Ver ficção televisiva é uma actividade simples: o espectador instala-se confortavelmente, disposto a tolerar a última oferta, e vai registando o que lhe agrada e desagrada; os dados desse contacto emocional formam a substância da sua "opinião": gosto disto, não gosto disto. Devidamente esclarecido, pode agora dedicar-se à tarefa de tornar tudo muitíssimo mais complicado..Uma vez que uma parte tão significativa do processo se resume a vermos coisas de que não gostamos muito, parece da mais elementar justiça - um ritual de equilíbrio profiláctico - que de vez em quando a televisão produza algo cuja principal característica é não gostar muito de nós..A terceira temporada de True Detective (HBO) levou este impulso reactivo às últimas consequências e criou algo que é menos uma obra de ficção do que um subtweet de oito horas. Não será um objecto cultural tão intransigentemente hostil para o seu público-alvo como o longo crucigrama chamado Finnegans Wake ou o infame Metal Machine Music de Lou Reed, mas as suas intenções não são menos claras. Tenciona explicar-nos três coisas, pela seguinte ordem de prioridades: 1) que sabe perfeitamente aquilo que queremos; 2) que dar-nos aquilo que queremos seria uma tarefa fácil; 3) que não vai fazer nada disso, e se não gostarmos podemos ir para o raio que nos parta..O que é que fizemos, exactamente, para merecer este tratamento? A circulação de ressentimentos recíprocos entre criador e espectador não é propriamente novidade no meio: Aaron Sorkin dedicou um episódio inteiro de West Wing a dramatizar a irritação que sentira ao ler um fórum online sobre a série. Mas um fenómeno curioso ocorreu entretanto (estipulemos, por conveniência, que como resposta aos enigmas autofágicos de Lost): a distância hierárquica encolheu ao mesmo tempo que as margens participativas aumentaram. Cada série nova é automaticamente recebida como um rally paper de descodificação - um potencial repositório de para-textos, teorias alternativas e trilhos não seguidos. As opiniões foram substituídas por contrapropostas. Não admira que alguma da velha aristocracia produtora de conteúdos olhe para isto como um sistema de classes desmoronado, onde já ninguém sabe o seu lugar..Foi precisamente o público formado e treinado nesta nova modalidade de consumo activo - a série de TV enquanto problema para "resolver" - que transformou a temporada original de True Detective num sucesso, sucesso esse medido menos pelos banais parâmetros clássicos (shares, audiências, etc.) do que pela massa crítica de hermenêutica amadora que gerou. Durante um breve período em 2014, os momentos mais freneticamente originais de True Detective ocorriam entre episódios: quando o caldo atmosférico de elementos cénicos, alusões indefinidas e retórica portentosa era filtrado por colectivos online e forçado a significar algo impossivelmente maior do que a soma das partes. Muito antes de o último episódio descartar 90% das pistas sobre conspirações e criaturas sobrenaturais, a especificidade do entusiasmo já tinha plantado as sementes da sua própria desilusão..A nova temporada, tal como a primeira, envolve dois agentes policiais na resolução de um crime em múltiplas cronologias paralelas. Ao contrário da primeira, inclui na narrativa um emissário do público, na figura de uma investigadora civil que interroga os protagonistas, munida de um catálogo completo de teses e especulações, e confiante na sua capacidade para fazer um melhor trabalho que os profissionais. Pergunta-lhes se por acaso nunca consideraram X. Pergunta-lhes se nunca sentiram que Y era coincidência a mais. Levanta a hipótese de encobrimento, ou de uma conspiração ao mais alto nível. A dada altura (num momento inspiradíssimo) mostra uma fotografia das personagens da primeira temporada e avança que "pode estar tudo ligado". Quer à viva força que a história de que faz parte seja mais expansiva, inclusiva e interessante do que é - até que o guião lhe explica que não só a história não é interessante, como não é dela, como já nem sequer a pode ver à frente..Em vez de deixar o mistério intacto ou ambíguo - a conclusão com maior prestígio narrativo contemporâneo - ou de apostar na súbita inversão por decreto (o famoso twist final), o último episódio de True Detective revela não uma, mas quatro soluções minimalistas e insatisfatórias: duas erradas, uma certa e uma imaginária. Raras vezes um manifesto tão litigioso teve direito a um orçamento tão elevado: se quiserem enigmas com maior ressonância, vão vocês fazê-los..Com um orçamento mais modesto, mas também com menos ansiedades para negociar, a TVI dedicou a semana a elucidar outro enigma, numa reportagem em duas partes intitulada "As faces ocultas de Salazar". Com a sofisticação artística que associamos à melhor televisão, ofereceu não uma investigação forense, mas um estudo de carácter. "O que é que se sabe sobre a vida íntima, secreta e até misteriosa do homem que marcou o século XX português?" Pelos vistos quase nada, até agora. Prometendo revelações sobre "as manias, os hábitos, as drogas e as crises depressivas", a reportagem foi ao Vimieiro escavar os escombros da quinta onde o Professor Doutor viveu, exumando novidades tão estarrecedoras como o facto de Salazar gostar muito de pássaros ("sobretudo canários"), camélias ("a flor preferida do poderoso solteirão"), e de escrever poemas ("Bela rosa orvalhada/ no coração plantada/ tão mimosa"). Onde a historiografia oficial se empenha em descascar a mesma imagem de sempre, a TVI optou por actualizar o mito para o século XXI, oferecendo-nos um Salazar paleogótico, propenso a neurastenias e paixões platónicas, ávido consumidor de medicação, avesso "à luz do dia", e capaz de se fechar no quarto durante horas a fio: uma canção dos My Chemical Romance em forma humana. Para Angola, languidamente e com eyeliner!