma dentição anterior muito robusta e com um tamanho consideravelmente maior que os africanos, enquanto a anterior era de formato reduzido, simplificando-se ao longo da vasta época estudada até lhe desaparecerem as cúspides.

Segundo o estudo em apreço, só há cerca de 10 mil anos é que os cursos evolucionistas das diversas espécies "humanas" se começaram a interpenetrar. A mistura mais complexa que deu origem ao Homo Sapiens sapiens não teve, por isso, uma única origem, como se pensava até agora.

O estudo a partir da dentição é, segundo os autores do Dental Evidence of the Hominin Dispearsals During the Pleistocene, "uma das mais fidedignas fontes para decifrar a nossa anatomia", diz a autora. "Conser- vam fielmente os riscos e as características típicas das diferentes populações, sendo uma espécie de 'caixa forte genética' que guarda dados extremamente fiáveis", sustenta a mesma fonte.

O estudo baseia a sua tese também nas dificuldades existentes a partir do Plistocénico Médio (entre 780 mil e 125 anos atrás), de grandes migrações entre a África Oriental e o Próximo Oriente, devido à rápida evolução do deserto. Maria Martirón-Torres prefere concluir que a evolução humana na Euro-Ásia partiu do encontro de hominídeos no cruzamento "natural" que é o Médio Oriente.- M.A.C.

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