O primeiro ano do banho

Apesar de o público em geral preferir que o tempo ande para trás, ou que fique quieto no mesmo sítio, as televisões insistem em celebrar o facto de o tempo andar para a frente.
Publicado a
Atualizado a

Todos os canais televisivos portugueses voltaram a tomar colectivamente a decisão ousada de supervisionar a transição de um ano para o outro. O mesmo truque já tinha sido tentado em 2018, 2017, 2016 e, salvo erro, em datas anteriores, sempre com resultados no mínimo inconclusivos. Apesar da amplamente comprovada preferência do público em geral sobre esta matéria - que o tempo ande para trás ou, na pior das hipóteses, que fique quieto no mesmo sítio -, as televisões insistem em celebrar o facto de o tempo andar para a frente.

Um dos primeiros rituais a cumprir antes de o tempo andar para a frente é proceder ao inventário do tempo que ficou para trás, idealmente sob a forma de galardões atribuídos no Dubai ou em Belém. A última semana de 2019 terminou com Jorge Mendes a receber, directa ou indirectamente, vários Globe Soccer Awards e com Jorge Jesus a receber, das mãos do Presidente da República, a Ordem do Infante D. Henrique, como reconhecimento pelo seu trabalho em gritar instruções cientificamente precisas como "VAI!" ou "CORRE!" ou "TRIÂNGULO!" a distâncias por vezes superiores a trinta metros. Jesus junta-se assim a uma lista restrita e prestigiada, na companhia de nomes como o banqueiro Jardim Gonçalves, o empresário Armando Vara, o coleccionador Joe Berardo, o embaixador Jorge Ritto, o fadista João Braga, o ilusionista Luís de Matos e o defesa central Roderick Miranda (que também pode jogar a trinco).

O atribuidor oficial de condecorações continuou a manter as televisões atarefadas durante grande parte do dia 31. "Marcelo deve... aterrar aqui na... Terceira... dentro de... quinze minutos... ou...a qualquer momento...", garantiu aos soluços uma repórter da TVI em pleno duelo com o vento, antes de a emissão passar para dentro de portas, onde o correspondente gastronómico também tinha novidades para apresentar: "Vamos agora ver a ementa... há aqui muita coisa para o Chefe do Estado... será previsivelmente a última refeição do ano para o Presidente da República... vejo aqui uma feijoada de lulas..."

Na CMTV, onde a prosaica designação "Corvo" foi rapidamente promovida a "ilha dos afectos", a preocupação era menos a dieta e mais o combate ancestral entre o simbolismo e a meteorologia: "Marcelo acaba de aterrar... aqui nos Açores... as condições meteorológicas... é um acto simbólico do Presidente ao escolher os Açores... a chuva... o vento... as condições meteorológicas..." A narração acompanhava imagens em directo, que mostraram o Presidente, num gesto simbólico, a sair de um avião e, noutro gesto simbólico, a entrar num avião diferente.

Em território continental, o tema da noite dividiu-se entre "as condições meteorológicas" e "as apertadas medidas de segurança". "No Terreiro do Paço, as medidas de segurança começam a apertar, não é assim, José Gabriel Quaresma?", começou um segmento na TVI 24. "Eu estou neste momento no ponto nevrágico da noite e... como podem ver... as pessoas atrás de mim... estão a ser mandadas sair..." Na SIC, tentava-se refinar a qualidade específica das "medidas de segurança", que variavam entre o "apertadas" e o "fortes": "No recinto... há fortes medidas de segurança... não podem entrar objectos... portanto... pontiagudos... como chapéus-de-chuva... devido às apertadas medidas de segurança... e além disso não vai chover..."

Na CMTV, privilegiava-se o inquérito formal aos presentes, todos eles convidados a expressar os seus "desejos" para o novo ano. "Vamos aqui chegar à fala com este jovem... És de Lisboa?" "Sou de Sintra." "E tens algum desejo especial para 2020?" "Isso é confidencial." "Mas não tens assim um desejo de Ano Novo mais especial que queiras partilhar connosco?" "Que essa câmara deixe de apontar para mim." A recusa foi uma excepção e não a regra. Quase toda a gente optou por responder, posicionando-se num largo espectro entre "muita saúde", "muita paz" ou "viajar até ao Algarve". O conjunto das respostas provou, pelo menos, a influência decisiva na retórica pública do "comentário político", do "painel televisivo" e das entrevistas a futebolistas. Um inquirido garantiu que o seu desejo especial para 2020 era a oportunidade de poder "continuar a dar o máximo para concretizar os meus objectivos". Outro incluiu na sua resposta as expressões "tecto salarial", "o governo", "a esquerda" e "eu, enquanto empregador", todas elas coordenadas pelas não menos fiáveis expressões "a meu ver", "na minha óptica" e "isto é muito simples".

Na TVI, 2020 estreou-se com um anúncio da Remix, perdão, da Remax, ao som de um remax, perdão, de um remix de Barco Negro, da autoria de DJ Ride e Stereossauro (feat. Amália Rodrigues). "Ao nível de passagens de ano", comentou uma transeunte, "nunca tinha testemunhado uma tão espectacular".

O dia 1 trouxe a sua própria bagagem de tradições para cumprir, entre elas a invasão concertada de maternidades para filmar o "primeiro bebé do ano" ou, sendo mais rigoroso, para filmar alguns bebés nascidos nas últimas horas cujos pais estejam disponíveis para ser entrevistados. "Vamos aqui então falar com a mãe da pequena Núria... isto é que foi, hem... começar uma vida e começar um ano." "Foi em grande." "Quais são as expectativas agora... para os próximos... hum... dias?" "Vai correr tudo bem."

Na CMTV, entrevistavam-se também alguns mártires do "primeiro mergulho": "Dos mais novos aos mais velhos... ninguém perde o primeiro ano do banho... perdão... o primeiro banho do ano... Vamos aqui chegar à fala com algumas pessoas... a alegria essa é visível de ver... o contágio das pessoas... temos aqui este senhor... a água está boa?" "Está boa." "O sol também ajuda, não é?" "O sol ajuda." "E desejos?" "Muita paz... muita saúde."

Na TVI 24, o "primeiro mergulho do ano" escolhido decorria nas águas dos Açores, sob condições aparentemente milagrosas. "Há alguns minutos chovia aqui copiosamente, agora brilham os raios de sol... parece que o sol estava à espera que o Presidente entrasse na água... este mergulho histórico... este mergulho simbólico... é uma imagem que ficará certamente para a memória..." O espectador que achasse a retórica insuficientemente exaltada tinha sempre a opção de mudar para a SIC. "No Corvo, Marcelo é uma espécie de ilha... rodeado de mar e de afectos por todos os lados... Chovia antes da aparição do Presidente... mas o Presidente pediu e os deuses deram tréguas... parou de chover..." Simbolicamente arrepiados, os pêlos do peito do Chefe do Estado, bem visíveis de ver, prometeram dar o máximo para concretizar os seus objectivos.
Escreve de acordo com a antiga ortografia.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt