O que pensa Shai?
No verão de 2019, entrevistei o israelita Shai Hermesh, de passagem por Lisboa. Era, na época, dirigente do Congresso Judaico Mundial, ex-deputado, e antigo paraquedista. Nascido em Israel ainda antes da proclamação de independência em 1948, as raízes familiares estão na Ucrânia e da Letónia, de onde os pais partiram na década de 1930. Vivia há mais de meio século no kibutz Kfar Aza, vizinho da Faixa de Gaza. Lá criou os filhos.
Transcrevo aqui uma parte da conversa com Shai Hermesh, a resposta à minha pergunta sobre que tipo de contacto os kibbutzniks mantinham com os palestinianos de Gaza - se havia uma separação total, cada um vendo o outro como o inimigo: "Posso contar a minha experiência pessoal. Depois dos Acordos de Oslo, assinados em 1993, por Yitzhak Rabin e Shimon Peres com Yasser Arafat, desenvolvemos ligações com as pessoas de Gaza. Milhares de palestinianos começaram a trabalhar em Israel. Todos os dias cruzavam a fronteira e uns iam trabalhar até para Telavive, outros nas nossas quintas. Mas depois, em setembro de 2000, Arafat declarou a Segunda Intifada e começaram a lançar ataques contra os kibutz. Acabaram sete anos de paz, mas nesses sete anos fui amigo de famílias em Gaza. A fronteira estava aberta. Convidei muitos palestinianos a passarem o sábado na piscina do kibutz. Íamos à noite comer a restaurantes de peixe no litoral de Gaza. Nesses tempos aquela ideia de termos de ser inimigos para sempre não fazia sentido. E continuo a manter contacto. Houve palestinianos de Deir al-Bala que trabalharam para mim e continuamos a felicitar-nos sempre que nasce uma criança. Depois do bloqueio, claro, ninguém pode vir trabalhar, mas já recebi telefonemas de um antigo empregado a dizer que um vizinho começara a receber a pensão israelita e se eu podia ver se a dele estava em condições. Fui à Segurança Social e falei das contribuições que tínhamos feito. E, imagine, segundo a lei israelita, qualquer um que trabalhe em Israel, não interessa se é israelita ou palestiniano, tem direito à sua pensão se descontou. Não se trata de amigos ou inimigos. E, sim, consegui uns milhares de shekels, que hoje em Gaza é muito dinheiro, e fui até ao posto de fronteira e entreguei a um comerciante que lhe entregou aquilo a que tinha direito".
O Haaretz, o mais prestigiado dos jornais israelitas, publicou há dias uma lista dos mortos israelitas a 7 de outubro (mais de 1400), quando o Hamas entrou em Israel e espalhou uma vaga de terror, matando e também sequestrando (mais de 200 reféns levados para Gaza, quatro entretanto libertados), um dos nomes que constava era Omer Hermesh, o filho de Shai. Soube entretanto que Shai Hermesh, a mulher, a filha e a neta estiveram horas e horas cercados por atacantes palestinianos. Finalmente, foram resgatados pelos militares israelitas e levados de um kibutz do qual nada resta, segunda todas as descrições de repórteres que o visitaram nas duas últimas semanas. De início, ninguém sabia onde estava Omer. Seria um dos reféns? Dias depois o corpo foi identificado.
Shai Hermesh foi amigo de Peres, um dos pais fundadores de Israel, mais tarde primeiro-ministro e presidente, um dos premiados, juntamente com Rabin e Arafat, com o Nobel da Paz, pelos Acordos de 1993, um sinal de esperança para se alcançar finalmente a paz entre israelitas e palestinianos, apesar das muitas feridas da história comum. Também foi amigo de Ariel Sharon, o general visto como falcão, mas que já veterano, já primeiro-ministro, percebeu que o caminho tinha de ser o da negociação e ousou evacuar Gaza (ocupada desde 1967, como a Cisjordânia), dando ordem ao Exército Israelita para retirar os colonos judeus recalcitrantes.
Admirador dos dois políticos já falecidos, Shai Hermesh disse-me manter a esperança de um entendimento com os árabes, mesmo que muitas vezes tivesse de se esconder no bunker por causa dos rockets do Hamas ou correr a apagar um fogo por causa dos balões incendiários vindos do outro lado do muro que separava Gaza das terras do kibutz. Relembro aqui mais algumas das suas palavras: "Sou um grande crente na paz. E digo ao nosso Governo que devia encorajar mais Mahmud Abbas, o presidente da Autoridade Palestiniana. Porque ele é líder de um movimento político e, com um movimento político, é possível um compromisso. Com um movimento religioso não é. Israel fornece bens para atenuar o sofrimento da população de Gaza e o Hamas usa o cimento para fazer túneis para atacar Israel, para atacar os kibutz. O hélio é fornecido aos hospitais por Israel, mas eles usam esse hélio para nos atacar com os balões. Alguma vez ouviu falar de um país em guerra que fornece água ao inimigo, medicamentos ao inimigo? Eletricidade?".
Pergunto o que pensará agora Shai Hermesh, enquanto faz luto pelo filho. Que me diria hoje sobre Gaza, os palestinianos e a possibilidade de alcançar a paz? Como é que os ataques terroristas de 7 de outubro afetaram a sociedade israelita? Como é que, depois da prioridade de resgatar os reféns e desferir um golpe ao Hamas que o impeça de repetir uma operação à mesma escala, Israel atuará? O grupo palestiniano que controla Gaza e prega a destruição do Estado de Israel sabia bem o que fazia. Sabia que qualquer que fosse a reação de Israel, as críticas seriam imensas: internas, se não retaliasse, externas, como está a acontecer, quando as operações militares contra o Hamas acabam por pôr em risco a sobrevivência de milhares de palestinianos, fechados num território minúsculo.
Para se entender as reações emocionais extremas de Israel às críticas, mesmo àquelas que não esquecem os 1400 mortos de 7 de outubro quando apelam à proteção dos civis palestinianos, é preciso perceber o que viveu gente como a família de Shai Hermesh. Martin Wolf, jornalista do Financial Times, britânico de origem judaica, admirador de Israel, mas crítico do Governo de Benjamin Netanyahu, sublinhou-me em recente entrevista que o que se passou foi, à escala dos nove milhões de israelitas, pior do que o 11 de Setembro nos Estados Unidos. É isso que sentem os israelitas, mesmo que, nesta hora de unidade nacional, haja ainda assim vozes corajosas a pensar no futuro, como Yuval Noah Harari, autor de Sapiens, que no Haaretz publicou o artigo Os israelitas precisam de mais do que uma vaga procura de "destruir o Hamas", em que falou do destino do Estado Judaico e do destino dos palestinianos.
Diretor interino do Diário de Notícias

