A estratégia da Disney em adaptar clássicos de animação em imagem real é apenas mais um dos mil e um estratagemas de Hollywood em fazer render o peixe. O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos, realizado pelo sueco Lasse Hallstrom e pelo americano Joe Johnston, baseia-se no bailado de Tchaikovsky e no conto de E.T.A. Hoffman, e quase parece uma ideia original num panorama onde ninguém aposta em argumentos com histórias ou imaginários originais..Para além da lógica economicista de esticar o acervo, salienta-se um denominador comum entre toda a concorrência: a cedência ao mais fácil. Em vez de se investir em material novo, a ordem é reciclar. Sente-se que a preguiça criativa é o modelo vigente..Mas a grande aposta do estúdio do Rato Mickey é mesmo transformar filmes de animação em blockbusters de imagem real. Apesar do número ser arriscado - trabalhar a base de um filme de animação para um guião de cinema de carne e osso - o dinheiro que Cinderela, Maléfica (que nos trazia o imaginário de A Branca de Neve e os Sete Anões), O Livro da Selva (a sequela, entretanto, está em pré-produção) e A Bela e o Monstro fizeram não deixa margem para dúvidas: o panorama apresenta-se muito risonho para a Disney nesse capítulo. O mercado está a esperar fervorosamente para ver o que Dumbo, de Tim Burton é capaz. Este trailer foi um pequeno grande acontecimento há uns tempos atrás e faz água na boca de qualquer frequentador de salas de cinema..A história do elefante de circo gozado pelas suas orelhas grandes estreia-se em março e tem Danny DeVito, Eva Green e Michael Keaton como protagonistas, todos habitués do cineasta de Alice no País das Maravilhas. O que nos assusta é que é escrito pelo homem que nos deu as sequelas de Transformers, Ehren Kruger..Também para o ano, chega Rei Leão, que poderá ser inspirado mais no musical com o mesmo nome. Diz-se que não é bem uma nova versão, mas sim uma "reimaginação". A estrela de serviço é Donald Glover e o realizador é Jon Favreau, de O Livro da Selva..Mais cinemático parece ser Aladim, que terá Will Smith como o génio da lâmpada. Claro que vamos ter saudades do malogrado Robin Williams, que era brilhante na voz da animação. Guy Ritchie, fresco do desastre Rei Artur, é o realizador de serviço. Chega em maio..Mais distante está Mulan, mas que ainda terá data de estreia em 2019. Este filme sobre troca de identidade é protagonizado pela atriz chinesa Liu Ifey..Na calha estão ainda versões não animadas de A Pequena Sereia, A Dama e o Vagabundo (que será um híbrido entre imagem real e animação 3D), O Príncipe Encantado, Cruella (que será mais um spin-of do que versão de 101 Dálmatas), Peter Pan, Sininho, A Espada era a Lei, Pinóquio e Rose Red (também do imaginário de Branca de Neve e os Sete Anões).À parte dessa tendência, a Disney neste natal carrega em força no material reciclado. Não custa perceber que nesta próxima temporada opta por jogar seguro (as más línguas vão preferir dizer jogar rasteiro) com as sequelas de Mary Poppins, agora protagonizado por Emily Blunt e Força Ralph- Ralph vs Internet, que coloca os heróis Vanellope e Ralph a circular pelo wi-fi de uma arcada de videojogos..A animação de Rich Moore e Phil Johnston promete fazer ainda mais receita que o original, onde se contava a história de amizade de dois jogadores de jogos de consola. Agora, vão para a internet e contracenam com outras personagens da Disney e avaliam os seus sonhos em face dos "deslumbramentos" da oferta da net. Estreia-se já dia 29 de novembro e estamos todos a rezar que tenha versão original para os mais crescidos..Mas o grande filme de natal é O Regresso de Mary Poppins, arriscada sequela do original de 1964. Rob Marshall, especialista de musicais como Chicago ou Caminhos da Floresta, foi chamado para trazer de volta o charme da "nanny" mais britânica de sempre. Um musical que tentará chamar um público contemporâneo mas também convocar adultos saudosistas do clássico com Julie Andrews, aqui substituída por Emily Blunt. O filme tem também secundários de luxo como Meryl Streep, Colin Firth e Emily Mortimer. Os puristas vão estremecer a partir de 20 de dezembro..Para lá do império Disney, as sequelas e os reboots vão continuar a ser a almofada de conforto dos estúdios para o próximo tempo. Em produção está já a nova versão de Charlie's Angels, com Kristen Stewart à frente de um elenco muito #metoo e O Filme Lego 2, animação com bonecos da Lego com a fórmula da Warner. Mas há mais: Glass, de M. Night Shyamalan, retoma Fragmentado; X-Men: Fénix Negra, é o novo X-Men, mas já sem Wolverine; Spider-Man: Far From Home, será mais um Homem-Aranha para Tom Holland e Kingsman 3, de Matthew Vaughn, volta a ter Taron Edgerton como protagonista..No meio disto tudo, vamos ter derivados, como o spin-of de Velocidade Furiosa, Hobbs and Shaw, que apenas tem as personagens de Dwayne Johnson e de Jason Statham..Contam-me pois pelos dedos os blockbusters que partem de ideias verdadeiramente livres e originais...