O sucesso não se mede aos palmos... mas ajuda

<em>The Voice Kids</em> está quase a chegar à RTP1. É apenas a mais recente aposta das generalistas em concursos com crianças. A tendência não é nova mas continua a conquistar público. Responsáveis explicam porquê.
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Ainda não atingiram a maioridade ou tiraram a carta de condução. Não podem trabalhar, nem sair à noite e beber uns copos ou até mesmo casar. Já para não falar no direito ao voto. A lista é longa. Mas podem ser, e são, protagonistas XS de formatos de sucesso XL. Com um The Voice Kids prestes a ser gravado este verão pela Shine Iberia Portugal, que deverá arrancar na rentrée televisiva da RTP1, e com A Tua Cara Não Me É Estranha: Kids e Chefs" Academy Kids exibidos até há pouco tempo, afinal, o que é que estes miúdos têm de tão especial?

"Em termos televisivos, o que posso dizer é que têm menos filtros... Nós, adultos, temos muitos filtros, somos politicamente mais corretos e este lado puro é uma coisa que fascina os adultos e que provoca uma emoção positiva", explica à Notícias TV Piet-Hein Bakker. O ex-diretor da Endemol Portugal, que há precisamente 20 anos estava a lançar um dos primórdios neste género, Mini-Chuva de Estrelas (que se revelou um êxito na SIC, apresentado por Margarida Reis), lembra ainda: "Para além disso, toda a filosofia de um programa com crianças é diferente. É menos competitivo, tem aquele lado de "todos ganhamos", que é muito sublinhado e é a experiência que conta, não o resultado final."

Rui Ávila, diretor da Shine Iberia Portugal, que produziu em fevereiro último Chefs"' Academy Kids e que tem na calha a produção da versão júnior de The Voice, acrescenta: "Os miúdos têm a generosidade e a espontaneidade de quem vê o mundo de uma forma simples e quase cruel. Desmistificam, simplificam e fazem-nos pensar com a subtileza com que abordam as questões. Estes programas têm narrativas diferentes e uma emotividade grande devido à espontaneidade das crianças e ao facto de verem o mundo com menos "filtros" do que os adultos", diz o responsável.

A familiaridade que está associada a este género de talent shows é outro dos ingredientes que os faz ser ímanes de audiência. "São formatos familiares e são programas "quentinhos" como dizia a Júlia Pinheiro. Gosto muito dessa expressão! [risos] São cheios de afetos, interessam aos pais, aos avós, aos irmãos, são abrangentes e quase um sucesso garantido", frisa Manuel Luís Goucha, que não só conduziu quatro edições de Uma Canção para Ti como o recente A Tua Cara não Me É Estranha: Kids, que terminou o seu caminho sempre a liderar e com uma média de 1,359 milhões de espectadores (mais 245 mil pessoas do que as que têm visto o seu sucessor aos domingos à noite na TVI, Rising Star).

Mas o rei da manhãs de Queluz de Baixo ressalva: "Agora é preciso que as crianças tenham talento, porque o programa pode ter jurados conhecidos, mas os concorrentes são sempre a matéria-prima. Se os candidatos não forem bons, não há fórmula", conta o parceiro de Cristina Ferreira no Você na TV.

Lurdes Guerreiro, diretora-geral da Endemol Portugal, frisa que "existe aquele efeito de surpresa quando vemos alguém com apenas 14 anos a cantar otimamente". "O que acontece com os adultos é que estes são formados na área, têm uma carreira e experiências consolidadas. E estas crianças não, têm ali o talento em bruto, não tiveram aulas de canto, não estiveram numa academia. Penso que o que é tão apelativo neste tipo de programas é esse talento natural", sustenta.

Tendência nova ou reciclada?

Apesar de ser uma aposta mais notória nos últimos tempos, a verdade é que sempre existiram talent shows com crianças. Recorde-se Mini-Chuva de Estrelas, Bravo Bravíssimo e Os Principais. Ou lá fora, ao contrário do que se possa pensar, JuniorMasterChef, que agora é conhecido por MasterChefJunior e que se estreou há 20 anos no Reino Unido.

"Os programas com crianças como protagonistas não são uma tendência nova. Há muito tempo que as produtoras e os canais apostam em programas com este perfil", frisa Rui Ávila, da produtora Shine. Opinião corroborada por Piet-Hein. "Isto não é novo. Cá, já foram feitos muitos programas com crianças. A TVI fez vários, a SIC e a RTP também. Há já um histórico em Portugal e temos uma tendência natural para que formatos do género MasterChef e The Voice tenham versões júnior ou kids. Mas é uma coisa que não é nova", diz.

Mas será que estes formatos têm de ser, obrigatoriamente, "testados" previamente com adultos? Lurdes Guerreiro, diretora-geral da Endemol Portugal, recusa essa premissa. "Só posso falar por A Tua Cara não Me É Estranha. O que aconteceu foi uma evolução natural. Já tínhamos feito uma versão normal, depois os duetos, depois introduzimos uma supercompetição com os melhores. E houve essa necessidade de introduzir um elemento novo ao programa. A Tua Cara... já era um êxito. As primeiras séries foram estrondosas, por isso achámos é que precisávamos de um elemento novo. E não acho que tenhamos perdido o conceito inicial do programa, porque continuámos com os adultos", revela a responsável.

