Olhares do Mediterrâneo: a riqueza oculta das perspetivas femininas

Está de regresso, a partir desta quinta-feira, o lisboeta Women"s Film Festival, iniciativa que vai para a sua 10.ª edição com a força de um festival que sempre esteve do lado das mulheres. Continuam a ser elas que oferecem olhares renovados sobre a realidade mediterrânica.
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Se é verdade que nos últimos anos o cinema feito por mulheres tem vindo a alcançar cada vez mais expressão, poucos festivais podem dizer a seu favor que esse cinema foi sempre a razão de ser do projeto. A chegar agora à 10ª edição, o Olhares do Mediterrâneo - Women"s Film Festival encaixa orgulhosamente em tal categoria rara. Não só por ter como conceito de origem o cinema de assinatura feminina, mas também porque o seu principal foco é a identidade e diversidade mediterrânicas, com um espírito interventivo: "Acreditamos que os festivais podem impulsionar a potência do cinema para abrir janelas sobre o mundo e serem fatores de mudança social", lê-se no texto de abertura desta edição. E, de facto, o Olhares mantém-se firme na missão de dar a conhecer ao público obras que, de outra forma, não teriam contexto para serem refletidas. É o que vai acontecer a partir do próximo dia 9, e até 16, no Cinema São Jorge, em Lisboa, e noutros espaços.

Este ano, na competição de longas-metragens, há produção italiana, com The Matchmaker (documentário da jornalista Benedetta Argentieri, que dá a conhecer a história da jihadista britânica Tooba Gondal, famosa pelo título de "casamenteira do ISIS"), um olhar curdo sírio, The Wedding Parade (ficção de Sevinaz Evdike localizada na fronteira entre a Síria e a Turquia, sob ameaça de guerra), e também cinema português, com Uma Situação Temporária, de Ânia Bento, e Quatro Mulheres ao Pé da Água, de Cláudia Clemente, cada qual de olhos postos na dor feminina, seja de ordem económica ou relativa às profundezas psicológicas.

Composto por outras três secções competitivas (curtas, "Travessias" e filmes de escola), o Olhares do Mediterrâneo percorre visões que vão da Grécia ao Brasil, passando por França e Marrocos, sempre com linhas temáticas robustas, em particular, as migrações, o racismo e o colonialismo. Há ainda um ciclo dedicado ao cinema turco de cunho feminino, com oito filmes representativos de uma página desconhecida, pelo menos por cá, dessa cinematografia quase só divulgada no masculino, que estará a decorrer na Cinemateca, a partir do dia 13. De resto, não são esquecidos os debates, workshops, masterclasses, seminários, lançamentos de livros, entre outras propostas, numa programação dinâmica, repleta de convidados.

YOU RESEMBLE ME, de Dina Amer (dia 9, 21.30)
Dentro do programa do Olhares, vale a pena colocar a lupa sobre algumas sessões, desde logo a de abertura. You Resemble Me põe o dedo na ferida de um tema especialmente delicado nos dias que correm: é o retrato mais completo possível do que pode levar uma jovem mulher à radicalização. O caso concreto que a realizadora cita é o de Hasna Ait Boulahcen, conhecida como a "mulher kamikaze", a terrorista que se supôs ter feito explodir num apartamento em Saint-Denis, Paris, no dia 18 de Novembro de 2015. Quem era Hasna? Fixada nessa interrogação furiosa, Dina Amer dá-nos um vislumbre da sua infância miserável, do vínculo que tinha com a irmã mais nova e a forma como a separação das duas, para além da permanente humilhação no seio da cultura francesa, levou Hasna por um caminho sem retorno de lavagem cerebral... Por vezes o filme é um pouco histérico e a câmara turbulenta enerva, mas quando fica claro o traçado íntimo da personagem interpretada pela estrondosa Mouna Soualem, tudo ganha outra dimensão. Nota: You Resemble Me é uma produção de Spike Lee e Spike Jonze.

FORAGERS, de Jumana Manna (dia 10, 19.30)
Cruzando um esboço de ficção com uma essência documental, o palestiniano Foragers é um olhar tão terno quanto angustiante sobre a realidade do território ocupado. Sem perder o sentido de humor, a realizadora Jumana Manna observa as subtilezas da tensão entre a Autoridade Israelita de Proteção da Natureza e os respigadores palestinianos, que apanham as ervas silvestres com que é preparado o Za"atar, uma especiaria fundamental da cozinha árabe. A proibição da sua recolha, apenas aplicada aos palestinianos, surge, obviamente, como uma forma de violência quotidiana: a recolha torna-se então um ato de resistência para quem só quer alimentar a família. Com uma sonoridade musical de western em fundo, e duração de pouco mais de uma hora, Manna leva-nos no encalço dos homens e mulheres que se fundem com as dores da paisagem. Foragers está, em simultâneo, na competição de longas-metragens e na secção Travessias.

MY GIRL FRIEND, de Kawthar Younis (dia 9, 17.00)
A primeira de duas curtas-metragens que aqui recomendamos, My Girl Friend traz uma curiosa abordagem da identidade de género. Eis a situação: para conseguir entrar no quarto da namorada, um rapaz veste-se de rapariga e apresenta-se à família dela como amiga e colega de escola. Uma vez ultrapassada essa etapa, e já no interior do espaço íntimo, as linhas que separam o masculino e o feminino começam a baralhar-se... Filme egípcio, esta mirada breve sobre os papéis impostos pela sociedade tem um efeito de repercussão.

BYSTANDER, de Rachel Aoun (dia 9, 19.30)
Também na competição de curtas-metragens, a produção libanesa Bystander funciona como um espelho social: qual a atitude instintiva diante de uma cena de violência no meio da rua? Pegar no telemóvel e filmar, ou simplesmente "não interferir". É com esta postura passiva que um treinador de basquete vai ter de lidar na sua consciência. Ele torna-se objeto de estudo de uma câmara cirúrgica que persegue a sua psicologia em estado de deterioração, perante os alunos que o veneram - são as mazelas secretas de um "bystander" (espectador casual).

LULLABY, de Alauda Ruiz de Azúa (dia 12, 19.30)
Por fim, a encerrar o Olhares do Mediterrâneo - que prossegue até dia 16 com a mostra turca na Cinemateca e outras propostas -, Lullaby oferece uma nota acentuada de calor humano. Esta primeira longa-metragem de Alauda Ruiz de Azúa, distinguida nos Prémios Goya, acompanha uma jovem mulher no momento da maternidade e o seu desgaste emocional, entre trabalho, noites mal dormidas e biberões, que a leva a procurar refúgio na casa dos pais. Isto sem imaginar as voltas repentinas que a vida pode dar... Com um elenco impecável, onde se destaca a protagonista Laia Costa, Cinco Lobitos (como se chama no original) é mais uma prova de que o cinema feminino espanhol está a ganhar força, dentro do princípio da sensibilidade absoluta.

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