"Senhoras e senhores, connosco a amiga da sorte. A nossa estrela da tarde: Olga Cardoso!" Uma voz masculina pujante anuncia a entrada de Olga Cardoso em estúdio. Mulher de cabelos loiros e gargalhada fácil, a apresentadora enfrenta a ocular da câmara de televisão da TVI e deseja aos seus espectadores "um bom ano de 1994". Conduzia, naquela tarde de 30 de Dezembro de 1993, mais uma emissão diária do concurso A Amiga Olga.."Já passaram 19 anos desde que estreei o programa na TVI mas, quando ando na rua, as pessoas ainda me perguntam: 'Onde está a chave?'", conta orgulhosa a ex-apresentadora da TVI que se estreou em televisão aos 59 anos. No concurso A Amiga Olga desafiava os participantes a superar várias provas para ganharem prémios e dinheiro. O formato também ficou conhecido devido à sua célebre expressão "o rapaz do gongo dourado" (no programa, Olga tinha um assistente que tocava gongo).."Ainda tenho muita garra para fazer televisão".A viver na cidade do Porto, a sua terra natal, Olga Cardoso encontra-se há seis anos fora do ativo. Depois de uma carreira de 40 anos na Rádio Renascença (ingressou na estação em 1964), a antiga locutora de rádio e ex-apresentadora é ainda uma apaixonada por televisão..Em criança sonhou ser "menina da rádio". Cumpriu o desejo e, na década de 80 e 90, tornou-se, ao lado de António Sala, uma das locutoras mais populares do País. Porém, nem o legado na rádio a demove de eleger a "caixinha mágica" como o seu "grande amor". "Eu adorava, adorava fazer televisão! Tudo aquilo era um espetáculo para mim", solta para, logo de imediato, assumir "gostei mais de fazer televisão do que rádio"..Guarda dentro de si um velho desejo por cumprir: voltar a embarcar numa nova "viagem" até aos estúdios de um canal de televisão. "O meu maior sonho de vida é voltar à televisão. Tenho 78 anos, mas a idade ainda é boa!", solta garantindo "ainda tenho muita garra para voltar a fazer televisão (risos).".Bem-disposta e comunicativa por natureza admite que, caso o seu sonho se cumpra, queria contar com um "ingrediente" televisivo" para si fundamental "gostava muito de poder contar com público à minha volta como tem o Manuel Luís Goucha no Você na TV [TVI] e a Conceição Lino no Boa Tarde [SIC]. Gosto muito de ter as pessoas por perto", sublinha..A situação de crise económica do País e as dificuldades de milhares de portugueses, segundo defende, justificariam a aposta num programa em que voltasse a oferecer prémios.."Presentemente, temos muitas pessoas carenciadas e a precisar de ajuda... Eu gostava de voltar a fazer um programa semelhante em que pudesse dar mais prémios. Quando apresentava o A Amiga Olga o que me fazia feliz era dar os bons prémios às pessoas!", afirma..As câmaras de televisão não seriam um problema apesar de nunca mais ter apresentado um formato em televisão. Encarou-as, assegura, desde o seu primeiro dia na TVI, com total segurança e naturalidade. "Eu sentia-me totalmente à vontade a olhar para as câmaras. Na TVI fiz, antes de ir para lá, um aviso. Os operadores de câmara é que teriam de andar atrás de mim. Nunca me preocupei em andar atrás das câmaras", lembra a ex-apresentadora da estação de Queluz de Baixo.."Recebi um telefonema da RTP, tinham um programa para mim".O sonho de voltar à televisão após apresentar A Amiga Olga poder-se-ia ter concretizado. Tudo aconteceu há oito anos. Olga Cardoso foi, segundo revela à NTV, contactada pela RTP. "Recebi um telefonema de um responsável da direção de programas da RTP, aqui do Porto. Ele ligou-me e disse: 'Tenho um programa para si'", conta a ex-apresentadora..Por se encontrar, na altura, "há pouco tempo" a trabalhar numa empresa em Coimbra, onde desempenhava funções na área da publicidade e relações públicas, Olga Cardoso recusou o convite. "Disse a esse senhor, que até me recordo que era arquiteto, que gostava muito de voltar à televisão mas que não poderia fazê-lo porque tinha assumido, há