Os músicos de Lisboa que inspiraram Madonna

Madonna já afirmou que os "músicos maravilhosos" que conheceu em Lisboa têm lugar no seu novo disco. Falámos com alguns dos protagonistas destes encontros.
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As luzes estavam apagadas e o concerto já começara. Duas amigas cutucam-se repetidamente, e uma delas sussurra: "Eu disse-te que ela vinha." Ela. Madonna descia as escadas do Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém. No palco, Ricardo Toscano no saxofone e João Paulo Esteves da Silva no piano.

O palpite não vinha ao acaso. Toscano, jovem prodígio do jazz, participara já mais do que uma vez nos serões em que Madonna, desde que vive em Lisboa, tem sido apresentada ao panorama musical da cidade. Num vídeo partilhado no Instagram pela própria, Toscano tocava Sodade, de Cesária Évora, com Dino D'Santiago a cantar, uma das suas companhias mais frequentes em Lisboa.

É, aliás, Dino D'Santiago quem se ouve (com a sua Pensa na Oji) no vídeo através do qual Madonna abre a porta aos bastidores da sessão fotográfica feita em Lisboa pela Vogue Italia, por ocasião dos 60 anos da artista, que os comemora no próximo dia 16. E é ao seu lado que ela se senta na fotografia feita pela revista no Tejo Bar, em Alfama, outro dos seus habituais pontos de escuta e de encontro. Não por acaso.

Na entrevista à Vogue , Madonna confirmou aquilo de que pairava já a suspeita: "Conheci tantos músicos maravilhosos e muitos acabaram por colaborar no meu novo álbum, por isso Lisboa influenciou a minha música e o meu trabalho. Como é que poderia ser de outra forma? É impossível para mim passar um ano sem ser influenciada por toda a cultura que me rodeia."

Um exemplo: foi naquele mesmo bar de Alfama, dirigido pelo músico Jon Luz, que Madonna conheceu o pianista brasileiro João Ventura. Ele tocou, ela gostou. Tão simples quanto isto e o suficiente para o convite que o levou a atuar com ela na gala do Metropolitan Museum of Art (MET), em Nova Iorque. Recentemente, voltaram a encontrar-se para João gravar uma composição de Madonna que deverá fazer parte do material para o disco que sucederá a Rebel Heart, e que será produzido por Mirwais, sua colaboração antiga.

Branko, Lura ou Ritchie Campbell são outros dos artistas com quem Madonna já teve contacto. "Acho que ela tem vontade de se conectar mesmo com os ritmos africanos, com a tradição portuguesa, com os músicos portugueses, africanos e brasileiros também", diz ao DN João Ventura.

Ainda sobre o novo disco, Madonna tornara já público no Instagram o seu encontro num estúdio de gravação com Dino D'Santiago e com o músico guineense Kimi Djabaté, que tem sido também uma das suas companhias mais frequentes, desde que a conheceu num desses serões musicais, numa casa em Alfama. Ela chegou, cumprimentou-o e perguntou-lhe o nome. Ele disse. E depois devolveu-lhe a pergunta. Madonna olhou-o, e acabou por responder à provocação, em jeito de brincadeira. Hoje a voz de Papa Don"t Preach trata-o por Mandinga, numa referência às suas raízes de griot, contadores de histórias, vozes de poemas épicos e tocadores de corá desde tenra idade.

Ricardo José Lopes, um dos organizadores das reservadas (e quase secretas, de tão reduzida que é a plateia) Lisbon Living Room Sessions, uma das melhores montras da música que se faz em Lisboa, tem sido responsável por muitos dos serões musicais em que Madonna tem participado, assinando a sua curadoria. "Estes serões acontecem naturalmente, em minha casa ou em casa de amigos. São espontâneos", explica, adiantando ainda que estes não são organizados propositadamente para a cantora assistir nem partem de uma procura específica da parte dela. "Houve um interesse de amigos comuns em juntarmo-nos. Ela era convidada também. Obviamente são serões com número de pessoas reduzido."

O agitador cultural assina a curadoria destas noites em que o foco está naquilo que é mais underground, espelho de uma "Lisboa autêntica, da alma de Lisboa". "Toda essa noite boémia de Lisboa existe", continua. "Se quiserem, as pessoas podem conhecer e perceber o que é autêntico. Não é normalmente às sextas e aos sábados, eu digo que é de domingo a quarta."

O fado de Madonna

"Tão sortuda de ter conhecido, ouvido e cantado com esta incrível lenda do fado", escreveu Madonna no Instagram, reagindo à morte de Celeste Rodrigues, nesta quarta-feira, aos 95 anos. A artista mostrou ainda a fadista a cantar A Noite do Meu Bem. As duas conheceram-se numa das incursões de Madonna pelas casas de fados lisboetas e chegaram a cantar juntas o clássico de Elvis Presley Can"t Help Falling In Love na Mesa de Frades, em Alfama.

Madonna ficou tão impressionada que levou Celeste Rodrigues, bem como o seu neto, o realizador Diogo Varela Silva, e o bisneto e guitarrista Gaspar, a Nova Iorque, para cantar na festa de passagem de ano que organizou em sua casa para amigos e família. Convidou também a cantora brasileira Ive, atualmente a viver em Lisboa, e os Bela Quarteto.

O fadista Marco Oliveira, que integrava o quarteto, recorda ao DN que nessa noite estava a cantar Alfredo Marceneiro - lembra-se de A Viela e Senhora do Monte - quando Madonna o interrompeu. "Perguntou de que é que aqueles poemas falavam, queria saber se seriam de intervenção, se eram de antes ou de depois da revolução. Acho que tem essa consciência do contexto político." Celeste Rodrigues, recorda o fadista, cantou Canção de Lisboa, com os versos: "Quando eu partir, reza por mim, Lisboa."

Ive, que foi apresentada à rainha da pop por Victoria Fernández, colombiana e amiga de longa data da artista pop a viver em Portugal, ficou impressionada com a forma acolhedora com que foi recebida. "Foi o que mais me tocou", afirmou a cantora brasileira ao DN.

Resta esperar pelo álbum, e fazer as contas (contando com o que não se conta) ao mosaico lisboeta que Madonna aqui descobriu.

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