Um país que desenvolveu competências devido a necessidades imperiosas, faz bem em explorar ao máximo os conhecimentos e o know-how que adquiriu ou elaborou. Para tal, importam pessoas com visão, para descobrir países e economias que podem utilizar tais destrezas, para satisfazer as suas carências..Claramente, os produtos farmacêuticos encontram-se entre os que qualquer sociedade quer ter acesso, a bons preços. Aquela visão deve estar assente num realismo e na capacidade financeira própria ou gerada por instituições especializadas, salvaguardando a autonomia das suas decisões..Todos precisam de fármacos para curar doenças agudas ou crónicas. Os países ricos sabem dar valor ao seu dinheiro e, com uma qualidade assegurada, vão para produtos mais económicos, deixando de lado o snobismo da marca. E os países pobres sabem a importância curativa dos remédios, querendo tê-los a preços acessíveis..A Índia está numa posição ótima para fornecer a uns e a outros, ricos e pobres, com plena satisfação. As economias de escala são claras neste domínio e quanto maiores os lotes de produção, melhores os preços unitários. Em consequência, acabam por ficar poucos fabricantes por cada produto, mas com grandes volumes. Refiro-me, claro, aos produtos genéricos, com pouca incorporação de I&D para ajustamento à população local..É certo que vão aparecendo produtos feitos à medida do paciente, mais caros, mas podendo ser mais eficazes, nomeadamente para cura de variados tipos de cancro..É bom usar toda a experiência para produzir melhor, para chegar aos países necessitados com propostas interessantes, tendo em atenção que está em jogo a melhoria da saúde dos seus concidadãos. Parece haver campo para se ser proativo, indo e visitando os Governantes dos países pobres, para lhes explicar como podem reduzir as despesas com a saúde, beneficiando muitos mais cidadãos..Num país europeu, bastante snob, consumindo produtos de marcas conhecidas, quando as autoridades impuseram que na farmácia se indicasse os correspondentes genéricos com os preços, a passagem da marca para o genérico foi rapidíssima. É que ninguém resiste à informação do preço. E a comparação faz pensar e decidir com "mais" sabedoria!.Não basta ser o melhor fabricante e ter os melhores preços. Quem sabe disso no país de destino da exportação? Importa pensar no modo de ultrapassar os bloqueios criados pelos interesses instalados, para ir favorecer o cliente final, que assim pode comprar muito melhor..Nos países pobres, nem sempre se compra ao melhor preço o produto de qualidade; os intermediários e os interesses corruptores ativos e passivos estão aí. Uma boa publicidade nas televisões de prestígio, por buscarem a verdade, feita pelo setor farmacêutico no país alvo, pode despertar interesse e criar apetência para o produto bom e mais acessível..Em muitas situações conhecidas, o modo correto e inflexível de atuar de um dirigente acaba por trazer grande alívio à sociedade, evidenciando que não pactuar com a corrupção é o modo de a ir eliminando e acelerar o progresso da sociedade. Dois exemplos que me ocorrem dessa inflexibilidade:.O Eng Sreedharan, Ex-Presidente do Metro de Delhi, pôs como exigência, para aceitar o cargo, ter o controlo total das ajudicações de cada uma das obras e das expropriações. Assim foi e isso levou-o a acabar a primeira e a segunda fases do Metro 2,5 anos antes do prazo previsto e dentro dos custos orçamentados. Os interesses, por vezes situados no alto nível, ficaram bloqueados. Isso animou todas as grandes cidades da Índia a terem o "seu" metro, ao ser essa a melhor via da mobilidade. Instalou-se uma nova mentalidade de "nós podemos fazer", pela mão de Sreedharan, em importantes obras públicas e de infraestrutura..Noutras situações, são os interesses de grupos poderosos que ditam altos preços de venda, como nos fármacos. Ficou famosa a ação de Yusuf Hamied, Presidente do Laboratório CIPLA, de Mumbai, que em 2001, convocou uma Conferência de Imprensa em Londres, para anunciar que o seu produto para a SIDA (HIV) iria ser vendido ao preço de $1/dia, ou de $365/ano..Se o produto não valesse nada, ninguém se importaria e muito menos os grandes laboratórios. Mas a Índia já tinha conseguido uma boa capacidade de fazer cópias de produtos, dada a pobreza extrema em que o colonialismo a deixara. Dada a elevada quantidade a produzir para a população indiana, os custos unitários acabavam por ser ínfimos, mesmo pagando royalties..Na verdade, logo após a Conferência de imprensa apareceram reações ferozes de protesto, porque a CIPLA não fazia I&D e estava a "estragar" o mercado. Coisa curiosa: 5 ou 6 laboratórios multinacionais vendiam o seu produto, ou melhor, um conjunto de três produtos, talvez para justificar o preço, pela módica quantia de $10.000/ano. E a CIPLA punha os três num só medicamento, facilitando o uso e vendendo por $365/ano!.Imagino que para Hamied era importante e talvez um tema ético não matar a esperança de sobrevida dos afetados. Foi para frente com o que anunciara..Nessa altura, apenas 200.000 pacientes podiam tomar o produto de "super-luxo". Em contrapartida, hoje que o preço de venda dos genéricos foi caindo, já 6 milhões têm possibilidade de adquiri-lo, por meios próprios ou com ajudas de Fundações..Este foi um momento histórico para os produtos genéricos indianos ganharem notoriedade, vindo daí para a frente a afirmarem-se mais e mais..A USFDA- Food and Drug Administration dos EUA tem feito um trabalho muito meritório, certificando laboratórios e produtos indianos (e não só), que por via da certificação podem circular livremente pelos EUA e também pelos outros países europeus, asiáticos e africanos..É muito importante que todos os laboratórios Indianos sigam à risca todos os procedimentos estipulados de produção, para que o público consumidor possa ter toda a confiança neles. Muitos produtos com a patente próxima de caducar são alvo dos laboratórios indianos de preparação para o lançamento em grandes quantidades..Hoje, com o Covid e a procura de vacinas, a Índia tem estado na "boca do mundo", dada a grande capacidade instalada para as vacinações correntes, para a sua vasta população e para exportar para todos os países necessitados delas.