Manuel Luís Goucha concorda. "A Tua Cara não Me É Estranha: Kids é novo. Não existia em lado nenhum. Mas falando do MasterChef Junior e do The Voice Kids, aí, sim. Mas acho que não se pode pôr as coisas nessa perspetiva. O que aconteceu foi que alguém teve essa ideia de os adaptar porque já eram uma fórmula de sucesso."

Hugo Andrade, diretor de Programas da RTP, argumenta que existe uma diferença entre os formatos com crianças criados de raiz e as adaptações juniores. "Normalmente, as versões Kids até têm menos público do que as seniores. No caso específico do The Voice [que vai ter uma versão júnior], aquilo que sabemos é que tem tido bons resultados noutros países e uma aceitação muito grande, como modelo de programa", adianta.

E se todos os responsáveis concordam que os programas XS não são uma moda nova na indústria televisiva, também lembram que os mesmos não são dirigidos apenas aos mais novos, atraindo vários tipos de público, uma das suas grandes mais-valias. "O The Voice Kids é um programa feito com crianças, mas que é também para adultos. Não é, de forma alguma, um programa exclusivo para crianças", atira Hugo Andrade, enquanto Rui Ávila reforça: "Normalmente, as versões juniores têm o mesmo target (público-alvo, em tradução) das edições originais, apenas os protagonistas são mais novos."

"Programas com crianças costumam ser efetivamente mais caros"

Pôr uma criança a cantar ou a cozinhar em frente às câmaras pode parecer um processo simples quando visto no sofá de casa. Contudo, os responsáveis concordam que fazer este tipo de programas exige cuidados especiais.

"Gravar com adultos é sempre mais ágil... As questões legais são mais simples e para um formato novo é mais fácil não ter a carga de produção acrescida devido às condicionantes inerentes. Quando se investe num novo formato, há que testar muito, gravar, regravar e, numa primeira versão, muitas vezes o resultado final chega após muitos meses de trabalho. Testar com crianças faz disparar os custos inviabilizando, muitas vezes, os próprios formatos", frisa Rui Ávila, o responsável pela Shine Iberia Portugal.

Piet-Hein Bakker sabe bem do que Ávila fala. "Não se podem fazer dias muito longos de gravações e existe todo um apoio ao nível de estrutura, de cuidados com as crianças. Efetivamente costumam ser mais caros, mas depende muito do formato em si", esclarece. O homem que trouxe para Portugal Big Brother frisa, ainda, que muito mudou nos últimos 20 anos. "Agora há regras muito mais restritas e acho que é francamente positivo porque tem de haver limitações relativas às gravações. E um produtor tem de ter mais cuidado. Faz sentido e torna isto diferente do que era há 20 anos. Também havia regras, mas deixavam muita coisa em aberto e tudo dependia do bom senso do produtor ou do canal para não sobrecarregar as crianças", acusa.

Para Hugo Andrade, os talentshows com os mais novos têm de ser escolhidos a dedo. "Porque também não nos agrada nada a ideia de colocar crianças a fingir que são adultos, a fazer figuras menos indicadas. Há sempre um cuidado muito grande e só fazemos mesmo quando achamos que são coisas completamente inofensivas", conta o diretor de Programas da estação pública.

O acompanhamento necessário nestes casos não pode ser só feito através de horários de gravações. Há que haver um apoio emocional, principalmente quando se fala de talent shows que são, acima de tudo, competições. "Tem de haver um grande acompanhamento psicológico para não "deformar" a formação e o crescimento dessas crianças. Há que fazer perceber que estão a viver um momento da vida e não a vida toda", começa por salvaguardar Rui Ávila.

"Acima de tudo, há que ter o cuidado de não se deslumbrarem com este mundo... É muito fácil para qualquer pessoa apaixonar--se pela visibilidade imediata que têm, o serem reconhecidos nos grupos de amigos e colegas de escola", acrescenta o produtor.

Êxito além-fronteiras

A Tua Cara não Me É Estranha: Kids, testado pela primeira vez em Portugal, fez furor na edição deste ano do MIPCOM, a mais importante feira de conteúdos de televisão, que decorre anualmente em Cannes (França). O formato chegou a ser considerado pela revista The Hollywood Reporter "um dos mais bombásticos" da edição de 2014.

Mas a tendência tem sido a contrária. The Voice Kids, por exemplo, que vem para a RTP1, já é um fenómeno em Espanha, com a primeira edição, estreada em fevereiro deste ano, a passar os cinco milhões de espectadores na Telecinco, o que levou à confirmação de uma segunda série para 2015.

Mas não só. Também na vizinha Espanha, a adaptação de MasterChefJunior foi um êxito. A primeira temporada, emitida em dezembro do ano passado, chegou aos quatro milhões e meio de seguidores, o que levou a estação pública a arrancar de seguida com uma segunda edição. O formato de culinária com miúdos, de resto, é um formato já adaptado, nos últimos tempos, para 13 países, entre os quais Inglaterra e EUA. A edição australiana, de resto uma das mais populares, é exibida na SIC Mulher. Em Portugal, esta versão júnior de MasterChef chegou a ser pensada para a TVI, mas Rui Ávila não confirma. Ainda assim, Goucha atira: "A ser feita, serei eu e os meus colegas a manter as funções do original."

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