Estará Portugal a colocar em causa uma amizade secular que nos trouxe até à realidade que hoje conhecemos e que, até aqui, aplaudimos e difundimos orgulhosamente?.As terras lusas foram, desde cedo, um terreno fértil para o estabelecimento de conversas e acordos com a China. Vejamos que as relações entre Portugal e o país asiático remontam ao início do século XVI, mais especificamente a 1513, quando navegadores portugueses aportaram em Tamão. E, desde então, muitos movimentos têm sido registados em direção à cooperação e desenvolvimento..Mas olhemos para um período mais recente, para que não restem dúvidas. Há menos de duas décadas, em 2005, Portugal e a China estabeleceram uma Parceria Estratégica Global, uma aliança de confiança política mútua e cooperação em setores estratégicos como Economia e Comércio, Energia, Cultura, Educação, ou Ciência e Tecnologia. E este acordo foi-se reafirmando, até 2019, ano em que se assinalou o 40.º aniversário das relações diplomáticas Portugal-China..Em termos práticos, resultam desta associação a implementação, em Portugal, do STARLAB - um laboratório de pesquisa de tecnologia avançada nos domínios do mar e do espaço; ou o Instituto Confúcio na Universidade do Porto e o Centro de Estudos Chineses na Universidade de Coimbra. Já o tínhamos notado também no domínio empresarial, quando foram assinados acordos entre empresas nacionais e entidades como a Union Pay ou a Huawei. Esta última com vista ao desenvolvimento da tecnologia 5G no nosso País e com o objetivo declarado de permitir um aumento qualitativo do acesso à rede de banda larga móvel e comunicações com maior fiabilidade, decisão entretanto e aparentemente bloqueada. Mas porque se alterou?.Estará Portugal a ser utilizado numa luta de poderes a que é alheio? Caso seja o país colocado numa posição de "préstimo", esperamos que seja para o diálogo, para a cooperação e para trazer o desenvolvimento tecnológico para a discussão, como até aqui tinha acontecido..Além disso, parece-me fundamental que se mantenha o respeito por mais de cinco séculos de história e se conserve a diplomacia que tanto caracterizou as relações sino-portuguesas. Os movimentos disruptivos, quando afetam algo tão basilar como a relação estabelecida entre Ocidente e Oriente, materializadas aqui na China e em Portugal, precisam de ser preparadas e até justificadas. Caso contrário, as consequências haverão de surgir..E devemos prestar especial atenção à forma como a credibilidade de Portugal pode ser afetada quando movimentos de exclusão tomam conta da agenda sem aviso prévio; e como tantos esforços podem resultar em desconfiança ao nível do investimento estrangeiro, nomeadamente chinês..A China é extremamente ágil a ajustar-se e adaptar-se a novas condições e cria facilmente estímulos para a geração de emprego, para o incentivo ao consumo interno e até para a diversificação de mercados e de gestão de risco. Portanto, e no final de contas, quem terá de trabalhar com condicionantes diferentes daquelas a que está habituado, é Portugal. E, com certeza, cada um de nós o sentirá na pele. Ou, pelo menos, na carteira..Secretário-Geral da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa (CCILC)