O ministro Vieira da Silva veio afirmar a necessidade de discutir a questão da dívida, sem esperar pelo calendário eleitoral europeu (leia-se: eleições gerais alemãs de setembro de 2017). O que está aqui em causa não é a aparente oposição do ministro com a paciência demonstrada pelo primeiro-ministro em entrevista recente à RTP. O fundamental será perceber que a questão da dívida portuguesa constitui, mais do que um problema de tempo, um problema de modo. Se Portugal colocar o tema da sua dívida na agenda europeia numa perspetiva de estrito interesse nacional, isso será um duplo erro. De tática, mas também de substância. Perder-se-á a oportunidade de explicar que a dívida excessiva é um problema que aflige e agrava a crise existencial da União Europeia no seu conjunto. Que esse problema não é deste ou daquele país, mas o resultado do pecado original de construir uma união monetária que, sem uma verdadeira união de transferência, se transformou na principal ameaça à integração europeia. Pior ainda, a dívida foi exacerbada pela resposta errada do tratado orçamental, que, além de tecnicamente absurda, tem sido a causa de um imenso e erosivo descontentamento social. Se vamos falar sobre a dívida, com a Alemanha e outros países excedentários, importará recordar que ela ameaça o mercado interno, coloca em risco todas as políticas comuns, pode matar no ovo uma política europeia de segurança, incluindo a componente militar e o acolhimento de refugiados, e isto numa altura em que os EUA se tornaram um fator de instabilidade planetária. No atual estado precário da integração europeia, só a capacidade de multiplicar o mal está plenamente instalada. O modo correto para falar da dívida deve ser inseparável das reformas que permitirão à Europa alimentar o músculo político para amplificar o bem geral.