Ópera digital 'Itinerário do Sal'

O 'ar do texto ópera a forma do som interior', é com este verso que o músico Miguel Azguime, do grupo Miso Ensemble, traduz o seu trabalho de criação poética, musical e multimédia na ópera digital 'Itinerário do Sal'.
Publicado a
Atualizado a

Em cartaz no Rio de Janeiro desde 30 de Julho e com performances no mês de Agosto em Belo Horizonte, o espectáculo - uma obra desconcertante, 'abstracta e expressionista' - é um 'trabalho sobre a língua', classifica o próprio autor.

Azguime admite ser uma pergunta difícil de responder quando questionado sobre o que é o 'Itinerário do Sal'. 'É um espectáculo muito denso. Não é fácil de explicar, tem vários elementos e todos eles se sucedem a um ritmo bastante intenso'.

Com uma 'dimensão abstracta e expressionista', o espectáculo é a história do próprio ato criativo. 'Uma ficção situada sobre si própria, que revela uma série de dimensões que estão em todas as formas artísticas. É um questionar a própria criação, o papel e os limites dessa criação'.

Com obras apresentadas em festivais de música contemporânea de Portugal ao Japão, passando por mais de 20 países como Brasil, Alemanha e Espanha, o 'Itinerário' fomenta linguagens musicais e a sua interacção com as novas tecnologias.

'É trabalhar a língua, o texto como se fosse música'. É um espectáculo dedicado à voz, contudo, 'eu não sou cantor de ópera, portanto eu falo', salienta.

Face à dificuldade de explicar a sua performance pioneira, com uma hora de duração, Azguime recorre a nomenclaturas: 'Eu quero fazer um recital de poesia que seja diferente. É o que chamamos de 'nova Op Era', um teatro musical, ou poesia sonora'.

Segundo ele, este é um espectáculo com todos os ingredientes da ópera, 'embora provavelmente as grandes salas de ópera não aceitariam receber o 'Itinerário do Sal'. Há uma dimensão demasiado experimental'.

Na conversa que Azguime manteve com a Agência Lusa no Rio de Janeiro, o poeta e músico português admite sentir que a sua criação está na vanguarda. 'Demasiado à frente, tanto pelo lado tecnológico como pelas várias propostas. O tratamento da voz e da poesia faz com que o espectáculo esteja nitidamente a olhar para o futuro'.

Ao ser questionado sobre esta nova arte 'made in Portugal' com uma outra forma de fazer arte interactiva no campo da música electrónica e do espectáculo cénico, Azguime prefere evitar rótulos e regionalismos.

'Falar de uma arte portuguesa, no meu caso concreto, de uma música portuguesa, ou de um teatro musical, é muito difícil ligar isso directamente a Portugal. Existem certamente alguns elementos que fazem (o espectáculo) português. Acho que é a melancolia. No meu trabalho, inevitavelmente, há momentos muito melancólicos. Será que isso é ser português? Ou ser lusófono, português, brasileiro e toda a lusofonia ao mesmo tempo?', pergunta.

'Talvez sim, talvez não. Não sei responder', conclui.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt