O predador que mudou a vida a dezenas de mulheres

Henrique Sotero fez muitas vítimas. Serão 40, confessou. É a parte que escapa ao 'puzzle' policial. O agressor está detido, as provas recolhem-se, mas os danos persistem.
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Limpava os vestígios de esperma com uma das suas meias. Metódico, a uma das vítimas chegou mesmo a pedir um guardanapo para eliminar as provas. Apesar do seu modo de actuar ter um padrão, Henrique Sotero, o homem de 30 anos que agora está detido, deu muito trabalho à polícia. No entanto, no dia 5 deste mês deixou de ter uma vida dupla: apanhado pela PJ, confessou ter violado cerca de 40 mulheres. Os psicólogos denominaram-no de "predador". Na opinião pública ficou conhecido pelo "violador de Telheiras".

As pistas que sempre tentou eleminar transformaram-se nas provas do crime. Ao "vasculhar as malas" de adolescentes deixou impressões digitais nos documentos, indicou fonte policial.

O modo de actuar era semelhante em quase todos os casos: seguia as vítimas até ao local onde habitavam e depois ameaçava-as dentro do elevador com uma faca. O acto - sexo oral e/ou masturbação - era consumado nas escadas, no último andar, ou nas arrecadações sobretudo entre as 15.00 e as 18.00 às terças-feiras. Actuou assim durante meses e tinha como alvo jovens entre os 13 e 17 anos. Mas foi contemplando excepções. Há registo de um caso em via pública, e não a uma terça-feira, indicou fonte policial. Noutro, actuou a uma quinta-feira. Os casos reportados são na zona de Telheiras, mas terá também atacado em Oeiras, Alfragide e Linda-a-Velha.

À polícia foram chegando mais informações. O jovem alto e magro de cabelo curto, com entradas. Que usava óculos escuros "tipo" Ray Ban e mochila Eastpack. Vestia-se de forma desportiva. Às vezes usava um panamá. Foi visto no autocarro e nos cafés, em Telheiras. Também o viram passar de carro, com a namorada. A investigação demorava mas as pistas iam aparecendo. Como um puzzle.

Em Agosto, a história de uma das vítimas chegou à imprensa. Uma adolescente de 17 anos esperou 12 horas sem poder comer, beber ou tomar banho, por exames periciais no Hospital de Santa Maria após ter sido obrigada a manter sexo oral com "um estranho". O pai da menor denunciou a história. "Rita" foi abordada à porta de casa, cerca das 20.45 de uma terça-feira quente - sabe-se hoje que por Henrique Sotero.

Esperou meio dia para lhe ser feita uma zaragatoa depois de ter apresentado queixa na PSP de Telheiras. O Instituto Nacional de Medicina Legal informou que não tinha técnicos de serviço à noite. As notícias replicaram o crime.

Outro caso chamou a atenção. Consumou "uma violação na via pública". Seriam cerca das 10.00, "num canto escuro junto a um viaduto" , depois de ter seguido a vítima desde o Alto da Faia. Foi neste dia, [há mais de seis meses] que quis eliminar as provas com um guardanapo,segundo disse ao DN fonte policial . A queixa foi apresentada às autoridades. Não há testemunhas. Apesar das tentativas para não deixar rasto, segundo a mesma fonte, este foi um dos locais onde se recolheram vestígios.

Com o aumento das denúncias intensificaram-se as patrulhas. E a partir de Outubro não terá circulado por Telheiras durante algum tempo. Ficava períodos, por vezes de três meses, sem cometer crimes. Mas regressava.

Chegou também a abordar duas raparigas que seguiam juntas. Desta vez tentou o coito vaginal. Mas os gritos das vítimas impediram-no. Assustou-se e fugiu. É tambémsuspeito de ter obrigado, pelo menos, uma rapariga a fazer sexo oral na presença do namorado, após ter seguido o casal até ao terraço de um prédio. Aquele de mais fácil acesso.

Para apanhar o homem de 30 anos, acusado de violar raparigas, a polícia fez um apelo. Que os olhares sobre os rostos estranhos que passassem por Telheiras fossem mais críticos. Para tal, mostrou-se aos comerciantes da zona retratos feitos através das características fornecidas nos testemunhos. Foram também "avisados nos últimos dias de Janeiro pela polícia que seriam instaladas câmaras de vigilância e que iam reforçar o patrulhamento à paisana", contou o dono de um quiosque, adiantando que lhe mostra- ram os retratos.

A PJ estava no encalço do homem de 30 anos desde 2008. Mas já nos tempos de faculdade terá abusado de raparigas mais novas. Numa década, Sotero mudou a vida de dezenas de vítimas. A maior parte não apresentou queixa. Sabe-se que cinco o fizeram. Em Telheiras falava-se pouco. Mas de "Rita" contavam que se mudou com a família. Para Inglaterra.

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