pouco tempo, um outro compromisso laboral", conta..Acredita que terá sido contactada para assumir a apresentação do programa diário de entretenimento Portugal no Coração, exibido na RTP1, em 2003, e apresentado por José Carlos Malato e Merche Romero.."Contactaram-me um mês antes e, logo depois, esse programa foi para o ar. E, por isso, acredito que o programa que tinham para mim era esse... faz todo o sentido. Não cheguei a conhecer a pessoa que me contactou nem eu voltei a contactar a RTP", explica a antiga comunicadora. "Se pudesse voltar atrás... Tive muita pena de não ter aceitado o convite que me fizeram", solta em jeito de desabafo.."Na Rádio Renascença não me trataram como eu merecia".Com uma carreira dedicada em especial à Rádio Renascença, Olga Cardoso destacou-se em vários programas, mas foi com Despertar que ganhou grande popularidade. Atualmente, a ex-locutora não ouve nenhuma rádio..A razão, como explica a própria, prende-se com a sua saída da Rádio Renascença. Esteve 40 anos ao serviço daquela emissora, mas retirou-se com um enorme sentimento de desgosto. "Saí de lá muito triste. Fui alvo de injustiça. Na Rádio Renascença não me trataram como eu merecia. Depois de tudo o que dei de mim e do que fiz não merecia...", desabafa sem querer falar sobre as razões que conduziram ao fim do seu trabalho na rádio..Apesar do sentimento de desilusão, Olga Cardoso não hesita em assumir que teria, ainda hoje, muito prazer em voltar a dar um novo contributo à rádio. "Eu era muito capaz de ainda estar a trabalhar na rádio. A minha voz é a mesma. A minha alegria também", afirma a ex-locutora cuja ligação à rádio começou em 1949, quando foi convidada a ingressar na ORSEC/Oficinas de Rádio, Som, Eletricidade e Cinema.."Gostava muito que uma das minhas netas seguisse a minha área profissional".Mãe de três filhos - Pedro, 44 anos, Paula, 46, Virgílio, 48 - e avó de quatro crianças - Inês, 20 anos, Marta, 9, Emma, 7, e Rita, 5 - Olga Cardoso é hoje uma mulher com um ritmo de vida mais tranquilo..Já muito distante dos dias em que teve uma vida profissional "agitada" ocupa, presentemente, os dias a passear pela cidade do Porto, a fazer ginástica em casa ou a descansar na sua residência.."Se há coisa que adoro fazer cá em casa é mudar os móveis! Passo a vida a mudar as coisas. Adoro fazer mudanças! Tive uma vida muito cheia e, agora, dá-me prazer estar mais só e sossegada", segreda quando questionada pela NTV como ocupa o seu tempo..Todos os dias faz jogging. Em média, completa dois quilómetros na passadeira de corrida que tem em casa. "Já fui duas vezes ao hospital e tive de ser submetida a choque elétrico. Tenho arritmias contínuas mas, graças à passadeira que o meu filho mais novo me ofereceu, estou muito melhor. Há dois anos que ando bem", conta..Faz também uma autovigia na hora das refeições. "Antes, gostava muito de comer feijoadas e cozido à portuguesa. Agora, como apenas grelhados e cozidos", conta. Olga Cardoso é viúva. Perdeu, há oito anos, a companhia do marido..A alegria da sua vida, mais do que nunca, são os filhos e os netos, com quem partilha momentos de especial alegria e afeto. "Os meus filhos costumam cá vir jantar ou almoçar. Mas eu, devo aqui dizer, sou muito preguiçosa na cozinha. Divorciei-me dos tachos (risos)." É na neta Inês que deposita as maiores esperanças de ver, um dia, um dos descendentes seguir o seu legado em rádio ou televisão: "A minha neta Inês está a cursar nutricionismo mas já me disse que, quando terminar este, vai inscrever-se num curso de jornalismo. Eu apoio-a. Gostava muito de que uma das minhas netas seguisse a minha área profissional.".É por "culpa" da sua herança familiar que, desde miúda, irradia alegria junto de todos os que a rodeiam. Na rádio, na televisão e na vida. "Não sei de quem herdei esta boa disposição... Talvez a tenha porque, para mim, sempre foi uma grande tristeza ser filha única e não ter tido irmãos."