O revolucionário que abraçou o capitalismo

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Certo dia, Artur Manuel de Oliveira Rodrigues Albarran, agora com 52 anos, disse que tencionava reformar-se e escrever livros. Garantiu que nunca equacionou uma autobiografia, mas este talvez fosse o género que mais curiosidade suscitasse nos leitores e ao qual Artur poderia imprimir um conteúdo singular. Bastava, para isso, ir ao pormenor de uma vida recheada de episódios controversos, que alimentaram paixões, ódios, desavenças e romances. Já foi alvo de várias notícias de "morte social", mas o tempo provou que todas elas foram, de alguma forma, exageradas.

O episódio de anteontem acaba por ser mais uma etapa na "dimensão dialéctica da vida" de Albarran, como disse em 2000, recheada de episódios controversos. Ainda antes de dar a cara (os dentes) por uma campanha publicitária da Pepsodent, já Albarran fazia campanha pelo fervor revolucionário do 25 de Abril. O assalto, em 1975, à Embaixada de Espanha é o primeiro episódio.

Na qualidade de jornalista, Albarran relata os acontecimentos a determinada altura "A embaixada está a arder e bem." Mais tarde, clarificaria à Visão (1997) "Queria dizer que estava a arder muito." Adere depois ao Partido Revolucionário do Proletariado de Carlos Antunes e Isabel do Carmo, ficando responsável pelo departamento de propaganda e informação. Nesta altura, termina a relação de amizade entre Albarran e o jornalista José Manuel Barata Feyo, com quem trabalhou durante meses numa grande reportagem sobre o caso de Camarate, o "acidente" de avião que vitimou Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa. Acabaram os dois a trocar cumprimentos ácidos nas páginas dos jornais. A relação com Maria Elisa passou pela realização de um documentário sobre a Europa.

Os anos de 1985 a 1987 representam o encantamento de Albarran pelo capitalismo. Primeiro, faz uma aproximação ideológica, apoiando Freitas do Amaral para Belém. Depois cede aos encantos dos cifrões em 1986, recebe, se-gundo as crónicas da época, o mais elevado cachet, 20 mil contos (100 mil euros) para sorrir em nome da Pepsodent. Neste ano, surpreende o meio social, casando com Isabella Jimenez, filha do embaixador venezuelano em Portugal.

Emprateleirado na RTP (que é como quem diz, afastado do centro de decisão e do protagonismo), Albarran lança-se para o jornal O Século, em 1988. E começa a viver os primeiros dramas de um director de jornal as vendas não descolam, os investidores (entre os quais Ricardo Espírito Santo) estão insatisfeitos. É então que Artur Albarran tem uma ideia: oferecer o jornal, juntamente com os dois suplementos Vida Mundial e o Século Ilustrado. Com os transportes públicos pouco dinamizados, a iniciativa revelou-se um fracasso do ponto de vista comercial.

Já na RTP, ainda sem nada de relevante para fazer, a primeira Guerra do Golfo surge como a rampa de lançamento de Albarran. Carlos Vargas, amigo de longa data, contou que Albarran "ofereceu-se" a José Eduardo Moniz para fazer a cobertura. É então que nasce a imagem do repórter de guerra, "algures no deserto" ou "algures na Arábia Saudita", a debitar sobre o que de mais importante se ia passando na operação "Tempestade do Deserto". Fosse por incredulidade no que dizia, ou apenas por pura inveja, a incursão

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