No final da tarde de 22 de janeiro, um domingo frio que se revelou muito quente dentro do Centro de Congressos de Lisboa, onde decorreu ao longo do fim de semana a convenção da Iniciativa Liberal (IL) destinada a escolher o sucessor de João Cotrim Figueiredo na liderança do partido, só os mais otimistas eram capazes de jurar que tudo iria correr bem após uma campanha que evidenciou as divergências internas de uma força partidária que, menos de um ano antes, multiplicara por oito a representação parlamentar..Ainda assim, enquanto o deputado eleito por Braga Rui Rocha festejava a vitória na convenção, com 51% dos votos, entre os apoiantes de Carla Castro, que acabara de conseguir 44%, apesar de não ter consigo nenhum outro membro do grupo parlamentar, e do apoio explícito de Cotrim Figueiredo ao adversário, havia quem acreditasse que a candidata teria todas as condições para continuar a fazer o seu trabalho parlamentar. E que, apesar das trocas de acusações e das manifestações mais ou menos assumidas de azedume de parte a parte, o partido encontraria forma de encontrar a unidade possível para uma legislatura que, na altura, nada fazia desconfiar que não fosse durar até 2026..Menos de um ano depois desse fim de semana no Centro de Congressos de Lisboa, onde intervieram quase todos os protagonistas do passado, presente e futuro da IL -- tirando o ex-presidente e atual deputado Carlos Guimarães Pinto, que se alheou do processo de sucessão do seu sucessor --, Carla Castro está prestes a deixar um grupo parlamentar de que se foi tornando corpo estranho, por motivos nunca totalmente esclarecidos por qualquer uma das partes. A deputada, que entretanto deixara de ser vice-presidente da bancada liberal, recusou o convite para passar de segunda da lista por Lisboa a sétima no mesmo círculo nas próximas legislativas, tendo o vice-presidente Ricardo Pais Oliveira referido que poderia eventualmente vir a ser quinta ou sexta..Elogiada pelas outras bancadas, Carla Castro tem dito que pondera voltar a trabalhar em empresas ou dar aulas numa universidade, mas o seu perfil e experiência tornam desde há muito recorrente a ideia de que personifica o tipo de independente com que o líder social-democrata, Luís Montenegro, quer complementar as listas da Aliança Democrática, coligação pré-eleitoral do PSD com o CDS, anunciada pelos dois partidos na quinta-feira. Para já, a ainda deputada da IL não terá recebido contactos formais, mas nos próximos dias pode haver desenvolvimentos, na medida em que as listas têm de ser aprovadas pelos dois partidos no início de 2024 - quando ficar a faltar cerca de dois meses para as legislativas de 10 de março..Se ainda poderá haver mais consequências de um eventual convite à mulher que esteve à beira de ser líder da IL, dificilmente poderiam ter sido mais imediatos os efeitos do mal-estar na convenção marcada por intervenções em que elementos mais conservadores denunciaram melancias "vermelhas por dentro", ouvindo-se críticas ao wokismo presente nas intervenções de muitos membros mais jovens, tal como do outro lado da barricada ganharam notoriedade expressões como "liberal em toda a linha". Poucas horas depois de os trabalhos encerrarem, Cláudia Nunes, que foi candidata ao Conselho Nacional na Lista B, dos autodenominados liberais clássicos, anunciou que deixaria o partido. A também apoiante da candidatura de Carla Castro à liderança da Comissão Executiva escreveu nas redes sociais que "seria hipócrita amanhã levar bandeiras e gritar por "liberal" numa agremiação que perdeu o liberalismo", criticando o "nepotismo" e o "caciquismo"..Para o simbólico 25 de Abril ficou reservada a saída de um grupo de militantes conotados com a ala conservadora, como o primeiro nome da Lista B ao Conselho Nacional, Nuno Simões de Melo, e a também conselheira nacional Mariana Nina, apontando como gota de água a viabilização pelo grupo parlamentar liberal de projetos de lei do PS e do Bloco de Esquerda sobre autodeterminação de género nas escolas. Acusando a IL de "negar honestamente ser um partido de direita e negar falsamente ser um partido de esquerda", mais de uma dúzia de membros bateram com a porta, iniciando Simões de Melo o percurso que o levaria a aderir ao Chega a 25 de novembro..Entre os membros da equipa que constituiria a Comissão Executiva se Carla Castro tivesse sido eleita também não tardaram a haver baixas. Desde logo, o candidato a vice-presidente Paulo Carmona, que fora adjunto do grupo parlamentar até assumir a coordenação da candidatura da deputada. O afastamento em relação à nova liderança foi sempre evidente, e o gestor -- responsável pelo núcleo territorial de Sintra e candidato à presidência dessa autarquia -- comunicou a desfiliação em maio, quando Carla Castro deixou a vice-presidência do grupo parlamentar..Também deixaram de pertencer à IL apoiantes de Carla Castro que estiveram na anterior Comissão Executiva, presidida por João Cotrim Figueiredo, como Vicente Ferreira da Silva, que cessara de ser adjunto do grupo parlamentar na sequência da convenção que elegeu Rui Rocha, e Catarina Maia, número dois do partido nas eleições europeias de 2019, que ficou na Assembleia Municipal da Maia como deputada independente..Quanto à lista para a Comissão Executiva encabeçada por Carla Castro, além da saída de Paulo Carmona, que teria sido o vice-presidente para o Sul, os últimos meses ditaram o afastamento da atividade partidária de elementos como Filomena Francisco, que seria vice-presidente para o Norte, e a muito recente desfiliação dos ex-candidatos a vogais Diogo Amaral e Orlando Monteiro da Silva, ex-bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas e presidente da Associação Nacional dos Profissionais Liberais..Já depois do início da crise política que levou à demissão do primeiro-ministro António Costa e à convocação de eleições antecipadas, mais 25 membros da IL anunciaram a desfiliação, fazendo um diagnóstico muito negativo no documento: "Não foi isto que nos prometeram". Os signatários dizem que "um projeto que podia, de facto, mudar Portugal" se transformou "numa caricatura daquilo que em 2019 se propôs", acusando a IL de passar "a ser paulatinamente um partido do regime, sem rasgo nem ambição". E deixando acusações de "caciquismo agressivo e de perseguição e ofensas a quem pensa diferente dentro do partido e não segue a cartilha que é defendida pela Comissão Executiva"..Entre os que saíram a 25 de novembro estavam os conselheiros Diogo Saramago Ferreira e Nuno Carrasqueira, bem como Diogo Prates, cabeça de lista por Setúbal nas legislativas de 2019, que já se filiou no Chega. Em comum tiveram o apoio a Carla Castro na corrida à liderança, restando poucos com atividade partidária. É o caso do primeiro líder da IL, Miguel Ferreira da Silva, que é deputado municipal em Lisboa, e do ex-candidato presidencial Tiago Mayan Gonçalves. E sobretudo de alguns conselheiros nacionais que recentemente votaram contra as listas de candidatos a deputados propostas pela liderança de Rui Rocha, com Rafael Corte Real e Cristiano Santos à cabeça. Na lista de Lisboa, ainda que em lugar não elegível, surgiu Eunice Baeta, deputada municipal em Sintra, que foi uma das raras apoiantes da prestes a ser ex-deputada que não foram excluídas da corrida às legislativas.